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Quasi Cinema: uma nova proposta para o audiovisual

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:49


 

Quasi Cinema: uma nova proposta para o audiovisual
Autor: Felipe Scovino


 

A relação que Hélio Oiticica estabelece para o pensamento cinematográfico brasileiro é substancial: sua resposta ao conceito moderno de “morte da arte” no que concerne ao cinema tomou a direção de um novo conceito para a cinematografia, o “Quasi Cinema”, uma relação de “ambiente”, penetráveis e performance. Com sua obra audiovisual, os Quasi Cinema, Oiticica proporciona um deslocamento da noção de imagem que deixa de servir a um conteúdo narrativo-discursivo-referencial. Inventar, em primeira instância, a função dessa série: o não-contentamento com a “linguagem-cinema” e inquietação com a relação (principalmente visual) espectador-espetáculo (mantida pelo cinema – desintegrada pela TV) e a não-ventilação de tais discussões. Uma crítica/alternativa à hipnotizante submissão do espectador frente à tela de super-definição visual e absoluta sempre pareceu, a Oiticica, prolongar-se demais. Ao contrário, para Oiticica, a semelhança da imagem com o mundo é dissimulatória, pois diz também do desaparecimento do mundo e da própria imagem. Produzir um audiovisual, para Oiticica, é antes de tudo recusar produzir um audiovisual, entendido como prática cujo sentido se possa tornar um modelo.

Para as séries dos Quasi Cinema, Block Experiments in Cosmococa, que produziu com o cineasta Neville d’Almeida, Oiticica desloca a relação modelo/cópia que definiu a imagem na História até o início do século XX, problematiza o caráter de autenticidade nas artes plásticas e, ainda, questiona, pela paródia, o artista como figura “carreirista de arte”. Por processos, ao qual deu o nome de Mancoquilagens, em que trilhas de cocaína acompanham o desenho padrão que lhe serve de base, acusa o conceito de plágio:

“A COCA q se camufla plagiando o desenho-base não faz crítica do conceito mas brinca com o fato de q essa oportunidade de brincar haja surgido”.

O plágio não é uma cópia, pois a imagem não se refere a um modelo anterior e nem tem pretensões de unicidade. O modelo se dissolve pelas cópias e dá lugar a uma realidade em que a distinção entre o modelo e a cópia já não faz sentido. A realidade deste jogo impede a unicidade da imagem e a transforma naquilo que ela é: em seu duplo movimento de aparição e dissolução:

“A suposta unicidade da IMAGEM fragmentava-se ao resistir ao estereótipo que deveria defini-la e limitá-la: todas as tentativas de amarrá-la a uma unicidade constante pareciam frustar-se no final: havia algo que dissolvia essa unicidade”.

Em suas produções Quasi Cinema, Oiticica procurava um desvio para o poder da imagem que mantém o espectador numa posição imutável frente à “imobilidade” da obra, o não-contentamento com a prática de observação. Nesse processo de dessacralização da imagem, “programa in progress” nas palavras de Oiticica, procurava remodelar o simbólico, mais do que afirmá-lo ou representá-lo . Esse deslocamento colocaria em questão o paradigma de autor e espectador. Esse movimento regular que vai do autor ao espectador (e a sua adequação) é o que dá origem à obra de arte, aquilo que permite a organização do sistema de arte como obra. Como afirma Cláudio Dacosta, “nesse processo simétrico, o lugar de onde o espectador ‘pode ver’ é definido, e sua visão deve coincidir com a do autor, que é também a da cultura, a da sociedade, enfim, a da lei. O Quasi Cinema propõe a reversão desse conceito de obra. Negando a obra, Oiticica afirma a arte e propõe a obra como invenção (também intervenção) infinita de uma imagem-simulacro, uma imagem sem autor ou espectador, uma obra sem limite”.


Felipe Scovino fscovino@zipmail.com.br.


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