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O desconhecido Amálgama: a ingenuidade como forma de libertação

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:58


 

O desconhecido Amálgama: a ingenuidade como forma de libertação
Autor: Marcelo Ikeda


O ano de 2000 produziu uma grande quantidade de curta-metragens. O tradicional Festival de Curtas de São Paulo optou por exibir todos (sic) os filmes inscritos no formato. No entanto, a qualidade desses curtas não chegou a surpreender, com algumas exceções localizadas. Eduardo Valente, em seu texto Brasil Ano 2000: um País Curto de Idéias, analisa criticamente a produção de 2000, dizendo que "o fato é que justo neste ano de 2000 tivemos a safra mais fraca do curta nacional em muitos e muitos anos."

Valente comete um equívoco ao afirmar que o Festival "retomou a tradição de exibir TODA a produção brasileira no formato". Não sei quanto a outros casos, mas há pelo menos uma lacuna irreversível. É de um modesto filme de Santa Catarina, produzido pelo recém-criado curso de cinema da UNISUL Amálgama, curta em 16mm de pouco menos de cinco minutos, não foi exibido em nenhum dos "grandes festivais do cinema brasileiro". Por isso, provavelmente os leitores deste texto ignorem a existência do filme. Tive a rara oportunidade de assistir a ele numa exibição do Festival Brasileiro de Cinema Universitário, em Niterói. Exatamente pela tão comentada sonolência e pouca ousadia dos curtas brasileiros em 2000 é de se estranhar a completa e total falta de comentários sobre o curta mais singular da produção nacional desse ano.

E de fato, os alunos do curso de cinema da UNISUL protagonizaram a grande surpresa do Festival Universitário. Primeira vez que um filme da escola é inscrito, nenhuma presença dos participantes, filme que passou despercebido no Festival. Ninguém comentou o filme, nem para bem nem para mal. O júri, como sempre, não teve a sensibilidade para premiar o filme mais ousado do Festival. Ousado pela sua simplicidade. Amálgama, obra única da Universidade de Santa Catarina exibida no festival, é uma aula de humildade e poesia raramente vista no cinema universitário. Um filme que dialoga com a sua precariedade técnica de forma brilhante, que transcende sua aparência simplória para se tornar um libelo de inocência e amor ao cinema. Infelizmente, as informações que tenho sobre o filme são quase nulas. Segundo o catálogo do Festival, um grupo de alunos se juntou e filmou separamente cerca de 30 segundos. Depois, as cenas foram juntadas para formar o filme.

Segundo o Aurélio, Amálgama é uma mistura de elementos que, embora diversos, contribuem para formar um todo. Já pelo belíssimo título, percebe-se que a proposta não é tão ingênua. O título resume perfeitamente o objetivo da obra. Amálgama fragmenta com a intenção única de construir, de unir. É pela síntese criadora que o filme resgata sua vocação pelo cinema. Afinal, vários e vários teóricos, como Pudovkin, defenderam a idéia de que o específico fílmico é exatamente seu poder iningualável de construir uma linguagem própria através da ruptura, da descontinuidade. Isto é, da montagem.

Se o filme é construído explicitamente com a presença da montagem, ele utiliza uma visão de cinema não só ligada ao interframe, mas também ao intraframe. Em algumas das passagens, vemos elementos quase surrealistas, como um balão lançado no deserto por um homem vestido de noiva com um fone de ouvido.

De fato, o filme é uma complexa associação que une vários dos componentes da história do cinema. Além do jogo entre o inter e intraframe, o filme dialoga com um espectro que vai do documentário até a avant-garde. Se há cenas loucas como a anterior citada, há também um trecho em que uma panorâmica percorre um 360 graus nas ruas da cidade, mostrando as pessoas em sua rotina comum. Parte especialmente comovente ocorre quando pés sobem para pegar um ônibus. A rotina da vida é transfigurada pela presença quase imperceptível do sublime. Por que não afirmar um certo contexto neo-realista? A montagem trabalha de forma extremamente lírica quando, nessa parte digamos documental, surgem idosos e logo em seguida crianças. A criança é a poesia da vida, o resgate de Amálgama. Em seguida, vemos uma bola correndo pelas ruas, quase atropelada por um carro. Ilusão que teima em não se perder, réstia de liberdade que rola solta pelas ruas sem motivo, que desvia do mundo dos carros e da estrada de concreto cinza, a bola quicando é imagem simples, simplicíssima, que fala de forma aparentemente despretensiosa sobre a poesia da vida, uma poesia que surge de incontáveis fotogramas do filme.

O grande libelo de Amálgama é sua explícita declaração de amor ao cinema como forma de libertação. Amálgama é o cinema puro de Epstein, filme que resgata a ingenuidade como única forma de resgatar o que há de mais autêntico em nossa essência de espírito. O balão solto no deserto, nesse sentido, é o símbolo dessa tentativa. Preocupados com nossa vida materialista, cinzenta, barulhenta, esperamos ou exercícios autorais pretensiosos ou historinhas que prendam nossa atenção. Mas o que é o cinema, o que é a arte, senão forma de desenvolver nossa sensibilidade em relação à vida? Sinestesias, aliterações, antíteses, Amálgama abunda de figuras de linguagem, mas não se apresenta como exercício estiloso e pretensioso. Pelo contrário, os autores de Amálgama nem se julgam como artistas. O filme não possui créditos de direção, roteiro, blablabla. É uma obra coletiva, um projeto coletivo. Apresenta-se assim, e isso é importante. No filme tudo é diegese, nada foge ao universo da diegese. Não existem os créditos didáticos nem som. Aliás, a ausência de som é um dos grandes trunfos do filme em minha opinião. Claro que poderia ser argumentado que o som poderia ser utilizado exatamente para intensificar o sentido libertário do filme, já que o som é intangível por definição. Mas a ausência do som reforça o tom de ingenuidade do filme, o que de forma muito coerente é confirmado por sua apresentação técnica. O filme não se pretende correto em termos de uso da técnica. Nem ao menos o filme se pretende uma obra acabada. O espectador constrói o filme nas associações que ele mesmo é estimulado a fazer. Daí o novo amálgama. Isso reflete toda uma concepção construtivista. Não por acaso o filme se encerra com o grupo saindo de uma construção, com capacetes, vestidos de operários. Os nomes dos componentes do grupo, escritos em papel, postos numa urna que fabrica concreto. Como disse, o grupo não se define como artistas, são simplesmente operários, construindo um sentido através de pequenos blocos que, aparentemente são soltos, sem conexão. Além da lógica explicitamente construtivista, reforçado pela ausência de som que serve como uma lembrança do cinema mudo como forma de linguagem autêntica (e daí se segue toda uma discussão ativamente presente nos anos 30 sobre a função do som...), o grupo como operários mostra uma humildade que nos encanta e comove profundamente. É através do trabalho, da construção que o filme forma seu processo. Ele nega a visão do artista pseudo-intelectualizante, e reforça um diálogo com o primitivo como autêntico. E é explícito o papel da montagem e a influência construtivista, assim como o próprio título do filme, para nos dizer que não foi uma mera colagem aleatória de 30 segundos feito por cada aluno. É na construção e no trabalho que surge a força espiritual do cinema libertário de Amálgama.

Nas imagens simples do filme, pode-se achar um conjunto de referências. Além do construtivismo, do cinema puro de Epstein, do documentário, do neo-realismo (por que não?), que já falamos, está lá no filme o mar da sequência final de Limite. Além disso, o filme possui um tom que lembra alguns curtas da avant-garde, especialmente o magistral A propos de Nice, de Jean Vigo. Há uma cena incrível que resume o significado do filme. Como num truque de Meliès, um ovo no microondas vira uma galinha. O ator que coloca o ovo olha para a câmera de forma exagerada e caricata, anunciando a "mágica" que nos lembra claramente os trejeitos dos atores no cinema mudo. Através da curiosidade ingênua da "transformação" é que Amálgama constrói seu significado (obviamente a transformação é fruto exclusivo da montagem...).

Mesmo em cenas bobas como quando um garoto vestido de samurai glorifica uma câmera de vídeo, a espontaneidade ressurge o desejo de fazer cinema, o desejo de entrar em contato com a arte pela busca do desconhecido. Amálgama emociona pela coragem de transcender nossa aparência cinzenta, em mostrar uma poesia pura num mundo preocupado com a descontrução num mundo pós-moderno ou o que for. Amálgama foi o grande momento do Festival, obra singular, pouco vista e nada comentada.

Resta-nos esperar que essa obra singular consiga ser exibida em algum desses festivais. No entanto, a esperança é cada vez menor. No perfil cada vez mais conservador dos festivais brasileiros, uma obra realmente ousada e criativa, que ignora os supostos tradicionais códigos narrativos, acaba mofando nas prateleiras de um armário qualquer. Como a memória do nosso cinema brasileiro.

 


Marcelo Ikeda, formado em economia pela UFRJ, é aluno do curso de cinema da UFF desde 1998, sendo monitor da disciplina História do Cinema Mundial. Editor do site Claquete (http://w3.to/ikeda), com críticas e ensaios sobre cinema. Seu primeiro vídeo, 'Depois da Noite' (1999), explorando o tema da incomunicabilidade de uma criança, recebeu a Menção Honrosa no Festival Vide Vídeo/UFRJ em 1999.
Contato pelo e-mail: claquete@hotmail.com.


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