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O Cinema Enquanto Arte

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 11:06


O Cinema Enquanto Arte
Autor: Eduardo Nunes


Por quê precisamos fazer e ver filmes ?

Precisamos ?

O cinema é diversão ou arte ?

Prá que diversão ?

Prá que arte ?

Acredito que a existência humana, por si só, deve ser muito aborrecida... Por isto criamos a diversão, o entretenimento...para preencher a parte "chata" de nossa vida. Inventamos histórias absurdas, peripécias espetaculares, situações que nunca aconteceram em nossa vida "normal"; para que possamos ficar entretidos e não notar o tempo que passa. Afinal, é na parte chata de nossa vida que notamos o tempo passar.

E o cinema sabe como poucos entreter e divertir - acredito que apenas a televisão o supere neste sentido. Entramos numa sala escura e ficamos embevecidos com todas aquelas imagens e sons, um mundo irreal, interessante, mágico... O problema é que depois de duas horas o filme acaba e voltamos a nossa vida medíocre. É esta a função do cinema ? Entreter pessoas de vida medíocre durante duas horas ?

Certos cineastas acreditam que o cinema pode funcionar como arte. Basta acreditar no espectador... acreditar que a vida dele é tão medíocre ou rica quanto à sua. Todos temos isto em comum.Não podemos fugir: uma vida ricamente medíocre. O cinema enquanto arte, tem a capacidade de atingir a alma do espectador: falar de seus segredos mais íntimos numa linguagem que só aquele espectador compreende. O filme foi feito exclusivamente para ele, mas também para aquele que está sentado duas filas atrás, e ainda um outro, e mais um...Um filme para cada um de nós, sem que saibamos disto.

E como fazer esse filme ?

Basta respeitar o espectador, suas idéias, sua vida... sem impor de forma castradora e autoritária a nossa visão de mundo.

Close de um homem que olha pela janela. Plano médio de uma mulher nua. Close do homem: ele ri maliciosamente... Então aprendemos que quando o homem olha pela janela e vê a mulher nua ele ri com prazer. Podíamos dizer que, um dos problemas desta imaginária sequência é o tempo curto de cada imagem, que dá ao espectador apenas a informação do que acontece. Rosto do homem (espectadorpergunta: para onde ele olha ?). Corte,e vem a resposta: uma mulher. Corte, close do homem que ri maliciosamente (espectador concluí: é isto que ele pensa da mulher). Os planos funcionam mecanicamente; um é consequência do outro. Se a duração dos planos fosse um pouco maior, o espectador faria mais "perguntas" durante cada imagem: close do homem (para onde ele olha ? Por que ? O que sente ? Parece curioso ou triste ?...). As conclusões são tiradas dentro da pró pria imagem e pelo próprio espectador. Existe a contemplação. Não precisamos impor nada. Obviamente, a escolha entre um close e um plano geral já é algo imposto pelo diretor. Mas torna-se um diálogo, uma troca de impressões quando deixamos um espaço para o espectador. Não acredito que o simples fato de um plano ser longo seja o suficiente, ou mesmo que seja necessário que o plano seja longo.Precisamos sim, buscar uma linguagem mais íntima com o espectador.

Nada que venha de fora, que seja imposto, pode mudar a vida de alguém...A verdadeira imagem artística surge dentro de cada pessoa. Nós podemos apenas sugeri-la. Por isto a música é tão bela e perfeita enquanto arte; ela dialoga o tempo todo com o inconsciente do ouvinte.

Só faremos um filme verdadeiramente artístico quando soubermos respeitar a vida do espectador como se fosse a nossa própria vida; com paixões, frustrações, desejos, ansiedades... Não precisamos alimentá-lo com mais duas horas de ópio óptico, quando temos a chance de enriquecê-lo espiritualmente.


Eduardo Nunes é cineasta, formado pela UFF. Como diretor realizou cinco filmes de curta-metragem e alguns documentários para a TV. Publica artigos na revista Cinemais e atualmente prepara seu primeiro longa-metragem "Sudoeste".
Contato pelo e-mail: edununes@vnet.com.br.


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