Phillipe Barcinski ganha retrospectiva de seus premiados curtas na MFL ::  | Curta o Curta

Phillipe Barcinski ganha retrospectiva de seus premiados curtas na MFL

Por Guilherme Whitaker em 10/02/2005 18:17





Mostra do Filme Livre entrevista Philippe Barcinski


Philippe Barcinski nasceu no Rio de Janeiro em 1972. Começou a trabalhar como estagiário de direção em cinema aos 14 anos de idade no filme "Leila Diniz" de Luis Carlos Lacerda. Na universidade, dirigiu seus primeiros curtas-metragens, "A Escada" e "A Grade", recebendo diversos prêmios, entre eles, o de melhor filme em Brasília e o prêmio especial do Juri em Gramado. Dirigiu mais três curtas, "O Postal Branco", "Palíndromo" e "A Janela Aberta". Juntos, os filmes ganharam mais de 40 prêmios em festivais como Chicago, São Francisco e México, tendo participado dos principais festivais de cinema do mundo como Cannes, Berlim, Clermont-Ferrand e Londres, além de terem sido vendidos para mais de 10 canais de televisão como o Canal Brasil, Chanel Plus, Channel Four e o Sundance Channel.

Na Mostra do Filme Livre o público carioca terá uma ótima oportunidade de assistir os cinco curtas do diretor na ordem em que foram feitos, além de conversar com ele no debate em que ele e Luiz Rosemberg Filho farão com o público do CCBB no dia 15-2.  A seguir, um bate-papo trocado por e-mail com o diretor.

MFL: Quais foram as principais dificuldades técnicas em dirigir um filme “de trás para frente” como no curta “Palíndromo” ? 

PB: Palíndromo teve um longo processo de pré-produção. A idéia era jogar com o desafio formal de se contar uma historia de trás para frente. Eu já havia visto alguns filmes com fragmentos de trás para frente. Lynch, Scorcese, Cocteau, pra citar alguns. Mas nunca tinha visto uma história inteira. A idéia era pesquisar as possíveis variações e nuances dessa idéia, ao mesmo tempo cuidando da dramaturgia da história como um todo.

Tecnicamente, quando comecei a rodar, não tinha nenhum dinheiro. Descolei uma câmera, chamei os amigos e comprei negativo. Tinha de conseguir finalizar o filme sem efeito de “pós”. Vi que as câmeras que faziam reverse eram muito precárias ou barulhentas. Pesquisando, descobri com um amigo, o Ricardo Dias, que se eu usasse negativo 16mm com dupla perfuração (dos dois lados, ao invés de um só como é o normal) e filmasse com a câmera de cabeça para baixo, conseguiria o efeito. É algo bastante engenhoso.

MFL: Como é realizar um primeiro longa produzido pela O2 (produtora de cinema de São Paulo)? 

PB: Eu produzi dois curtas na O2, dirigi comerciais e um episódio da série “Cidade dos Homens”. Tenho um longo relacionamento com a produtora. O longa é uma evolução natural disso.

MFL: Quais são os maiores desafios a serem superados para que um curta-metragista consiga realizar seu primeiro longa? 

PB: No meu caso, equilibrar o desafio formal com uma narrativa altamente emocional. Venho escrevendo o roteiro há 3 anos e ainda faltam ajustes. 


MFL: Quais os filmes e diretores que mais lhe influenciaram como cineasta? 

PB: As experiências mais marcantes em minha formação em relação ao cinema brasileiro foram Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos), Deus e o Diabo (Glauber Rocha), O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla) e Bang Bang (Andréa Tonacci). No cinema internacional, foram (Stanley) Kubrick e (Roman) Polanski. 

MFL:  Qual a importância da Escola de Comunicações e Artes / ECA (USP) para sua formação como cineasta? 

PB: Quem faz a universidade é o aluno, ainda mais em uma escola de Arte. Você pode passar incólume ou engrandecido pela experiência. Eu acredito que aproveitei muito o privilégio de ficar por 4 anos vendo e fazendo filmes sob a orientação de bons professores em uma universidade pública.

Para mim, uma universidade de cinema pode servir para dois propósitos. Ou para você aprender o aparato técnico do ofício, ou para você desenvolver seu olhar como artista. É claro que os dois estão, de certa forma, conectados. Mas para mim, o papel de uma universidade de cinema (para quem quer ser cineasta) é muito mais o segundo.

Bem ou mal, você acaba aprendendo o lado técnico no mercado. No entanto, todo o suporte da universidade, seus professores, os filmes, os livros, a possibilidade e o apoio para experimentar, questionar, trocar, é um ambiente que você não encontra em outro lugar e que serve como uma base única para um cineasta responder sua pergunta fundamental: que tipo de filme eu quero fazer. 


MFL:  O que você acha da taxação sobre curtas exibidos em cinema, sites e tvs proposta pela Ancine? 

PB: Acho que o curta deveria ser poupado. A economia do curta movimenta muito pouco dinheiro. Ninguém faz curtas por motivos comercias e, quem faz, normalmente é jovem e “duro”. Se, no fim do processo, ele consegue comercializar e ter algum retorno, deveria ser muito bem vindo.  O modelo econômico é muito frágil. Impostos nesse setor inviabilizam o que já não é totalmente viável.

MFL:  Você entende o curta como um mercado ainda inexplorado no Brasil ou como um produto a ser tratado de forma não comercial? 

PB: Acho que as ações da Petrobrás (curta às 6, e curta antes de longas) deveriam voltar. Era um modelo muito feliz. E acho que as TVs a cabo poderiam investir mais. Curtas curtos é uma excelente opção de interprogramas para canais a cabo de longa-metragem.
O curta fica na fronteira do cultural e do comercial. 

MFL:  Como você entende a participação do Estado como maior patrocinador de Arte no Brasil? Existe arte livre bancada pelo Estado? 

PB: Há que pensar cada arte separadamente. Cinema, no Brasil, só com apoio do estado. Ponto pacífico. Há vários filmes que geram muito mais do que custam, mas são casos exemplares. Um sistema econômico cinematográfico tem de ser baseado no filme médio. Não sei os dados exatos do orçamento médio e da arrecadação média. A conta certamente não bate.

Em relação ao curta, nem se fala. A receita é quase inexistente.

O lado bom é que até há pouco tempo a sociedade achava que o investimento do Estado nesse setor não valia a pena. Agora é praticamente senso comum que cinema brasileiro vale a pena. 

Saiba mais de Philippe Barcinski em www.barcinski.com.br


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