O cinema como a arte do místico e do mecânico ::  | Curta o Curta

O cinema como a arte do místico e do mecânico

Por Guilherme Whitaker em 08/11/2004 18:05


O cinema como a arte do místico e do mecânico 
Autor: Marcelo Ikeda


O processo de realização de um filme é sempre visto como parte de um mistério irredutível: quando vemos os filmes de Bergman, Buñuel ou Tarkovsky, imaginamos que algo de imaterial se projeta na tela, que uma aura de feitiço contamina de tal modo a película que tudo parece vir dela, como se nada mais lhe fosse possível.

Mas quando o jovem realizador, com as latas de negativo na mão, se defronta com o cenário ainda por construir, com uma equipe ávida de instruções que ele mesmo desconhece, ele se vê no reverso da moeda. Julga-se vítima de uma terrível conspiração, sente-se ameaçado por todos os que o cercam para construir o filme, fragilizado, indefeso, acovardado.

Ao contrário da aura de liderança e da opulência do cinema, o jovem realizador se vê desesperadamente só, e um sentimento de impotência o atemoriza. Ele só consegue despertar de seu transe soturno porque o filme o chama. O cineasta está só, mas sempre está irremediavelmente acompanhado. Em nenhum momento consegue se isolar das preocupações do filme: são as tintas que ainda estão por vir, é a bateria da câmera que apresenta defeito, é o transporte dos atores, é o plano de filmagem que repentinamente precisa ser modificado. 


As tarefas rotineiras dos dias anteriores à filmagem são a matéria-prima do filme. Ao mesmo tempo em que desviam o realizador de uma reflexão sobre o processo criativo, mais o aproximam da realidade física do filme.

O jovem realizador sempre crê, quando prepara seu primeiro roteiro, que cada grito de “ação’ em seu primeiro filme terá um significado especial. Nada mais ingênuo. Durante as filmagens praticamente não há tempo de algo novo ser testado ou experimentado. O filme torna-se meramente um processo mecânico, entre os ensaios que coordenam as ações dos membros da equipe, ou, finalmente, desde as instruções de “som” e “câmera” até os gritos de “ação” e “corta”. Cada plano nunca se torna um plano “a mais”, mas essencialmente um plano “a menos”.

Mas em meio à repetição insípida e instintiva dos meios do cinema, vez por outra um acorde desnorteia o jovem realizador, que somente o percebe tempos após sua repentina aparição. Isto porque no instante em que a câmera dispara e que o diretor posiciona todos os elementos cênicos e o pessoal envolvido na realização de um simples plano, tudo está livre para acontecer. Como uma vez disse Renoir, a vida está pronta para entrar no filme.

No instante da ação, é preciso que todo o processo criativo desenvolvido durante a fase de preparação se cristalize, como se o tempo ficasse por um instante em suspenso para que tudo possa convergir em direção ao filme. A missão do diretor é canalizar a energia de todo o processo de concepção do filme, desde a elaboração da decupagem à escolha da equipe, e arremessá-la impiedosamente para dentro do filme. Pois sem essa energia o filme resulta simplesmente numa obra técnica, fria, inacessível, inerte.

Entre as tarefas mecânicas rotineiras do set de filmagem e a presença ritualística de forças difusas cujo controle lhe é completamente improvável, o diretor deve estar bastante consciente de sua condição: ele é apenas uma das peças que regem todo o processo de realização do filme, junto com todos os demais membros da equipe, e mesmo com os grãos de prata que compõem o negativo, as partículas de luz, as folhas e pedras que integram a paisagem. E de todas elas, o diretor talvez seja a de natureza mais frágil. 
                                     
Marcelo Ikeda é curador da Mostra do Filme Livre, sambista e jogador federado de Ping-Pong. 
Contato? claquete@hotmail.com
 


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta


[confira outras notícias]