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Nova safra de curtas mineiros é excelente

Por Guilherme Whitaker em 12/11/2001 14:24


Nova safra de curtas mineiros é excelente
Mostra Curta Minas exibe 14 filmes do Prêmio Estímulo local e várias produções independentes - ABD faz política 


Não é de hoje que em cada região do Brasil e do mundo existem e/ou faltam pessoas interessadas em pensar e fazer do cinema algo mais que mero comércio, fazer do cinema arte e também um ato/fato político e, como tal, fundamental. Neste sentido a Segunda Mostra Curta Minas foi completa porque além de exibir filmes, debate a política cinematográfica para que ela melhore e não piore com o passar do tempo.

Minas Gerais muito ganhou com tal produção de filmes e com sua exibição. Neste filmes, muitas vezes, sotaques e esquinas e cores e nomes habitam o mesmo fotograma e de forma tão linda quanto particular e apenas possível porque centenas de pessoas se envolveram na realização dos filmes e ma própria mostra. Tais filmes são fruto do Prêmio Estímulo local, um dos melhores do Brasil, que além de permitir a produção de filmes novos, ajuda na finalização de filmes que, por pouco, ainda não foram finalizados.

O resultado de tanto esforço pôde ser notado e vivido na primeira noite do evento, quando mais de 1000 pessoas lotaram o Palácio das Artes pra ver curta-metragem.

Mas cinema não é apenas fazer filmes e mostrá-los... como sabemos, cinema é arte, é técnica e é política, aliás, a política está em tudo que nossa espécie toca, faz, quer... Por isso é triste notar que muitas vezes os próprios realizadores que ganham editais que financiam seus filmes não tem consciência de que tais 20 ou 50 mil moedas são públicas e que, além disso, são também fruto de todo um processo fundamentalmente político, quando a sociedade organizada exige dos governos locais a formulação de leis e editais de apoio à produção de filmes. Que tais editais não caem do céu nem são fruto de alguma natureza distante do condicionamente humano. A ABD, Associação Brasileira de Documentaristas, há mais de trinta anos luta por tais direitos para todos os realizadores, porque sabe que tais filmes, sendo culturais e não comerciais apenas, são importantes, também, para aquelas comunidades onde são produzidos. Todas as cidades brasileiras deveriam ter núcleos capazes de produzir e exibir imagens de suas próprias questoes, sejam elas locais e/ou universais.

Sabendo então que cinema é política, a Curta Minas hospedou um encontro da Associação Brasileira de Documentaristas, da qual é associada desde 1999. Nos dois dias deste encontro muitas questões e cartas foram discutidas e elaboradas, inclusive com os preparativos para o vindouro Congresso Brasileiro de Cinema, a nova MP criadora da ANCINE e a reformulação da Lei do Curta, que ainda existe porém não funciona porque não há fiscalização e tal...

Já a Mostra Curta Minas exibiu a última safra de filmes mineiros, mais de 30 filmes de vários formatos e temas. Não tive como assistir a todos mas comento alguns:

Françoise - Singelo e bem feito filme sobre o drama de Françoise, uma bonita, estranha e solitária moça que trabalha numa rodoviária e fica a puxar assunto com os viajantes que por ali passam. Quem é ela? O que quer com ele? E ele, o que passa a querer dela? Diálogos densos e impressionante atuação de Débora Falabella, que segura a onda da personagem do início ao fim sem deixar a peteca cair... Imperdível.


Dois homens - Filme que experimenta o absurdo inserido numa situação comum, pessoas num bar a conversar ao mesmo tempo que dois homens (não?) se comunicam por gestos ou pela inércia absoluta.


Geografia do som - Metalinguagem, o que é real e o que é falso, de onde vem o foco, a luz, o som é original do lugar que se vê? Várias pessoas em vários lugares de Beagá fazendo do mundo e do enquadramento um incessante palco.


Duralex sedlex - Excelente relato sobre um pouco da vida e obra de José Japonês, inesquecível figura que conta e mostra sua particular relação com a vida e com o cinema... Documentário imprevisível, gracioso e nostálgico... Dura é a lei... imperdível.


Clandestinos - Importante documentário que re-lembra a vida e a morte de pessoas que viveram na clandestinidade. Através de depoimentos e narrativas o passado e o presente convivem criando um mosaico nem sempre feliz, mas sempre sincero, sobre o que é ou seria a liberdade do ser diante do mundo, das instituições e dos outros seres.


Dalmar e Rosália - Comédia sobre um peculiar casal com manias inocentes ou meramente estranhas... Enquanto ele imita patos a fim de penar seu quarto, ela toma banho de vestido enquanto torce os dedos os pés. Zelosa direção de arte. Imperdível.


Bailarina - Drama/aventura sobre a arte de vencer na vida (ou alcançar seus objetivos) fugindo ou se aproximando da ética. Ele é músico e sua banda faz sucesso com ajuda do Estado. Ela é bailarina e não suporta a burocracia e certas regras impostas. Ela não se submete, ele sim. Mas não por muito tempo... A busca da liberdade os aproxima mas logo chega a polícia e acaba o filme.


Esse deserto - Filme que experimenta o mundo através do cruzamento de várias histórias que se passam num mesmo edifício. Uma atriz que ganha a vida fantasiando-se de Minie, um doente terminal e sua enfermeira atenta mas nem sempre presente, um menino a transformar a sala numa nave espacial...


Negócio fechado - Honesta comédia que explora o jeito bem mineiro de se fazer um negócio, quando mais importante que ter lucro é disputar o preço em intermináveis e queridas prosas. Imperdível.


Durante a Mostra aconteceria uma sessão comentada com filmes de realizadores da ABD&C-RJ. Minutos antes de começar tal sessão a bela Cybelle me liga dizendo que um dos filmes, ´Bella`, da bela Hanna, não estava sendo achado. Comecei então uma louca busca, em cima da hora, por todos os lugares possíveis de achar tal fita. Tinha certeza quase absoluta que havia levado-a, até me lembrava do nome do filme escrito à mão ao lado da fita, jurava quela estava dentro da bolsa com os demais filmes... mas nada de achar... minha pré-ocupação aumentava porque, se de fato tivesse perdido tal filme seria terrível não apenas por causa da mostra, mas porque o filme era o original, em beta. Puto e cada vez mais triste, me restava torcer para que tal filme estivesse no Rio, que por bobice eu não o tivesse levado à Minas... Antes de desistir, porém, tive esperanças de achar tal fita beta no quarto do hotel ou no carro ou em sacos plásticos espalhados, etc...Ou seja, por causa da correria toda antes e durante a sessão ela acabou não sendo uma sessão comentada, porque estava t (de triste) e p (de pluto) da vida. Peço desculpas à produção da mostra, aos presentes e principalmente ao Marcelo Diaz e ao Luiz Castro, realizadores que gentilmente cederam seus filmes para exibição e que estavam presentes... e que não foram por mim sequer apresentados ao público.... foi mal... Ah, de volta ao Rio achei a doce e inertemente equilibrada fita na estante.

Por Guilherme Whitaker


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