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O cinema digital e um novo modelo de negócios

Por Guilherme Whitaker em 01/06/2005 12:08


O cinema digital e um novo modelo de negócios 


Na última Showest, a grande feira de equipamentos para a exibição cinematográfica, diversas marcas anunciavam aparelhos e tecnologias que atendiam aos requisitos que a DCI (Digital Cinema Initiative), uma comissão formada pelos sete grandes estúdios de Hollywood, impusera como padrões para a exibição de seus filmes nos cinemas. Em fevereiro de 2003, a DCI declarara que a resolução da imagem dos filmes deveria estar compreendida entre 2K e 4K, provocando mal-estar aos fornecedores de equipamentos que tinham instalado cerca de 200 cinemas em diferentes países, operando em HD - High Definition (1,3K). A segunda demanda, apresentada pela DCI em março de 2004, que determinava o JPEG 2000, como padrão de compressão de imagens, também estava atendida. 

Viam-se, nos estandes e nos auditórios da feira, imagens com 2K de resolução em aparelhos de diferentes marcas e tecnologias. A Sony anunciava um aparelho com 4K de resolução, que poderá ser comercializado muito em breve. O cinema digital se mostra pronto para ser implementado, oferecendo diversidade no fornecimento, o que evitará a formação de monopólios e a conseqüente cobrança de preços exorbitantes dos equipamentos. 

Na linha oposta à euforia dos fabricantes de equipamento, existem informes da NATO (North American Theatre Owners), o sindicato norte-americano do setor de exibição, afirmando que, até 2010, menos de 40% das salas norte-americanas estarão utilizando a nova tecnologia. Na Europa, fala-se em melhor definir os padrões antes de se fazer novas experimentações.
Um confronto de posições tão acentuado causa estranheza.
De um lado, os fabricantes de equipamentos e softwares se mostram apressados em atender aos requisitos mais sofisticados e, do outro, tem-se a posição conservadora dos estúdios e exibidores, que não têm pressa alguma em instalar os equipamentos, embora se saiba que a implementação poderá resultar numa economia prevista entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões por ano. O que, de fato, conduz a perspectivas tão diferentes? 

Os exibidores afirmam que, para o espectador, a projeção digital não faz diferença. O filme 35 mm é uma tecnologia com mais de cem anos, que se aperfeiçoou com técnicas avançadas como o som digital e a baixa granulação, que permite projetar em enormes telas. Os equipamentos estão depreciados e possuem uma longa vida útil. As possibilidades de exibir outros conteúdos mostram-se distantes, visto que não há oferta de tais materiais e sequer existem distribuidores habilitados a oferecê-los. Ademais, o espectador está habituado a ir ao cinema apenas para ver filmes, exigindo uma alteração comportamental de longo prazo para que lá se assista a jogos, shows, palestras... O aumento do faturamento publicitário pode ser obtido com equipamentos simples e baratos, como comprovam as práticas da Promocine, no Brasil, ou da AMC, nos Estados Unidos. 

Os distribuidores, que são os braços operacionais dos grandes estúdios formadores da DCI, preocupam-se com a estruturação econômica da mudança tecnológica, que consumirá, na mais conservadora proposta, valores próximos a US$ 10 bilhões, destinados à compra dos equipamentos de projeção, dos sistemas de transmissão, das centrais de processamento e ao controle/fiscalização da circulação dos conteúdos. Sendo a parte privilegiada pela queda de gastos em cópias e de seu tráfego, é evidente que os distribuidores serão os principais financiadores da mudança tecnológica.
Janelas 

Os futuros investimentos não são, contudo, os únicos problemas dos estúdios. A atual estrutura da indústria cinematográfica é baseada nas carências dos prazos de exibição entre as diversas "janelas de exibição". A oferta de um filme nos veículos hoje existentes segue a seguinte seqüência: theatrical, video-home, pay-per-view, pay TV e TV aberta. Estabelece-se um prazo de exclusividade para cada um deles, de forma que, enquanto não se cumprir o período previsto, o veículo subseqüente não terá o material disponível. Essa mecânica tem sofrido pressões para que se reduzam os prazos de cada elo da seqüência, em decorrência do aumento da pirataria. No Brasil, por exemplo, vive-se uma intensa discussão, visto que alguns distribuidores não estão respeitando o prazo de 150 dias entre o lançamento do filme no cinema e o video-home, chegando a lançá-los em 90 dias.
A tendência é de que as carências entre "janelas" reduzam-se cada vez mais. A forma de se explorar rapidamente um filme será ofertá-lo em um maior número de salas. Parece muito simples e eficiente, mas, na realidade, embute um problema muito sério: sendo o filme ofertado em maior escala, haverá uma sensível queda na arrecadação proporcional por cópia, prejudicando, em especial, as salas com maiores freqüências e preços de ingressos mais altos. Os distribuidores serão obrigados a alterar as remunerações vigentes, reduzindo sua participação. Ao mesmo tempo, os riscos aumentarão, já que os gastos promocionais são os principais investimentos nesta etapa de comercialização que é a vitrine do sistema, o ponto de partida que determinará o sucesso ou fracasso de um filme nos outros veículos. 

Este processo pode ser resumido da seguinte forma: um filme será lançado em um número muito maior de salas do que hoje se faz; ficará em cartaz por um período mais curto; exigirá uma recuperação dos investimentos mais rápida e com maior risco; e os distribuidores/produtores terão suas participações reduzidas. E, ainda, deverão arcar com grande parte dos investimentos bilionários da implantação da tecnologia digital. Nada alentador 

Há de se convir que o acima apresentado não é muito alentador aos grandes estúdios e que são muito bem-vindas as vozes que afirmam que, quanto mais se conseguir postergar tais decisões, mais adequadas e amadurecidas serão, permitindo, também, que se solucionem questões como a oferta de filmes pela Internet ou as tentativas de entrada de fortes corporações informáticas (como a Microsoft) ou de empresas de telefonia no mercado cinematográfico. Pelo que se apresenta, passaremos por um período de fusões e incorporações tão intenso que alguns autores afirmam que não haverá mais que cinco ou seis grandes operadoras no sistema de informação e entretenimento. 

Viabilização 

É claro que dentro desse macro-universo sobram espaços para atividades regionais ou limitadas a segmentos de mercado. A tecnologia digital pode viabilizar a exibição de filmes com menor potencial comercial, como os filmes de arte e as cinematografias regionais, que têm dificuldades em circular num mercado fortemente concentrado, em que os grandes estúdios norte-americanos possuem mais de 80% da arrecadação mundial e no qual as 20 maiores bilheterias do ano atingem até 60% das freqüências computadas. Neste sentido, a Rain Networks, com mais de 60 cinemas no Brasil, é uma importante colaboradora na circulação de filmes que dificilmente chegariam às grandes telas. 

A implantação do cinema digital é um aspecto importante, mas não urgente para a indústria cinematográfica. Fará parte do vasto repertório de decisões que a indústria cinematográfica, em especial as majors, terão que tomar acerca das políticas de comercialização e das especializações de cada meio e veículo, ficando subordinada a interesses em que os aspectos técnicos serão as determinantes que menos pesam. Por outro lado, a dilatação dos prazos e a contínua evolução técnica dos equipamentos farão com que a exibição pública digital tenha um perfil bastante diferenciado, mesclando interatividade, realismo propiciado por captações em 3-D e uma qualidade de imagem que a distanciarão do cinema doméstico de alta definição. Luiz Gonzaga de Luca, Diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro, doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autor do livro "Cinema Digital - Um Novo Cinema?" 

FONTE: TelaViva - 31/5/2005 - http://www.telaviva.com.br



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