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Pra que serve um curta?

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:50


 

Pra que serve um curta?
Autor: Marcelo Ikeda


Atualmente, os realizadores independentes, isto é, aqueles que não possuem a estrutura de uma grande produtora ou que não receberam um prêmio de algum concurso ou das leis de incentivo, precisam praticamente vender a alma ao diabo para finalizar um filme em película. Além de gastar suas economias, ficam devendo uma série de favores, perdem um sem-número de amizades, brigam com os laboratórios e produtores. Por isso, uma pergunta é sempre relevante: pra que se faz um curta-metragem hoje no Brasil?

Passados todos esses desafios, e finalmente finalizado o filme, uma luta adicional ainda deve ser enfrentada. Como fazer para que esse filme seja visto? Os únicos canais de exibição dos curta-metragens brasileiros são os festivais. Por isso, a participação de um curta, especialmente em 35mm, num festival de curtas passa a ser disputadíssima. Mas como um festival pode exibir um curta de um cineasta iniciante? Deixando de fora o novo curta do Jorge Furtado, ou da Rosane Svartman? Existem notáveis exceções, mas raras, como a exibição de Cão Guia no Festival de Brasília. Mas apenas uma exceção. Como nenhum festival gostaria de deixar de exibir o novo curta do Jorge Furtado, na verdade é praticamente o mesmo grupo de curtas que circula em quase todos os festivais brasileiros, enquanto vários outros não consegue participar de nenhum deles. Por isso, haveria um equilíbrio maior com a necessidade do ineditismo para a sessão competitiva desses festivais, exibindo os demais filmes numa mostra paralela.

Mas por outro lado, para ter uma chance de disputar um grande festival, os novos cineastas muitas vezes acabam, ao realizar seus filmes, adotando uma escolha estética e ideológica que se encaixa no perfil geralmente conservador desses festivais. Caso consigam, ficam felizes, porque têm a oportunidade de serem vistos por um grande público, realizar contatos que poderão viabilizar a realização de novos projetos e garantir seu futuro no meio cinematográfico. Ou seja, sua decisão se ampara em um objetivo meramente político. Mas voltando à questão: pra que serve um curta? Pra isso?

Apesar de todo o incentivo que esses festivais de cinema vêm dando para o formato do curta-metragem, possibilitando a discussão e a exibição de curtas de origens diferentes e fazendo despontar novos nomes no cenário da realização brasileira, é preciso ver que esse modelo pode causar algumas distorções. Assim sendo, um "bom curta" passa a ser o curta exibido nos festivais, especialmente o vencedor de prêmios. O curta-metragista precisa demonstrar que possui inevitável domínio narrativo e técnico, saber cativar a audiência e conquistar os bastidores, para "provar" que tem as condições para realizar seu primeiro longa-metragem. Fazer um curta premiado, então, muitas vezes passa a ser uma condição obrigatória, um passo necessário para que o novo realizador possa sonhar com seu primeiro longa-metragem. Essa visão pragmática, apesar de eficiente no curto prazo, em geral leva os problemas para o longo prazo, quando o cineasta terá que resolver os problemas de seu primeiro longa em relação a como apresentar cinematograficamente uma visão de mundo e de cinema. Dessa forma, mais interessante que realizar um "bom curta-metragem" é descobrir seus meios próprios de expressão, trabalhando com o formato específico do curta-metragem, ou seja, descobrir-se. Um exemplo típico são os primeiros curtas de Wim Wenders. São curtas ousados, que isoladamente passariam desapercebidos em qualquer festival de curtas. No entanto, são o pontapé inicial de uma obra, isto é, já desenvolvem, ainda que de forma incipiente, uma série de conceitos e idéias que indiscutivelmente formam uma base para seus posteriores longas. Não importa que esses curtas, por si só, sejam bons ou discutíveis. Mais importante são que eles formam um caminho de aprendizado e aperfeiçoamento, de uma descoberta e um primeiro trabalho com questões que serão posteriormente seguidas. São curtas cujo valor só pode ser descoberto tendo-se uma visão do conjunto da obra do realizador, como parte de um processo.

É essa característica que pode se perder com as medidas restritivas dos grandes festivais brasileiros. Mesmo que ainda se considere o curta-metragem simplesmente como um caminho para o longa, o que já envolve uma série de restrições, a necessidade de ser selecionado para os grandes festivais pode implicar no longo prazo uma limitação da ousadia e da descoberta que se refletem até mesmo no próprio longa-metragem nacional.

Mas é isso o que procuram os novos realizadores? Pra que serve um curta? É preciso antes de tudo ressaltar que uma boa parcela de realizadores tem como objetivo simplesmente participar dos festivais, fazer com que os filmes sejam feitos, receber os convites e estabelecer os contatos para que outros filme seja feito, de modo que seu ingresso no festival do ano que vem esteja garantido. Porque, acima de tudo, e como sempre, há sonhos e sonhos que compõem o cinema brasileiro.


Marcelo Ikeda é editor do site Claquete.


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