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Pesquisadores e cineastas discutem temática da 12ª Mostra de Tiradentes

Por Guilherme Whitaker em 31/01/2009 08:41


12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
23 a 31 de janeiro de 2009

O lugar do personagem no cinema brasileiro contemporâneo, suas características mais procuradas e construídas e sua emancipação (ou não) da condição de porta-voz da enunciação foi o tema do debate desta quinta-feira no Seminário do Cinema Brasileiro, com a participação dos pesquisadores Cesar Guimarães e José Carlos Avellar, e das cineastas Claudia Mesquita e Marília Rocha.

O mediador e curador desta edição da Mostra, Cléber Eduardo, justificou a eleição da temática deste ano - "O Personagem e Seu Lugar" - a partir de sua observação do universo dos filmes inscritos para o evento. "Há um enorme número de filmes focados em um único personagem, mas não mais como porta-voz do autor, mas sim na busca de uma experiência direta da vida. Trata-se da procura pela autenticidade, pelo único, pelo singular do personagem e não colocá-lo como simbolismo para algo mais amplo", explica Cléber Eduardo.

Cléber apontou ainda o crescimento da narração em primeira pessoa como mais uma evidência dessa mudança do estatuto do personagem no cinema contemporâneo. Ele afirma que o mesmo pode ser observado na produção documental, que atualmente trabalha cada vez menos sobre grandes questões e painéis e mais sobre indivíduos, que muitas vezes emprestam seus próprios nomes ao título do filme.

Em sua fala, o crítico José Carlos Avellar traçou um longo panorama do estatuto do personagem na dramaturgia ocidental, partindo da tragédia grega (onde, segundo ele, os personagens não eram realistas, mas alguém a ser comentado pelo coro) e indo até Freud, para quem os personagens dos sonhos não são mais do que projeções do sonhador.

"No caso desses documentários de um único personagem, ocorre muitas vezes uma acentuada pactuação entre realizador e personagem, o que impossibilita a pessoa retratada de tornar-se um personagem. Ficamos em um estágio anterior à invenção de um personagem",
afirma Avellar.

O pesquisador mineiro César Guimarães analisou as diferenças entre o documentário e a ficção na construção de personagens. "Enquanto o documentário tem buscado a dramatização da ficção, a ficção tem buscado o realismo do documentário. Não creio que a fronteira entre documentário e ficção tenha deixado de existir, como muitos pregam, mas sim que o diálogo entre ambos tenha aumentado", aponta César Guimarães.

Claudia Mesquita, que veio à edição da Mostra deste ano com seu filme Nos Olhos de Mariquinha, seguiu a mesma linha de raciocínio de César Guimarães ao comparar dois filmes da programação deste ano: Praça Saens Peña e A Casa de Sandro. "Embora o primeiro seja uma ficção, ele possui tudo o que mais se espera de um documentário, como o retrato de um determinado contexto e cenário social. Já o segundo, um documentário, não almeja de forma alguma ser uma representação de uma ordem social", analisa Claudia Mesquita.

Já Marília Rocha partiu de sua experiência pessoal na realização de Acácio, exibido no último domingo, para sua contribuição à discussão apresentada, explicando um pouco ao público presente como se deu a aproximação com o personagem Acácio e como esse processo
do encontro voltou na montagem do material captado. Sua fala encontrou eco na manifestação de uma das pessoas presentes na platéia: "Os diferentes graus de distanciamento e adesão são a chave para a relação do cineasta com seu filme".

Longas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo foram destaques nessa quinta-feira

A programação de filmes desta quinta-feira priorizou a exibição de longas-metragens das mostras Aurora e Vertentes. Na primeira, o documentário mineiro As Iracemas, de Alexandre Pires Cavalcanti, arrancou aplausos do público que ficou até o final de um filme considerado radical em sua opção por um cinema de observação puro de três gerações de mulheres que vivem isoladas no interior mineiro e cujas falas são praticamente incompreensíveis.

Na mesma Mostra Aurora, foi exibido a ficção paulista O Fim da Picada, de Christian Saghaard, que diálogo com um certo cinema marginal e da Boca do Lixo, contando inclusive com as participações especiais de Carlos Reichenbach, Hermano Penna, Ivan Cardoso e José Mojica Marins. Já Vertentes apresentou o carioca Vida, documentário poético-sensorial de Paula Gaitán sobre a atriz Maria Gladys.

Finalizando a programação de longas desta quinta-feira, o documentário pernambucano KFZ-1348 foi exibido ao ar livre no Cine-Praça. O filme tem a curiosa premissa de buscar a história de um Fusca, cuja placa dá nome ao filme, indo atrás de seus diversos proprietários ao longo de suas quatro décadas de vida. Entre os curtas, três sessões tiveram lugar na quinta-feira: a Mostrinha exibiu a série "Programa Curta Criança 2", 
Mostra Juvenil "Curtas para a Nova Geração" e a série de Curtas Digitais "Ficção".

O debate do dia foi sobre o longa-metragem catarinense Sistema de Animação, exibido na última quarta-feira. Com participação dos diretores Alan Langdon e Guilherme Ledoux, do produtor José Rafael Mamigonian, e do crítico mineiro Marcelo Miranda, o debate girou em torno da relação dos diretores com o personagem principal de seu filme, o músico Toucinho.

"O filme é não apenas um documentário de personagem, mas também de fragmentos de um personagem, não apenas como músico, mas como pessoa", identificou Marcelo Miranda em sua fala inicial. "É um filme generoso com seu personagem, da mesma forma que o personagem é generoso com a câmera", completa.

Alan Langdon e Guilherme Ledoux contaram um pouco como conheceram o personagem do filme, que segundo ele é um músico bastante conhecido no cenário cultural de Florianópolis, e de como se deu a relação dele com as filmagens. "O Toucinho é um personagem conscientemente performático, então se presta muito a ser filmado", apontou Langdon. Já José Rafael, também ele um realizador com um longa-metragem de personagem único (Seo Chico - Um Retrato), explicou um pouco sobre o cenário cinematográfico de Santa Catarina, as dificuldades encontradas para a realização e um certo isolamento do restante do país. "Esse desterro influencia até mesmo nossa atitude com o próprio fazer cinematográfico. O distanciamento nos torna de certa forma mais imunes a tendências dos cinema atual, o que faz com que tenhamos uma liberdade maior, uma espécie de oxigenação criativa", afirma José Rafael.

Mostra de Tiradentes amplia e renova crítica de cinema

Os jovens diretores têm seus filmes avaliados por novos críticos. Os encontros entre realizador, crítica e público são ampliados de 12 para 18. A 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que vai até amanhã, sábado, 31 de janeiro, representou uma forte valorização da crítica cinematográfica na direção de retomar o prestígio do ofício, além de contribuir para a renovação de quem o exerce.

Nesta edição, 18 debates reuniram um crítico convidado, o realizador de um longa-metragem e o público, no dia seguinte à exibição da obra no Cine-Tenda. "Era uma reivindicação dos cineastas porque é uma possibilidade de um debate livre, sem funcionalidade, sem estar atrelado ao lançamento comercial do filme", explica Cléber Eduardo, curador da Mostra de Cinema de Tiradentes. Os debates reuniram um público atento, com intervenções muitas vezes valorosas. "É legal discutir o filme para entendê-lo de outra maneira que não a imediata", diz Mariana Couto, estudante de Letras.

Somando esforços para a renovação da crítica de cinema, foi reeditado este ano o júri jovem, formado em oficinas do próprio festival. Os cinco integrantes vão eleger amanhã o melhor filme da seção Aurora, composta por películas de diretores estreantes em longas-metragens. Neste ano, sete filmes concorrem na Mostra Aurora: "A Casa de Sandro", "A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida Da Mulher orila", "Sistema de Animação", "As Iracemas", "O Fim Da Picada", "Histórias de Morar e Demolições", "Praça Saens Peña".

"Aproveitamos a presença do público jovem em Tiradentes e queremos trazer um frescor, um olhar segmentado", justifica Cléber Eduardo. A coordenação dos trabalhos do júri jovem foi feita pela crítica da revista Cinética, Ilana Feldman. Ela diz que a tentativa foi de formular critérios a partir dos filmes vistos e discutidos nos encontros diários que manteve com o grupo. "Acho a experiência pertinente e admirável porque são os novos cineastas avaliados pelos novos/futuros críticos de cinema; é um pensamento/treinamento para o que virá", afirma a jornalista Maíra Bueno Moura, integrante do júri jovem da 12ª Mostra de Tiradentes.

O voto coletivo é um outro desafio, tendo em vista formações distintas dos escolhidos para o júri. "Nossas discussões são ricas porque partimos de pressupostos distintos, o que nos faz ouvir o outro", observa outro integrante, Sandro Henrique de Souza, formado em Letras. A Mostra Aurora também será apreciada pelo júri da crítica, formado por cinco renomados profissionais convidados pelo evento.

Júri jovem da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Luisa Helena Ribeiro dos Santos
Débora da Silva Lucas
Maíra Bueno Moura
Victor Ribeiro Guimarães
Sandro Henrique de Souza
Coordenadora do Júri Jovem: Ilana Feldman

Júri da crítica da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Consuelo Lins
Daniel Schenker Wajnberg
Ismail Xavier
Roberta Veiga
 


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