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O Melhor da Curta Mostra Goiás, por KZL

Por Guilherme Whitaker em 15/10/2006 18:30



O Melhor da Curta Mostra Goiás

Por Christian Caselli

Outro aspecto interessante da Goiânia Mostra Curtas é o incentivo dado à produção local, coisa que acontece muito (e que é sempre louvável) em outros festivais fora do eixo Rio-São Paulo. Apesar de aqui a seleção ser mais coração-mole em aceitar filmes de um naipe diferente da seleção oficial, a produção de Goiás surpreendeu em vários aspectos, principalmente em relação à qualidade técnica e pela boa produção de diversos títulos exibidos.

Aparentemente, está acontecendo uma efervescência produtiva aqui no Estado, aliás, algo que tem acontecido no mundo todo, já que as facilidades na produção audiovisual é um assunto relevante. Claro que dentro desse “boom” existem a inexperiência e a imaturidade em muitos casos, mas pode se perceber um frescor promissor da galera goiânia, chegando até, inclusive, a publicar e distribuir um manifesto em prol de uma maior produção cinematográfica. Publicamos aqui este escrito, já que este saite sempre se amarra num bafafá no meio, embora este jornalista que vos escreve discorde de alguns pontos de vista. LEIA AQUI O MANIFESTO AO CINEMA GOIANO.

Voltando aos filmes selecionados nessa sessão, a dita “coração-molice” do começo do texto não é algo ruim. Muito pelo contrário. Esta é a grande oportunidade dos iniciantes porem a cara a tapa e gerar discussão em torno do que realizaram. Dentre os aspectos mais criticáveis entre a maioria dos filmes está, basicamente, a pouca ousadia narrativa generalizada. Um exemplo são os artifícios batidaços utilizados para a construção das histórias, sobretudo o excesso desnecessário de trilha sonora para “dar um clima”. Ouvi um depoimento que talvez explique o que eu estou dizendo; um rapaz que disse: “é que agora é que está tendo este tipo de explosão por aqui, as pessoas estão preocupadas em mostrar que sabem fazer”. É, faz sentido.

Mas, mesmo assim, vários filmes me surpreenderam. Eis os 10 mais significativos, sem ordem de preferência:

• PEIXE FRITO (de Ricardo George de Podestá) – Disparadamente, a melhor animação das sessões de Goiás.. O apuro técnico, misturando 3D e 2D, já seria suficiente para chamar a atenção, mas o autor não se contentou apenas com isto. Ricardo constrói uma história divertidíssima, com diálogos ótimos e com um humor que consegue ser, ao mesmo tempo, didático, crítico e politicamente incorreto.

• A MÁQUINA DE ANTÔNIO (de Fabiano Olinto) – Documentário enfocando a simpaticíssima figura de Antônio, matuto sanfoneiro das ruas de Goiânia. Como se não bastasse só o personagem, o realizador explicou que fez a edição na própria câmera, ou seja, que o que filmou virou o filme. Isto deu um resultado diferenciado que, por seu mecanismo fácil de execução, pode inspirar obras mais ousadas e práticas.

• CAPITAL XXI (de Juliana Corso) – Um dos melhores vídeos, que consegue equilibrar muito bem a denúncia e o tratamento gráfico. Mesmo sendo muito bonito plasticamente, é impossível ficar indiferente ao tema registrado, que é expulsão dos sem-terra de um terreno de Goiás. Quer dizer, este tipo de confronto beleza X protesto sempre gera as mais variadas discussões, o que é sempre bem-vindo.

• É DA RAIZ (de Ângelo Lima) – Outro documentário, mais tradicional no formato, porém bastante despojado e bem-feito, sobre as maravilhas das raízes terapêuticas encontradas na região. Repleto de personagens populares figuraças, o filme diverte e informa. Ou não informa? O que foi dito sobre as maravilhas das raízes seria “verdade”? Cá entre nós, isso é o que menos importa.

• ZOO (de Daniel Lima) – Outro desenho animado de excelente qualidade, na verdade, um clip para uma música de mesmo nome da banda Karnak, de SP. Através de uma animação de simples recursos, mas com inventividade na edição e com um traço bastante chamativo, ZOO segura o ritmo da música e entra de cabeça na reflexão sobre os animais presos em zoológicos, coisa que a letra induz de uma forma ao mesmo tempo séria e naif.

• UM MINUTO DE ESCURIDÃO (de José Cassago) – Eis aqui um exemplo de um filme simples e de fácil comunicação com a platéia e que, de quebra, dá umas alfinetadas na Celg, a Cia de Energia Elétrica de Goiás. A maior parte da “trama” se dá no escuro, durante uma queda de luz dentro de uma típica casa de família assistindo a um jogo de futebol. Todo mundo já passou por isso. A identificação é inevitável.

• COQUE DO BURITI (de Gel Messias) – Talvez o melhor documentário da Mostra Goiás, outro que também enfoca uma figura peculiar e instrumentista. Aliás, ainda mais peculiar: Coque do Buruti é um violeiro que toca simplesmente com apenas uma mão, já que a outra é deficiente. Para deixá-lo ainda mais sui generis, o moço ainda constrói, sozinho, uma viola artesanal. O filme não é adepto a muitas inovações autorais, o que, de certa forma, é uma qualidade, já que respeitou o tempo e o discurso de seu personagem.

• MARIONETES (de Wesley Rodrigues) – Outra animação goiânia, que vai por uma linha diferente das outras citadas. Fazendo um curta abertamente infantil e tradicional, Wesley é dono de um belíssimo traço e o usa para contar a triste história de um cachorrinho marionete, responsável apenas para catar as moedas da apresentação. Ele acaba se rebelando e constrói um show solo, mas seu fim é melancólico. Aliás, é uma pena: o final não é o forte deste belo filme.

• O DONO DA PENA (de Claudia Nunes) – Quem me conhece sabe que eu não sou dado à poesia, mas, por incrível que pareça, gostei deste filme de Cláudia Nunes. Ela se valeu de uma poesia recitada não-deslumbrada como o off-base de seu curta e a coisa funcionou. Bem produzido, bem construído e bem filmado, a narrativa fragmentada trata da rebelião de um poeta com o seu repetitivo cotidiano. Acabou sendo um dos filmes mais livres da Mostra Goiás.

• CORRA CORALINA CORRA (de João Novaes) – Este talvez seja o curta mais “manifesto” entre os goiânios. Não há uma história específica, e sim uma experiência misturando técnicas, gêneros e bitolas, numa brincadeira misturando, obviamente, o longa CORRA LOLA CORRA e a poetiza local Cora Coralina. O resultado é bacana e promissor, no sentido de que atitudes como esta podem gerar um cinema diferenciado.

Por último, um filme hour-concours que vale a pena ser mencionado: o SEXODRAMA, que foi o resultado de uma oficina de cinema realizado por aqui. O curta ficou bastante bem realizado e ousado no sentido erótico, já que conta a história de um relacionamento nada convencional, ou seja, a de uma atriz pornô e seu diretor, que não se opõe em entregá-la a outros homens. Só há de se discutir sobre o discurso da realizadora Alyne Fratari no palco, quando disse algo como: “queríamos agradecer aos nossos patrocinadores, já que o cinema é uma arte cara e não daria para ser feito se não for com apoio institucional”. Ou seja, além desta declaração ir bastante contra ao que está acontecendo ultimamente no mundo audiovisual, é o tipo da frase que pode broxar vários novos realizadores a meter as caras e sair fazendo suas obras, sejam elas abobrinhas sinceras ou obras-primas da simplicidade conceitual. Ou seja, goiânios, ou melhor, terráqueos em geral: deixem de frescura e mãos a obra!!!!!

Confira a cobertura completa do Curta o Curta em Goiânia AQUI mesmo.
MANIFESTO AO CINEMA GOIANO


A expressiva força que a produção cinematográfica adquire em todo o território nacional a cada dia, com o envolvimento orgânico entre os setores econômico, político e cultural, não tem qualquer sinal de correspondência no cinema goiano. Ainda que exista um potencial efervescente na produção audiovisual de nosso Estado, sua marca no cinema nacional é insignificante.

A realidade da produção cinematográfica goiana, em sua história e em sua condição presente, marcada pelo descaso político e financeiro, e pela apatia e desunião do meio cultural, só pode ser revertida e definitivamente estruturada se o compromisso com o cinema for assumido em bloco.

Quais são as perspectivas de uma produção artística que envolve grande mobilização de capital econômico e humano, em um meio onde não há sequer interação entre os próprios produtores? A afirmação dessa realidade é a falta de organização das formas de investimento e da produção do cinema feito em Goiás nos últimos anos. Apesar de algumas ações, ainda que louváveis, que fazem a produção local alavancar a cada ano, o mesmo não se pode dizer em relação à qualidade dos projetos produzidos. Essa forma estabelecida de se incentivar o nosso cinema, na verdade tem ido contra o próprio cinema goiano, ao não assumir a qualidade técnica dos projetos que o incentivam.

Contra essa prática, o GROCINE dirigirá sua ação para o cinema coletivo e de unidade em torno da qualidade. Os seus membros, como criadores e técnicos de cinema, apostam no estabelecimento de um campo tenso de criatividade e solidariedade, e conclama todas as outras entidades envolvidas com o audiovisual em Goiás, para que seja discutida a criação de um amplo e sustentável PROGRAMA DE APOIO AO CINEMA GOIANO. Sua prática, enquanto instituição artística, não quer separar, mas sim agregar e lutar pelo interesse na contribuição efetiva que Goiás pode dar ao cinema brasileiro.

Em detrimento da verticalidade hierárquica e da contrapartida meramente econômica dos poderes públicos, o GROCINE afirma sua organização horizontal e de irrevogável interação que pretende manter com todas as entidades do setor.

O GROCINE estabelece, com a sua fundação, o ponto de refutação desta [ir]realidade do cinema goiano e se propõe como elemento de congregação em torno da qualificação dos projetos que vier a apoiar.

O principal objetivo do cinema goiano – pela perspectiva dos membros do GROCINE – deve ser a união sincera e comprometida de técnicos, produtores e críticos de arte envolvidos em um processo onde o objetivo principal é a viabilização imediata da realização de filmes, seja digital ou em película, mas de qualidade. O longa-metragem é o nosso fim. O curta, o meio.

GROCINE - Grupo de Roteiro e Produção de Cinema de Goiânia
grocine@yahoogrupos.com.br
“Cinema é uma arte coletiva”

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