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O cineclube e a aventura do cinema na educação

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:59


 

O cineclube e a aventura do cinema na educação
Autor: Francisco Serra


A iniciativa de exibir filmes nacionais e promover debates em espaços alternativos e para públicos novos é uma aventura no Brasil. A primeira dificuldade é a mais essencial: a captação de recursos. Dificilmente o governo ou órgãos privados costumam financiar este tipo de atividade. E enfocar o cinema brasileiro, em exibições públicas e regulares, é também uma batalha contra preconceitos históricos e um certo reacionarismo ainda existente nas áreas da educação e cultura.

O Cineclube teve força a nível nacional em tempos infelizmente remotos. A expressão Cineclube hoje, para o grande público e para os neo-intelectuais que costumam frequentar os circuitos de "cinema de arte", deve possuir muito pouco significado no sentido prático. Parece para muitos, uma expressão arcaica. As salas de exibição que ainda se preocupam em exibir filmes brasileiros não apenas para "cumprir a lei", são pouquíssimas quando comparadas as salas MULTIPLEX, de exibição estritamente comercial, que se multiplicam nas Megalópolis do Brasil.

Existem públicos hoje no Brasil (como existiam nos anos 80,70,60...) que carecem do cinema como expressão da cultura popular e não expressão de mímica cultural a nível ianque. O cinema americano e o europeu dominam o mercado brasileiro. Hoje, ano 2001, nem mesmos nos circuitos de "cinema de arte" é possível assistir com frequência filmes gerados dentro da própria América Latina. Onde estão esses filmes ? Em festivais elitistas e em raras mostras no circuito alternativo.

O município de São Gonçalo, a segundo maior do Estado do Rio de Janeiro em população: 833 mil habitantes (segundo o Anuário Estatístico do Estado do Rio de Janeiro -1998), possui oficialmente 3 salas de cinema. Duas se encontram dentro de um shopping. Niterói, sua cidade vizinha (infinitamente inferior em número de população e área geográfica), possui mais de 10 salas. Em São Gonçalo, a exibição de filmes é feita segundo uma demanda comercial a nível estadual/nacional. Quer dizer, os filmes em cartaz são os mesmos filmes já exibidos em outras grandes cidades, e com comprovado sucesso de bilheteria. Estes filmes também são sucesso de público em SG. Não importa se o filme é um besteirol marketeiro produzido pela Xuxa, um enlatado americano ou uma animação mongolóide dos estúdios Disney. Filmes de qualidade artística e técnica, com conteúdo que sirva ao público em seu contexto social, político, cultural etc., raramente são vistos naquela cidade. Em 1998, foi apresentado um Projeto a Secretaria de Educação e Cultura de São Gonçalo, com uma proposta revolucionária de exibir filmes em espaços alternativos e escolas públicas como forma de linguagem popular que torne possível uma reflexão sobre a cultura e história brasileira. O público / espectador, assistindo aos filmes brasileiros (e também os estrangeiros) revolucionários no sentido artístico, político, estético, técnico, dificilmente não seria atraído pelo audiovisual como força cultural / artística revolucionária.

O projeto de Cineclube da Subsecretaria de Cultura / Prefeitura de São Gonçalo nasceu em outubro de 1998, sob a coordenação minha, de David Castro Alves (técnico), Igor Cabral e Sonia Hernandez (ambos estudantes do curso de cinema da UFF). Apesar da escassez de recursos, extraídos à forceps da Prefeitura, exibíamos sempre uma programação mensal, no Centro Cultural de São Gonçalo e em Escolas públicas, utilizando filmes 100% brasileiros e algumas obras internacionais. O projeto contou com apoio inestimável do CTAv, através da Wanda Ribeiro, da Aliança Francesa, do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF, da UERJ (Faculdade de Formação de Professores, em São Gonçalo), da Prefeitura de Niterói (através do então diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia – Barroco, que coordenou nos anos 80 o Cineclube Cantareira, promovendo ampla programação de filmes brasileiros para alunos de 2o grau) e de outras inúmeras empresas e instituições que cederam filmes e vídeos, apostando sempre na exibição de filmes para um público novo e com poucas condições de subsidiar e/ou mesmo assistir a um cinema livre da colonização euro-americana (afinal, os cinemas de SG estão colonizados como estão os do circuito comercial no Rio e no Brasil, por isso os mesmos filmes ruins (no sentido cultural) que fazem sucesso no Rio de Janeiro, São Gonçalo ou qualquer outra cidade do Brasil sejam quase sempre os mesmos). O projeto provou também que as Escolas municipais e estaduais estão prontas para receber o cinema como arma de guerrilha cultural, combatendo certas sabotagens cometidas na educação pública pelo Governo federal e todos os outros governos e forças coletivas e individuais que insistem em des-educar para domesticar o povo. Sem exceção, todos os alunos das escolas visitadas que assistiram a projeções em 16mm e em vídeo pelo Cineclube se tornaram simpatizantes desta nova linguagem que, para eles, era uma experiência nova, tanto no seu conteúdo técnico (a projeção cinematográfica) como no seu próprio espetáculo (os filmes). Em pesquisas realizadas, a maioria desses alunos, com idade entre 14 e 30 anos (?!), afirmaram nunca terem entrado numa sala de cinema para assistir a filmes nacionais, ou no máximo assistiram a um filme brasileiro. Foi portanto uma experiência que fascinava e estimulava, a cada nova projeção. O público, ao assistir estes filmes, enxergava-se na tela, identificando-se com sua linguagem e cultura. As projeções também eram estimuladas por professores, cientes da falta de recursos no ensino público e defensores de uma exibição de obras importantes, que há muito saíram de circulação nas TVs abertas (exceção das TVs educativas) e raramente exibidas nos cinemas comerciais.

O projeto desdobrou-se, com a construção de novas salas de exibições gratuitas de vídeos e DVDs (Casas do Futuro), disseminando na extensa área geográfica do município de SG o hábito de se ver e discutir filmes, ali, no local físico e metafísico da projeção video-cinematográfica. Há pouco surgiu em território nacional o projeto Cinema em Movimento, patrocinado pela Petrobrás-BR, que começou muito bem em termos de público, embora com um péssimo filme como O Dia da Caça - superprodução que tenta desesperadamente clonar o filme policial norte-americano em seus clichês e suas cenas de ação - , mas que vem tomando consciência de sua importância cultural, ao programar o excelente documentário O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas em sua segunda fase. O projeto leva filmes nacionais até locais onde hoje o cinema tem difícil acesso (escolas públicas, favelas, etc.) e promove discussões sobre questões abordadas nos filmes. É um projeto que deve ser difundido mas aperfeiçoado com uma programação que opte não apenas pela qualidade técnica dos filmes, mas também pela sua qualidade artística. O próximo filme a ser exibido pelo Cinema em Movimento deveria ser Santo Forte, sobre a pluralidade étnica/religiosa numa favela carioca e depois Baile Perfumado (excelente para se discutir a censura no Estado Novo e a dificuldade de se fazer cinema no Brasil), ou filmes de curta-metragem, produzidos por estudantes de cinema. Seria bom para a difusão desse acervo, que vem crescendo no Brasil e no mundo como linguagem alternativa ao cinema comercial de longa-metragem.

O curta metragem foi um veículo indispensável nas projeções do Projeto Cineclube. O curta tem em sua síntese dramática um estímulo para o público que fará sua leitura de forma mais livre, na medida que ele percebe se tratar de um filme produzido em condições distintas do cinema de longa metragem, com escassez de recursos, equipe reduzida, composta muitas vezes por estudantes e técnicos. A discussão em torno do curta possui uma dinâmica mais ampla e seus autores / diretores são bem mais acessíveis do que muitos diretores e artistas de cinema (e demais profissionais da área em geral). E como lembrou a cineasta e professora da UFF Tetê Mattos, no último Festival de Cinema Universitário, o curta, por possuir um tempo de projeção reduzido, se encaixa perfeitamente no tempo de uma hora / aula, sendo facilmente utilizável por professores de qualquer nível educacional.

Projetos de Cineclube devem ser gerados por outras instituições, outras prefeituras, outros governos, outras universidades, outras empresas, ONGs, etc., é preciso exibir mais filmes brasileiros porque o público que precisa vê-los está aumentando, por razões políticas e econômicas. Tirar o cinema das salas de exibição e de Festivais elitistas e levá-lo para um público novo, aquele sem condição financeira de pagar o ingresso e sem consciência da necessidade do cinema como forma de resistência cultural. Este público se equivale ao público mais sincero na hora de debater, pensar os filmes como retrato da realidade e como veículo de idéias. Sem falar que esse tipo de atividade acaba formando novas platéias para o cinema brasileiro. A Petrobras é consciente disto, por isso está mantendo o Cinema em Movimento e ainda irá manter por um bom tempo a produção do Cinema Brasileiro. Cinema é petróleo, brotando das profundezas do território brasileiro. O Governo Federal precisa criar mais estímulos para a produção e para este tipo de exibição, porque isso acaba se tornando um ciclo cultural / econômico promissor. E o cinema universitário precisa despertar também para este público. Sair da Zona Sul e ir para a Zona Norte.


Francisco Serra é cineclubista e estudante de cinema.
Contato pelo e-mail: ciscokidfilmes@bol.com.br.


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