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O menor do Brasil?

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:59


 

O menor do Brasil?
Autor: Frederico Cardoso


"O curta-metragem é cinema? A maioria vai rir e achar que estou ficando louco – "que idiota ... que pergunta é essa". Vale à pena utilizar-se deste formato? Lá vem a maioria de novo – lógico ... nós experimentamos com o menor para depois partirmos para o longa". Mas é possível aprender tudo sobre cinema com um ou dois curtas? A maioria se cala. E, por fim, o grosso da recente produção curtametragista brasileira é, na essência, formada por curtas ou "mini-longas"? Burburinho. A maioria tenta explicar-se."
(conversa em um festival de curtas numa cidade do Brasil)

Temos dois interligados, grandes e graves problemas na atual safra de curtas brasileiros: o curtametragista e a lei do audiovisual. A implantação da l.d.a., para quem conseguiu, foi um prato cheio para a realização de projetos engavetados após o fim da Embrafilme. Com as sobras, alguns "estreantes" produziram com parcos recursos seus trabalhos e, sonhando com mais sobras, outros tantos estreantes iniciaram suas cruzadas tendo um só objetivo – o longa metragem.

O curta-metragem – aquele que sobreviveu durante a seca pré-lei do audiovisual, que na base da raça não deixou de ser produzido – está gradativamente sumindo. O espírito desbravador, principalmente honesto, com o único compromisso de buscar despertar – ou não – emoções no espectador vem sendo substituído pela fixação quase doentia chamada longa-metragem. Mesmo em universidades o "verme alongado" já ocupa espaço. Para citar somente as escolas do Rio de Janeiro, aqui vão dois exemplos: Cão Guia, de Gustavo Acioli e A Truta, de André Warwar. Sem querer discutir a qualidade dos filmes, se tivessem uma hora a mais, seriam perfeitos longas.

Curta não é escada para longa. É uma forma – ouso dizer a mais fascinante - de se fazer cinema. Vamos produzir muitos longas sem estuprar nossos curtas.

Mas não há culpados. A falsa ilusão de que com o longa metragem finalmente estaremos inseridos no famoso mercado de trabalho audiovisual brasileiro é o grande equívoco.

Vamos fazer longas e curtas. Curtas e longas. Os dois ao mesmo tempo. Mas vamos procurar alternativas para a distribuição dos dois formatos. O barco é um só e se chama cinema do Brasil. Um filme sem espectador não é filme seja qual for o seu tamanho.

E os festivais? Nos últimos anos, com o objetivo de atingir o "grande público", os festivais tem sistematicamente selecionado – uma verdadeira crueldade com o curtametragista – trabalhos usando critérios(?) como: atores conhecidos (globais), de fácil entendimento (novelões) e com acabamento técnico (supostamente) impecável. Para início de conversa estes não são – e nunca serão – critérios aceitáveis para o convite de um filme a participar de um festival. E mais! Quando há uma comissão de seleção – muitas vezes uma pessoa ou duas escolhe os curtas de acordo apenas com seu gosto ou afinidade pessoal – parece que aspectos como roteiro, interpretação, montagem, movimentação de câmera e atores simplesmente não existem. Pior! Cada vez mais o número de curtas diminui vertiginosamente em nossos festivais com as gratas e vanguardistas exceções do Festival Universitário, organizado pela Universidade Federal Fluminense e do Festival Internacional de Curta-metragem de São Paulo, onde, no ano 2000 pudemos assistir a todas as produções brasileiras.

Penso que os organizadores poderiam acreditar, pelo menos um pouco, na inteligência do espectador e convidar realizadores com curtas mais ousados e experimentais. Penso que é inadmissível os hotéis onde os realizadores se hospedam serem hotéis quinze estrelas como são – sobraria mais verba para mais realizadores participarem dos eventos. Penso que com um pouco mais de esforço, mais salas seriam agregadas aos eventos possibilitando maior número de produções serem exibidas. Enfim, penso que os organizadores de festivais tidos como mais importantes do Brasil deveriam pensar menos em auto promoção e mais no curta metragem nacional.

Mas nem tudo está perdido. Acredito que o crescente número de escolas e cursos de cinema é a única salvação para o cinema brasileiro em geral. Não é possível que os profissionais/professores não consigam enxergar que aulas e cursos dados sem cuidado e preparo significa jogar milhares de jovens recém formados em um mercado extremamente predatório. Quem sabe se das universidades não saem – tenho certeza que sim – novas idéias para viabilização (verba) e distribuição (salas alternativas), nosso problema das pontas que desde o Mané Garrincha nos atormenta.

Com mesas redondas compostas pela experiência de grandes cineastas, ousadia e vontade dos jovens e conhecimento de profissionais de marketing e jornalismo somados à quantidade de habitantes e cidades do Brasil, um longa não pode sair de cartaz com menos de dez milhões de espectadores. No caso do curta, a solução não é cada um bater de porta em porta atrás do "inatingível" patrocínio. Unir-se em grupos é a saída. Juntos, Cinco ou seis curtas que tenham algo em comum podem conseguir verba, podem ser produzidos simultaneamente e podem ser distribuídos em grupo numa sessão conjunta.

É lógico que isto só poderá acontecer com muita perseverança e união de todos. Afinal de contas até que ponto cinema é equipe? Certamente não é logo depois do último corta.


Frederico Cardoso é cineasta.
Contato pelo e-mail: fredcar@openlink.com.br.


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