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Os curtas de José Joffily: uma crônica da diferença

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:57


 

Os curtas de José Joffily: uma crônica da diferença
Autor: Marcelo Ikeda


Ao longo de três décadas ativamente na produção nacional, o diretor José Joffily fez o tradicional percurso dos realizadores brasileiros. Antes de seu primeiro longa-metragem, Urubus e Papagaios (1984), Joffily realizou marcantes curta-metragens ao longo do final da década de 70. Embora sua produção em longa-metragem tenha se concentrado em ficções, Joffily no ano de 2000 retorna ao documentário, onde começou, com O Chamado de Deus, a ser lançado comercialmente no próximo mês no Rio de Janeiro. Por isso, a hora é mais que adequada para rever os preciosos curta-metragens do início da carreira do realizador, especialmente seus documentários. Neste sentido, este texto se concentrará em quatro curta-metragens, todos em exibição no site. São, em ordem cronológica, Praça Tiradentes (77), Alô Tetéia (78), Copa Mixta (79) e Curta-sequência – Galeria Alaska (80).

Praça Tiradentes, primeiro filme de Joffily, sinaliza em diversas medidas seu trabalho posterior. Neste curta, fica clara a posição do realizador afastando-se de uma postura típica das realizações, e mais especificamente dos documentários, do Cinema Novo e guardando algumas semelhanças com o grupo do Cinema Marginal. Nesse curta, Joffily apresenta um olhar descontraído e levemente nostálgico sobre a vida noturna da Praça Tiradentes. Joffily observa a diferença como característica típica do local. Vemos o implícito desfile dos travestis numa "noite de gala", a chegada dos carros, a circulação das pessoas e dos curiosos, várias manifestações culturais e alguns artistas dividindo o espaço com o público comum. O cotidiano e a efervescência do local são vistos por Joffily com uma ternura quase oposta ao padrão do cinema novo. As minorias e os marginalizados continuam em foco, mas ao invés de um imponente discurso social, Joffily trata esses indivíduos como pessoas comuns. Sua câmera portanto nunca busca um discurso, ou os trata como excluídos. Pelo menos em seu mundo particular, durante o domínio das estrelas, na Praça Tiradentes, eles são os reis e as rainhas de uma verdadeira festa. É a partir desse olhar igualitário que Joffily busca um diálogo, evitando a comiseração típica dos filmes que retratam os excluídos. Daí Praça Tiradentes fala, ainda que indiretamente, sobre a tolerância e a liberdade, sobre o direito de as pessoas serem diferentes e de poderem se aceitar exatamente como são.

Alô Tetéia é o único curta ficcional a ser aqui analisado. Visto de hoje, parece um filme ingênuo e seu humor talvez tenha envelhecido. No entanto, numa época em que o curta-metragem raramente era ficional, é um curta típico do cinema de Joffily. Neste, ele narra um tema essencial a sua filmografia: o contato da cultura culta com a cultura de massa. De forma bem-humorada, o filme narra as aventuras de uma dondoca que resolve pegar um ônibus e se mete em mil trapalhadas. O ônibus de Joffily se torna um microcosmo de um típico Rio de Janeiro. Nesse encontro fortuito, o diretor não perde sua oportunidade de ridicularizar os preconceitos da dondoca e de promover uma despretensiosa homenagem aos ícones da cultura de massa. É o mulato da Zona Norte que só pode ir para a praia de ônibus, etc. Nesse ponto, o filme se torna uma leve crônica de costumes sobre o carioca, ainda explorando os mesmos temas da diferença e da tolerância expostos em Praça Tiradentes.

Do choque inevitável entre o documentário de Praça Tiradentes e a ficção bem-humorada e despretensiosa de Alô Tetéia, Joffily produz um filme-síntese: Copa Mixta. Como seu próprio título informa, é a partir da mistura, ou mais propriamente, do contato com as diferenças, é que se explicita o encanto típico de Copacabana, talvez o bairro apontado por todos como o mais típico do Rio de Janeiro. Concentrando-se desta vez na Zona Sul, em contraste com o Centro ou a Zona Norte, Joffily realiza talvez seu trabalho mais pessoal. Através de entrevistas com pessoas completamente diferentes, passando por um policial, uma madame, um casal de velhos, jovens, e até um mendigo, Joffily constrói seu filme através do choque, mostrando Copacabana como um aparente caos que, exatamente por essa característica, a torna um bairro marcante. Assim, evita qualquer síntese redutora sobre o bairro, defendendo sua abordagem sobre a cultura popular e o papel das diferenças.

O choque também persiste particularmente na estética do filme, entre a ficção e o documentário. De fato, o filme começa com uma cena claramente ensaiada. Joffily coloca um ator em cima de um andaime em plena N. Sra. de Copacabana, falando frases quase incompreensíveis como se fosse um louco. A partir dessa cena ficcional, Joffily parte para o documentário, focalizando a reação das pessoas circulando pela rua e indagando suas respostas sobre o discurso do possível louco. Exatamente a partir dessa brincadeira com uma desconstrução formal que Joffily se aproxima das propostas do grupo do Cinema Marginal. Decerto que o diretor busca um cinema popular, no sentido de ser um retrato de uma coletividade, mas nunca como um discurso previamente diagramado, sempre problematizando seu próprio sentido de construção.

Em Galeria Alaska, Joffily realiza seu curta mais ousado formalmente. Apesar do título, o filme não é propriamente um plano-sequência, mas estruturalmente funciona como tal. Numa mesa de bar em frente à Galeria Alaska (o universo típico dos filmes de Joffily), dois atores discutem sobre um tema previamente estabelecido. A partir dessa discussão, eles vão envolvendo as pessoas do lugar, que acabam de forma descontraída falando sobre suas vidas e sobre o local. A idéia do plano-sequência torna Galeria Alaska um tremendo tour de force, especialmente quanto à iluminação. Um filme de produção extremamente simples, com câmera na mão, e baseado quase que exclusivamente no improviso e no inesperado, aproxima-se ainda mais do Cinema Marginal pelo seu aparente descaso, pela lógica de um jogo quase fortuito, pela afeição ao plano-sequência, pela tenra aproximação a uma marginalidade e pelo claro desejo de descontrução de um sentido totalizante.

Mas Copa Mixta permanece como seu filme-síntese, devido a uma característica que falta a Galeria Alaska: o aberto diálogo com o público. Mesmo nos documentários, o cinema de Joffily busca acima de tudo a atenção do público, com um tema popular e uma abordagem popular. Com isso, aproxima-se mais da geração do final dos anos 70, buscando um maior retorno de público, recusando as propostas mais herméticas. Ainda assim, é curioso ver como o diretor não abandona uma proposta estética bem definida e criativa. Com isso, além de ser um grande investigador de formas mais flexíveis e menos burocráticas de realizar documentários, Joffily mostra em seus curta-metragens que é, acima de tudo, um observador apaixonado das diferenças e das minorias do nosso caótico e tão particular Rio de Janeiro.


Marcelo Ikeda é editor do site Claquete - http://claquete.cjb.net.
Contato pelo e-mail:
claquete@hotmail.com.


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