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O Chamado de Deus: a religião como um ambíguo retrato político do Brasil

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:56


 

O Chamado de Deus: a religião como um ambíguo retrato político do Brasil
Autor: Marcelo Ikeda


O Chamado de Deus é uma curiosa simbiose entre a visão do processo religioso como um fato eminentemente político, herdeiro da tradição cinemanovista, e, ao mesmo tempo, a visão do cinema dos anos 90 como um painel ambíguo da identidade cultural do brasileiro, evitando as tentativas de síntese. Por outro lado, sua força reside em trabalhar com os elementos de linguagem de forma a negar tanto o esquematismo unilateral da primeira abordagem quanto o esquivamento de um olhar estrutural sobre a questão nacional típico da segunda abordagem. Vamos em partes.

O ponto mais importante em relação às premissas de O Chamado de Deus é o ponto de abordagem escolhido em relação à grande amplitude de cerimônias religiosas no Brasil. Sem querer promover um retrato desse conjunto descomunal (como um Fé, por exemplo), Joffily escolhe um tema específico. Mas, paradoxalmente, o mais surpreendente é que ao invés de se concentrar em manifestações religiosas consideradas alternativas, como forma de exibir um ato praticamente desconhecido do grande público (p ex, o curta Pombagira), O Chamado de Deus se concentra no núcleo da manifestação religiosa no Brasil: a Igreja Católica. É exatamente a partir de um resgate ao questionamento de um núcleo – e não de uma proposta de diálogo com uma forma periférica, de forma a resgatar uma suposta dignidade de uma certa minoria marginalizada (ver p ex Juliu´s Bar) – que o filme afirma seu projeto político.

Justamente pelo fato de a Igreja Católica ser o mainstream de uma forte área de influência (a religião) que, como todos sabemos, controla e exerce uma forma de poder que ratifica os grupos que estão no comando do país, com uma visão eminentemente centralizadora e conservadora, seria de se esperar que um filme político sobre a Igreja Católica fosse crítico à sua estrutura e que denunciasse de alguma forma suas possíveis formas de controle e comando. No entanto, a maior virtude do filme de Joffily reside exatamente em evitar os paradigmas desgastados em relação à visão desses grandes blocos para promover um retrato que só revela suas intenções de forma extremamente sutil e cuidadosa. O filme tem a virtude que só os melhores documentaristas conhecem que é nunca revelar suas intenções desde o início, mas construí-las a partir do próprio desenrolar do filme. A partir de um caminho, obviamente construído e arquitetado cuidadosamente pelos realizadores do filme, é que Joffily vai revelando ao espectador as possibilidades de sua construção.

Joffily (e obviamente Escorel) vão nos fornecendo pouco a pouco pistas esparsas sobre o objetivo último do filme. No início, estamos presos aos depoimentos em si, à lenta apresentação dos entrevistados e seus mundos diferentes. Pensamos que os seis jovens entrevistados são parte de um mesmo grupo: o de jovens seminaristas. O filme segue morno. Mas gradualmente a partir de um ponto que só se apresenta claramente em nosso profundo subconsciente, o filme revela sua natureza política. Essas pistas surgem pouco a pouco, mas quase não são notadas. Desde o começo, a polaridade se apresenta em torno de duas festas, de dois palcos, de dois eventos, que ao mesmo tempo são completamente divergentes. Desde este começo, Joffily situa magistralmente toda a construção dramática (talvez o termo não seja totalmente exagerado) que rege o filme. Em torno de objetivos e estratégias a princípio tão comuns, os religiosos já apresentam discursos e posições diversas. Por um lado, a megalomania esfuziante e mágica do megastar Padre Marcelo Rossi. Por outro, o microcosmo com um sutil sentimento de decadência do mundo do circo, uma expressão quase desesperadamente trágica, uma realidade social oposta. No primeiro caso, a brilhante oportunidade de Joffily em confirmar que a entrevista do Padre Marcelo Rossi seria para a "Rede Brasil". A sequência culmina com a triunfante entrada do Padre no palco, acompanhada pela câmera que registra a multidão de espectadores agora em alvoroço, oferecendo para o espectador o contracampo sem corte. No segundo caso, a questão da encenação e da teatralidade tão cara ao documentário. Em segundo lugar, o uso da máscara, através da pintura facial (que será retomada no palco por um dos seminaristas). Por um lado, não poderíamos supor que o segundo grupo utiliza, em escala reduzida, os mesmos métodos do primeiro grupo de sedução do público, tão criticados por aquele?

É a partir das contradições e das ambiguidades desses projetos que Joffily coloca em pauta a questão da religião de forma política. Seguindo os seis vocacionados, Joffily estrutura seu projeto a partir de uma mitificação: o "chamado" de Deus e o reconhecimento de um processo vocacional. No início, o diretor acompanha os caminhos comuns aos seis jovens, norteando os pontos comuns que os fazem parte de um mesmo grupo. No entanto, o filme assume outra proporção quando o diretor utiliza uma estratégia interessantíssima: ele coloca em choque o grupo de meninos, mostrando a um grupo as declarações feitas por membros do outro grupo. Em geral, tais declarações envolvem o papel da Igreja, a função do chamado e suas características individuais. Dessa forma, o filme quebra essa suposta aura de unidade, em torno da vocação comum aos meninos, para a formação de dois nítidos grupos: o da Renovação Carismática, e outro, mais próximo da Teologia da Libertação (embora recusem este rótulo). Numa autêntica "lavagem de roupa suja", um grupo reage quase sempre de forma agressiva e irônica às declarações do outro grupo. Essa divergência, ao longo do filme, torna o conflito cada vez mais evidente. A Igreja Católica também é um órgão partido, como um espelho do próprio Brasil, e se depara com as contradições intrínsecas da sua própria estrutura interna de poder. Assim, os depoimentos dos meninos ganham nova conotação: são pequenas unidades que revelam um discurso, que prega não apenas a tolerância católica, mas conscientemente um processo político de perpetuação. O aparentemente ingênuo "chamado de Deus" se consolida em cada seminarista através de estruturas próprias de poder, como um processo claramente político.

Por outro lado, o olhar atento de Joffily se esquiva de uma abordagem essencialmente institucional para também se concentrar nas escolhas e nos dilemas pessoais de cada um desses meninos. Daí seu filme nunca perde um olhar humano, numa ênfase nos depoimentos com a intimidade característica do digital, retratando o processo de busca, as dificuldades e os preconceitos e o percurso até o ingresso no seminário. É exatamente dessa combinação entre o individual e o coletivo que reside a particularidade de O Chamado de Deus. Ao mesmo tempo em que permanece intimista e centrado nos dilemas do indivíduo envolvido numa escolha particular, que portanto o distingue dos demais, numa abordagem típica do cinema contemporâneo, o filme se revela claramente político na investigação de uma estrutura de poder e do retrato das ambiguidades do núcleo de uma forte instituição.

Se a metalinguagem de Coutinho especialmente em Santo Forte acabou sofrendo um desvirtuamento em outros filmes como um fetiche de câmera desnecessário, em O Chamado de Deus a sutileza de Joffily no tratamento da linguagem é também digna de nota. A metalinguagem não se faz presente na visualização da equipe de filmagem, como no filme de Coutinho, mas de forma mais sutil. Já se comentou a cena em que o Padre Marcelo Rossi confunde a equipe com uma reportagem de televisão. Além disso, o núcleo principal da polaridade que divide o filme se define a partir do próprio processo fílmico. Ou melhor, a polaridade entre os dois grupos entrevistados se exacerba à medida em que fragmentos das entrevistas de um grupo são mostrados ao outro grupo e, a partir dessas respostas, todo um discurso é colocado em questionamento não diretamente pela postura do realizador, mas por um elemento oriundo da própria diegese. O choque é obtido, portanto, a partir do próprio processo de realização do documentário, do filme em si. E obviamente, Joffily só mostra os trechos e exibe as respostas que a ele interessam. Em segundo lugar, existe, como já se disse, a questão da teatralidade e da encenação, que começa no show de Marcelo Rossi e se explicita na cena do circo, em que os entrevistados pintam a cara para participar de um evento. A presença da câmera inevitavelmente muda os personagens e Joffily trabalha com isso. As palavras de Marcelo Rossi dentro do carro soam artificiais, como as próprias palavras dos entrevistados, mostrando a necessidade de convencer o espectador, no sentido de "catequizá-los", com um excesso de didatismo. Isso atinge um ponto-limite quando Joffily contrasta a chegada dos seminaristas em casa e a surpresa da reação dos familiares com um claro artificialismo, presente especialmente nas despedidas e nos "adeusinhos". Os familiares, perdidos, olham para a câmera, perguntando-se se essas cenas realmente estão sendo filmadas. Da mesma forma, em outra cena, Joffily faz uma dramatização, quando uma menina rega uma planta com um copo d´Ã¡gua.

O Chamado de Deus atinge praticamente um clímax em seu quarto final, quando numa montagem paralela extremamente trabalhada, Joffily contrapõe o espetáculo da Renovação Carismática no Maracanã e o pequeno show individual da dupla de jovens em pequenas casas humildes. Essa contraposição ambígua do grande e nuclear com o pequeno e periférico é um espelho, como vimos, da própria composição estética e temática do filme. Mas nunca Joffily busca uma tentativa de síntese, como um mero olhar da diversidade de estilos da Igreja Católica, mas sempre desconstruindo e problematizando esta construção simplificadora. A partir de então, toda a construção de O Chamado de Deus finalmente pode se revelar. O espectador finalmente possui os elementos para questionar a postura de ambos os grupos, usando elementos expostos pelos mesmos! E, obviamente, essa construção foi possível exatamente pelo trabalho do diretor e do montador para formular uma estratégia em apresentar esse conjunto.

Isto é, quando olhamos a ensandecida multidão no Maracanã com faixas de Jesus na testa como roqueiros ao avesso, é impossível deixarmos de pensar nas declarações do outro grupo, criticando a superespetacularização e condenando sua visão elitista, de classe média e afastada dos verdadeiros problemas da realidade daquela comunidade. Por outro lado, quando vemos o desânimo das pessoas ao ouvir a canção dos dois jovens, pensamos se até que ponto aquelas pessoas realmente se comoveram com a canção. Da mesma forma, é espetacular quando um dos jovens deste grupo chora ao revelar que sofrera preconceitos por causa da separação dos pais e nesse momento passara a se dedicar mais à religião. E assim o é porque momentos antes ele revelara que considera uma visão romântica a idéia de ser chamado por Deus num momento de grande dificuldade, como revelado por um membro da Renovação Carismática. As acusações também são vistas com uma certa problematização. Se o grupo acusa a Renovação Carismática de elitista porque oriunda de famílias de classe média, o filme acompanha um seminarista que morava em uma favela. Por outro lado, vemos o desconforto desse grupo quando perguntado por moradores sobre questões práticas. "Você está tratando de uma questão complexa, né?", retruca o seminarista visivelmente encurralado.

O reflexo de toda a ambiguidade da estrutura de O Chamado de Deus é que mesmo indiretamente ele se torna um paralelo da imagem do próprio Brasil. Até que ponto não podemos pensar que existe na tela uma parábola de um país cuja unidade é apenas ilusória? Por que não dizer que o Brasil é o país da coexistência do grande e do pequeno, do Maracanã de Marcelo Rossi e da cançãozinha do seminarista do interior? Por que não pensar que os dois grupos são um retrato de tendências diversas de uma classe média que, embora tente um certo contato com a identidade nacional, acaba completamente distante de seus objetivos por suas próprias deficiências e contradições estruturais? Fechando o filme de forma a evitar a tendência do reencontro-síntese típica do documentário nacional pós-Cabra Marcado para Morrer, Joffily aponta diretamente a questão: o futuro de nossos catequizadores será tão diferente do de nossas instituições?


Marcelo Ikeda é editor do site Claquete - http://claquete.cjb.net.


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