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Quanto vale ou é por quilo? - Crítica de Christian Caselli

Por Guilherme Whitaker em 31/05/2005 20:59


"Quanto vale o show"? Ou "Quem quer dinheiro"? 

Por Christian Caselli

Sérgio Bianchi foi o homem que finalmente deu um fôlego novo na chamada "Retomada do Cinema Brasileiro". Ao invés de repetir a fórmula que todos estavam fazendo, ou seja, filmes pudicos para agradar quem o patrocinava, ele veio pela contracorrente e fez "Cronicamente Inviável", porrada considerável que jogava farpas para todos os lados. Ninguém era poupado: pobres, burgueses, espectadores, paulistas, cariocas, homens, mulheres, gays e etc. Nem mesmo o próprio artista em si: um dos personagens era um escritor que, para fazer o que bem queria, era obrigado a colaborar com o tráfico de órgãos. Ou seja, bem ou mal, "Cronicamente inviável" também fazia uma reflexão de sua contradição, já que, para existir, o filme também tinha que ter seus patrocinadores... 


Cena do filme "Quanto Vale ou é Por Quilo?"

Não que seja uma novidade Bianchi aprontar das suas. Sua trajetória o põe como um dos grandes provocadores do cinema brasileiro. Ele é apenas, coisa rara hoje em dia, um artista coerente. Prova disto é seu último longa, recentemente lançado nos cinemas com o sugestivo e estranho nome de "Quanto Vale ou é Por Quilo?". Com uma estrutura muito parecida com a de "Cronicamente Inviável", "Quanto Vale..." não tem uma história fixa, mas vários personagens em várias situações paralelas. Porém há uma radicalidade a mais: algumas vezes a narrativa volta no tempo e reconstitui casos jurídicos da época da escravatura brasileira. A intenção é óbvia: fazer um paralelo com a escravidão assalariada dos tempos de hoje. É óbvia, mas não banal: Bianchi consegue o incrível mérito de ser direto e sutil ao mesmo tempo. A transição entre as estórias e as Histórias é tão fluída que às vezes nem se percebe a mudança.

Mas se o questionamento sobre o que é ou o que era a escravidão é certamente um tema, este não é o principal mote do filme. Bianchi espinafra sem dó nem piedade as instituições beneficentes brasileira, ou pelo menos as que pregam "o bem ao próximo" mas que levam "bens" para o banco próximo. Hipocrisia, lavagem de dinheiro, ineficiência, tudo é mostrado ali. E muitas vezes com dados sólidos e números. Veja e pense antes de dar dinheiro pros "Crianças Esperanças" da vida.

O racismo não é tocado diretamente, mas há uma cena hilária que esculhamba com o sistema de cotas para negros em comerciais e filmes. Lá os publicitários vividos por Caio Blat e Emílio de Mello, ficam separando crianças que são "80% negras", "70% negras", "Outras" (indígenas), etc. Um outro aspecto é a nítida a preferência pelo caráter dos personagens negros. Lázaro Ramos faz quase uma ponta no filme, como um ex-penitenciário que rapta um dos calhordas de uma
fundação pseudobeneficente (vivido por Gerson Capri). Suas falas são bombásticas: logo depois de comparar as prisões com navios negreiros (sendo que estes tinham a vantagem de se saber onde iriam parar), dispara: "o que vocês chamam de seqüestro, eu chamo de ’distribuição de renda’".

Mas a personagem mais forte, sem dúvida, é a negra Arminda (Ana Carbatti), cujos fantasmas da escravidão a perseguem. Pode-se dizer que é a mais íntegra das personagens, sem esquecer também da "naïf" servente idosa interpretada pela falecida Myriam Pires. É Arminda que mergulha fundo em todas as questões do filme e enfrenta todos os tubarões com a coragem que os outros não têm. Por isto pode parecer estranho a desumanidade do próprio Bianchi quando resolve, no fim de tudo (pare de ler caso não queira saber do final), assassiná-la explicitamente. A câmera a enquadra "solo", grávida, levando um tiro que lhe dilacera o esterno. Estaria tudo perdido? Não há escapatória? Para que fazer filmes assim, então? Não, mas logo após o tiro e alguns créditos, eis que surge um epílogo salvador. E nada edificante e/ou condescendente. Muito pelo contrário. Enfim, há saída. Ou alguma chance.

 
Christian Caselli

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