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Nem rigor nem vigor

Por Guilherme Whitaker em 23/12/2002 15:45


Nem rigor nem vigor
Textos de Marcelo Ikeda


A Mostra Curta Cinema, a principal mostra de curta-metragens do Rio de Janeiro, oferece a cada ano um painel amplo e diversificado não só da produção nacional, mas também da internacional. Além da tão aguardada sessão dos “Lançamentos Cariocas”, já que a Mostra acontece no Rio de Janeiro, os cariocas puderam assistir aos principais curtas exibidos nos Festivais de todo o país. A organização da Mostra está de parabéns pelo trabalho apresentado, pelas sessões com ingressos a preços populares, e pela ocupação do Odeon, um cenário mais que adequado para o evento.

O painel apresentado, como todo festival de curtas, foi de grande diversidade temática e estilística, sendo completamente improvável realizar num curto texto um apanhado do que tenha sido a produção carioca exibida na Mostra. A predominância, no entanto, foi do filme narrativo, de uma linguagem de comunicação fácil com o público e da obsessão pelo acabamento técnico como fator determinante de qualidade. Ou seja, predominou a correção, tanto em termos narrativos quanto em termos técnicos. O que rapidamente implica que raros foram os trabalhos que buscaram na linguagem do curta-metragem um caminho de descoberta e de revelação, de ânsia pelo frescor ou pela inventividade.

Num momento em que o cinema brasileiro atravessa uma bela safra de longa-metragens, estando em cartaz filmes como Madame Satã e Edifício Master, o primeiro com um vigor indescritível, e o segundo com um grande rigor estético, a safra de curta-metragens parece estar muito longe de acompanhar essa produção. Nem de um lado nem de outro: raros são os curtas com o vigor e com a pulsão do filme de estréia de Ainouz, mais raros ainda os com um rigor e com a maturidade do veterano Eduardo Coutinho. Nem rigor nem vigor.

Ainda que se ressaltem os filmes que este autor não pôde acompanhar (veja lista abaixo), a safra de curta-metragens vista na Mostra foi uma das mais fracas dos últimos tempos. A correção, tanto técnica quanto narrativa, preponderou. O que se viu foi a falta do risco, a visão politicamente correta, em suma, o cinema “papai-e-mamãe”.

* * *

Dois filmes do Nordeste seduziram por sua poesia particular. O primeiro é No Passo da Véia, com a incorporação da geografia local, com uma atuação simples de atores não-profissionais, que confere ao filme uma dignidade impressionante. O segundo é O Céu de Iracema, um filme de montagem, em que de forma muito lúdica se envolvem duas crianças a perseguir uma única pipa.

Outro destaque foi Como se Morre no Cinema, que, ao mostrar a história do papagaio que supostamente contracenou com a cachorra Baleia, de Vidas Secas, mescla o documentário e a ficção de forma absolutamente criativa, com uma montagem de ritmo exemplar que cativa o público, e se revela uma homenagem bem-humorada a um dos maiores cineastas do cinema brasileiro, Nelson Pereira dos Santos.

O grande destaque da Mostra, no entanto, foi o filme de um veterano. Equilíbrio e Graça, de Carlos Reichenbach, é um ensaio íntimo sobre as artes num painel que, além da filosofia, envolve música, dança, fotografia, cinema, pintura e literatura. Sensual e austero, absolutamente sedutor, fascinante por seus termos rítmicos e espaciais, Reichenbach promove uma poesia da luz, um encontro entre tempo e espaço, em um dos trabalhos mais pulsantes e apaixonados do atual cinema brasileiro. Enfim, o antípoda da atual safra de curtas teve vigor e rigor de sobra.

Filmes não vistos: À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel // Açaí com Jabá, de Marcos Daibes, Walerio Duarte e Alan Rodrigues //Dercy Beaucoup, de Paula // Dez Dias Felizes, de José Eduardo Belmonte // Docinhos, de Frederico Pinto e José Maia // Duralex Sedlex, de Luciana Tanure, Henrique Silveira e Marília Rocha // El Chateau, de Victor Hugo Borges // Esse Deserto, de Ana Flávia Dias Salles // A Janela Aberta, de Philippe Barcinski // O Lobisomem e o Coronel, de Ítalo Cajueiro e Elvis Kleber // Morte., de José Roberto Torero // Não Perca a Cabeça, André Luiz de Luiz // Nervos de Aço, de Ed Andrade // Remédios do Amor, de João Vargas Penna // O Telepata, de Gustavo Brandão // Verdade ou Conseqüência, de Aleques Eiterer // Visionários, de Fernando Severo.


Entre o documentário e a ficção

Quatro dos documentários exibidos na Mostra Curta Cinema comprovaram a versatilidade da safra documental brasileira, recusando o discurso didático para promover um misto entre processos ficcionais e documentais. Ao invés do simplório filme de depoimentos, da estética convencional, foram exemplares de um cinema documental que busca novas formas de expressão e contato com o público. Ainda, em cada curta, as cenas ficcionais foram utilizadas com propósitos diferenciados.

O Sumiço do Amigo Invisível resgata o imaginário infantil, retratando o diálogo das crianças com amiguinhos que na verdade não existem a não ser em sua imaginação. Os depoimentos de pais e professores, além dos de várias crianças, são intercalados com cenas ficcionais em que uma mãe descobre que sua filha tem um amigo imaginário, e percebe que tal fato deve ser visto com naturalidade, e não como um distúrbio psicológico. Todo o conflito entre verdade e ilusão em que se baseia toda a questão do “amigo imaginário” foi traduzido pela diretora Paola Leblanc através de um misto entre o documental e o ficcional. No ápice desse processo, estão sentadas no banco de uma praça algumas mães. Uma delas é a atriz do filme; as demais, mães que foram entrevistadas. Num campo-contracampo, duas mães conversam: a mãe-atriz e a mãe-entrevistada. A noção, portanto, do “entrevistador”, é revista, a partir da incorporação da ficção no processo documental.

Em Bichos Urbanos, o documentário é revisto a partir do humor. Ironizando exatamente o documentário meramente ilustrativo e didático, parodiando sua estrutura, Bichos Urbanos resgata a idéia de Ilha das Flores. Mas aqui, o fim não é social, não se busca o contraponto como forma de discurso. Surge, então, o humor como crônica de um Rio de Janeiro urbano. Ao reverso dos programas de um “Discovery” ou mesmo de um Globo Repórter, Bichos Urbanos utiliza o documentário mais como meio do que como fim. Trata-se, em muitas medidas, portanto, de um falso documentário.

Porrr Gentileza começa com um contraste que sintetiza vários dos objetivos da obra. Num plano longo, a imagem nos mostra um Gentileza ficcional enquanto o som nos revela um depoimento do próprio Gentileza. Uma máquina raspa a zero os cabelos do Profeta, remetendo às internações em hospícios. Só temos o verdadeiro Gentileza pelo som; a imagem nos traz um Gentileza-ator. Este Gentileza sai pelas ruas vestido como o Profeta, e o documentário procura captar a reação das pessoas nas ruas do Centro em contato com o ator. A artificialidade do ator, sua dificuldade em representar um mártir sem cair no estereótipo, é explorada pelo documentário a partir de um depoimento do próprio ator. Além disso, as pessoas nas ruas sabiam não só que aquele não era o verdadeiro Gentileza mas também que estavam sendo filmadas. Num interstício entre a impossibilidade de retratar o verdadeiro Gentileza e a energia que mesmo um falso Gentileza transmite para as pessoas, Porrr Gentileza se revela uma honesta investigação sobre as possibilidades do documentário.

Como se Morre no Cinema poderia ser mais um documentário didático e enfadonho sobre um grande filme brasileiro, no caso, o clássico Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Mas a diretora Luelane Loiola Corrêa optou por um fato inusitado sobre a recepção do filme no Festival de Cannes: a acusação de que a cachorra Baleia teria sido supostamente assassinada para a realização da cena. Mas Luelane vai além, inserindo um componente ficcional que revira pelo avesso seu argumento já original: busca a história do papagaio de Vidas Secas, que obviamente não conseguiu ficar tão famoso quanto a cachorra Baleia. Através dos paralelos entre Baleia e o tal papagaio, Luelane, a partir de uma visão do documentário que busca essencialmente um diálogo com o público, recusa o tom cerimonioso, e realiza um dos mais inventivos curta-metragens da atual safra brasileira. Mesclando com rara habilidade imagens de arquivo, fotos de jornais, cenas ficcionais (tanto em tempo presente quanto em tempo passado) e depoimentos, o curta por fim se revela uma bela homenagem, em tom de crônica, a um dos maiores cineastas do cinema brasileiro. A mistura entre a ficção e o documental se revela, desta vez, através de uma vertente metalingüística.


Curtas Petrobras

Muito se comenta sobre as limitações de um concurso para selecionar projetos audiovisuais. Muito se fala, também, de sua importância, para incentivar a produção de curta-metragens nacionais.

Muitos poderiam esperar, a princípio, como resultado de um concurso da Petrobrás, que os projetos selecionados tendessem para um filme simplesmente correto, com um baixo nível de ousadia. Mas o que se viu foi absolutamente o contrário: os oito filmes exibidos no programa Curtas Petrobrás, todos em 35mm, se caracterizaram pela grande diversidade, tanto estética quanto de gênero e formato. Houve filmes kinescopados, animações, filmes experimentais, filmes políticos, comédias e dramas. Houve desde uma comédia nonsense como Um Trailer Americano até um filme altamente experimental como Militância, de Carlos Adriano. A diversidade da seleção se mostrou o grande mérito dos Curtas Petrobrás, revelando-se com escolhas ousadas e criativas. Nada mal.

Duas comédias ficaram entre as preferidas do público, optando por uma visão metalingüística, fugindo do filme narrativo. O quase niilista Um Trailer Americano se baseia no nonsense e em alguns momentos se parece com uma caricatura do cinema marginal. Suspiros Republicanos... zomba dos filmes históricos brasileiros feitos com poucos recursos. Ambos são muito sintomáticos do que uma parcela expressiva de realizadores espera de um curta-metragem: a piada infame.

Do outro lado, estiveram os dois melhores filmes da Mostra. O primeiro é No Passo da Veia, em que Jane Malaquias trata com uma ternura ímpar a verdadeira maratona de uma avó que vende animais para comprar um desodorante para seu neto. Ingenuamente belo e colorido, com atuações simples dos moradores locais que conferem ao filme uma dignidade pouco vista nos atuais curtas brasileiros, é em muitas medidas um filme ao avesso do que se espera atualmente de um curta-metragem.

Por fim, o grande destaque da mostra vem de um cineasta veterano. Equilíbrio e Graça, de Carlos Reichenbach, é uma obra-prima, um filme em que a luz e a imagem formam uma sinfonia audiovisual, de um requinte singular. Começando com um encontro entre filósofos do Ocidente e Oriente, Reichenbach promove um ensaio bastante íntimo sobre a arte como essência, num painel que, além da filosofia, envolve música, dança, fotografia, cinema, pintura e literatura. Mesclando, ainda, cenas filmadas em digital com cenas com uma exuberante fotografia em 35mm, entre o interior e o exterior, entre a luz e as sombras, entre as pedras e o mar, Equilíbrio e Graça, como o próprio título se apresenta, é uma viagem pessoal, rítmica e espacial, muito em falta no atual cenário dos curtas brasileiros. Devemos agradecer a Reichenbach, e parabenizar a Petrobrás pela iniciativa, ao mostrar aos jovens realizadores um pouco do rigor e do vigor que o curta-metragem tanto deve possuir.


Dois Filmes Cariocas

Uma das mais gratas surpresas deste festival, o que surpreende em Vinte e Cinco é seu clima ambíguo de nostalgia, conferindo ao filme um tom particular de melancolia e desencanto, mesmo nos momentos em que o filme escolhe o riso. Por trás de vários recursos que beiram o lugar-comum, entre algumas piadinhas de mau gosto, existe tudo o que se espera de um primeiro filme: retrato extremamente sincero, consciente de suas limitações, mas com a energia de um ensaio puramente confessional, ingênuo e com momentos de poesia.

Dialogando com um cinema americano dos anos oitenta sobre adultos que não querem envelhecer (especialmente O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas), Vinte e Cinco, com uma câmera digital que dá ao filme uma mobilidade saudável, uma textura móvel e frígida que tanto se adequam ao filme, possui uma série de signos ligados a uma melancolia: o uso da voz off, o mar, a mala por fazer, a casa para ser vendida. Entre as lembranças, a nova festa, a reunião com as amigas, há sempre um sentimento de ausência, um clima de impossibilidade.

Filme pós-adolescente que não se pretende a vôos maiores, Vinte e Cinco nos encanta não raras vezes, por, sem abrir mão de um contato com o público, fazer cinema narrativo honesto e confessional. O que se pode esperar mais de um primeiro filme?

* * *

Por trás do reino de artifícios técnicos, um curta manteve a linha do cinema crítico, de ótica claramente popular e debochada, como típico filme de 16mm. Se Tá Tudo Dominado não chega a ser inovador em seu trabalho de linguagem, pela busca pelo cinema narrativo, ele o é pelo seu tom de farsa, por seus toques claramente surrealistas. Através da vidinha de um camelô do Largo da Carioca que vende merda (literalmente, e a “mercadoria” sempre fica fora de quadro), o curta fala na verdade da difícil rotina do realizador independente, e de como tudo o que é alternativo acaba sendo incorporado ao grande sistema. Recusando o cinema do bom gosto, tanto na temática quanto na estética, Tá Tudo Dominado em muitas medidas é um filme marginal no atual cenário de curtas brasileiros, e se não chega a ser brilhante, cumpre, portanto, o seu papel de consciência crítica.

Marcelo Ikeda, claquete@hotmail.com


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