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O ultrapassado, o moderno e o atual em Glauber

Por Guilherme Whitaker em 23/05/2005 10:16


O ultrapassado, o moderno e o atual em Glauber a partir de “Terra em Transe"

Por Christian Caselli  

Os cariocas estão tendo uma oportunidade rara desde sexta, 20/5/2005: está passado no Unibanco Artiplex (Botafogo) a cópia novíssima de “Terra em Transe”. Este, se não é o melhor filme de Glauber Rocha, provavelmente é o mais importante – vide a sua influência no surgimento da Tropicália. Então, passado quase 40 anos de seu lançamento, sem dúvida ver “Terra...” ainda é uma experiência única.

Além de seu caráter histórico – não só na História do Cinema no Brasil pós-Golpe – “Terra em Transe” evidência o personalizado pulso forte de Glauber na direção e sua extrema segurança em cada detalhe, tanto no texto quanto na decupagem dos planos. Através da história de Paulo (Jardel Filho), poeta que se rebela contra seu tutor, Porfírio Diaz (Paulo Autran), senador do fictício país Eldorado, Glauber constrói uma complexa alegoria sobre toda a caótica situação política de então, não só a brasileira quanto a de vários países periféricos. E é esse caráter alegórico, não muitas vezes linear, cheio de contradições, com diálogos e ações não-realistas, sem muitas preocupações com a continuidade, etc., etc., é que ainda torna “Terra em Transe” um filme poderoso. E muito mais ousado do que 99% das produções “ousadas” de agora, já que a maioria delas está bastante comprometida com o formato clássico (leia-se: hollywoodiano).

Além dos elementos citados, há muitos outros aspectos que tornam o filme ainda mais rico. Um  que salta aos olhos de qualquer espectador é o elenco: nunca em outra ocasião se reuniu tão bem a nata da nata dos melhores atores brasileiros. Não só Jardel e Autran, também vemos Glauce Rocha, José Lewgoy, Paulo Gracindo, Mário Lago, Hugo Carvana, Jofre Soares, Francisco Millani, Antonio Marinho, Flávio Migliaccio (lembra do Tio Maneco?), Danuza Leão, entre outros, além de pontas de Darlene Glória, Paulo César Pereio, Maurício do Valle e até Clóvis Bornay. A linha de atuação destes é outro chamariz: Glauber consegue a proeza de deixar seus personagens caricatos e ambíguos. Porfírio Diaz (cujo nome é o mesmo do ditador derrubado pela Revolução Mexicano), apesar de reacionário, é admirado pelo rebelde Paulo. Este o traí para defender o populista Felipe Vieira (Lewgoy). Por fim, tanto Felipe quanto Paulo não atendem as vontades do povo e acabam repetindo os mesmos desmandos dos governos burgueses. Esta ambigüidade permeia todo o filme e só o enriquece.

Mas o que mais ressalta imediatamente na cópia nova é a impressionante fotografia do filme, feita pelo polêmico produtor Luiz Carlos Barreto. A movimentação dos atores e as locações escolhidas se integram numa coesão absoluta no P/B do filme, e o tom “tropical” de Eldorado é garantido pela preferência aos tons mais claros. O estranho é ver como é pouco lembrado este brilhante trabalho de Barretão, que ficou muito mais reconhecido pela falta de uso de lentes ao filmar em 1963 “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos. Pô, Barretão, por que você não seguiu mais esta carreira do que outras? Perguntar não ofende.

Aspecto político
Se no campo formal “Terra em transe” garante seu impacto, na parte política o filme é tão ambíguo quanto seus personagens. Visto hoje, não há como deixar de achar o seu discurso utópico datado, o que não é de todo ruim. O lado histórico e as metáforas remetendo ao Golpe de 64 dariam pano para manga para diversos estudos mais esmiuçados. Porém, nas falas, por mais que sejam nitidamente poéticas e não-realistas, é possível identificar ainda um romantismo no discurso, sobretudo no que Paulo diz, sempre desesperado por suas causas. Ou seja, fenômeno típico da Era das Utopias (ou “Guerra Fria”), em que só havia a dicotomia entre o Leste e o Ocidente, e que caiu por terra com o muro de Berlim. Mas pelo menos o caráter contraditório de todos os personagens não faz de “Terra em Transe” um panfleto; um guia para a revolução. Por exemplo, foi isto o que mais envelheceu em Eisenstein.

Na verdade, o próprio Glauber hoje em dia é visto pelas novas gerações como um herói romântico, uma espécie de Che Guevara do cinema, que “entregou sua vida em prol da arte e da revolução blá blá blá”. O problema principal disto é que este romantismo esvazia qualquer personagem – inclusive Glauber – e todas as discussões possíveis sobre ele, já que tornam estas pessoas quase sinônimas de mártires perfeitos. Ora, o gênio intempestivo do cineasta não era muito fácil de se encarar e ele foi capaz de cometer atos discutíveis, como o seu apoio ao governo militar de João Figueiredo (outra informação extra: Figueiredo foi um entusiasta de “Deus e o Diabo” e um dos defensores de sua liberação na Censura). Ou seja, Glauber era tão ambíguo e maravilhoso quanto seus personagens.

Por último é uma pena ressaltar o que há de mais atual no “Terra em Transe”. Quem sabe não vivemos num País governado por um Felipe Vieira, cujo discurso antes de ser eleito era “um barato”, mas que depois o barato saiu caro. Ou seja, desde 1967, ano do filme, vivemos as mesmas contradições, com governos de esquerda mantendo a mesma repressão rural e apoio aos mesmos Robertos Jeffersons de sempre, só para citar algumas semelhanças. Muitas vezes dizer que uma obra é “atual” não é necessariamente um elogio...

Por Christian Caselli

 

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