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Quem foi jurado na Bahia?

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2000 17:38


Quem foi jurado na Bahia?


Jornada Baiana decide não premiar curtas consagrados em outros festivais por terem qualidade ’artística e técnica precárias’ e por não atenderem ao tema da Jornada, ’por um mundo mais humano’.

Algo muito estranho acaba de acontecer na Bahia, mais precisamente na XXVII Jornada Internacional de Cinema. Dos 22 prêmios em disputa um número recorde (10) não foi concedido com a seguinte justificativa :


ATA DE PREMIAÇÃO

JURI INTERNACIONAL DE FILMES EM CONCURSO

Aos vinte e quatro dias do mês de setembro de dois mil, às vinte e uma horas, na sala de leitura do Tropical Hotel da Bahia, na cidade de Salvador, reuniu-se o júri Internacional de Filmes em Concurso. O Cinema é um compromisso e uma responsabilidade. De acordo com esse princípio, o júri integrado por Lola Millás, Haroldo de Oliveira, Edgard Navarro, Rigoberto Lopez e Rudá de Andrade decidiu dar a conhecer a seguinte declaração:

1) Devido ao fato de que a maioria dos filmes apresentados e aceitos em concurso, não correspondem ao espírito que anima a Jornada "Por um Mundo mais Humano", assim como a qualidade conceitual e artística foi precária, o júri convida os organizadores da Jornada a elevar o rigor seletivo que permita tão importante evento do nosso cinema recuperar o seu prestígio nas próximas edições.

2) Tendo em vista o exposto anteriormente, este júri decidiu deixar de premiar todas as categorias constantes do regulamento, exceto:

Prêmio GLAUBER ROCHA para o melhor filme da Jornada ao filme "O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas", de Marcelo Luna e Paulo Caldas, do Brasil, por seus valores narrativos e artísticos em revelar um dos problemas mais dramáticos da realidade brasileira.

Tatu de Ouro para o Melhor Filme Documental ao filme "Positivo", de Pilar Garcia Elegido ( Espanha), pelo eficaz tratamento humanístico de um tema de relevância universal.

Salvador, 24 de Setembro de 2000

Ass.: Haroldo de Oliveira, Rigoberto Lopez, Lola Millás, Edgard Navarro e Rudá de Andrade.


Ao ler esta Ata fica-se com as seguintes questões:

1 - Se os filmes não atendiam ao ’espírito que anima a Jornada "Por um Mundo mais Humano"’ , por que foram aceitos para participar da citada ’Jornada’ ? Ou seja, as pessoas que selecionaram os filmes não souberam fazer a seleção, que deveria prezar pelo tema ’Por um mundo mais humano’. Mas aqui ocorre um paradoxo. Esta idéia de ’um mundo mais humano’ é tão relativa como subjetiva. Até que ponto se é mais ou menos humano ? Até que ponto um mundo mais humano é melhor, mais eficiente e/ou justo que um mundo menos humano ? Afinal todos, de Erostrato a Hitler, foram desta espécie humana e nem por isso (estes citados) fizeram deste mundo uma habitação melhor, pelo contrário.

2 - Difícil não estranhar quando se ouve que a ’qualidade conceitual e artística foi precária’ em filmes como ’Passadouro’, ’Outros’ e ’Retrato do artista com um 38 na mão’. São filmes que podem, dependendo do ponto de vista, não ’lutar’ por um mundo ’mais humano’, talvez até porque sejam uma crítica a este pseudo moralismo humanitário que sustenta-se pela miséria e ignorância de uma população (brasileira) pessimamente acostumada a ser submissa. Mas argumentar que tais filmes (falo destes porque os vi, não falo dos outros porque sequer sei quais foram, posso até tê-los visto e não ter gostado, mas não falo do que não sei... ) não possuem qualidade técnica ou conceitual é ridículo, apenas evidenciando a prepotência dos jurados que, em primeiro lugar, quem são ? São técnicos e/ou profissionais de qualidade indiscutível, com anos ou décadas de excelentes serviços e filmes realizados no Brasil ? Mesmo que fossem, teriam errado se assim tivessem se comportado. Estes e outros filmes presentes ao evento (56 filmes) já haviam sido premiados em outros festivais deveras mais relevantes que esta Jornada Baiana e, se ali estavam, era para prestigiar o evento e não para serem humilhados.

3 - Sobre o fato de que o ’júri convida os organizadores da Jornada a elevar o rigor seletivo que permita tão importante evento do nosso cinema recuperar o seu prestígio nas próximas edições.’ , sugiro, humildemente, que sejam outros os jurados para a próxima edição do evento, se é que ele haverá, porque certamente vai ser difícil convencer algum realizador brasileiro a colocar seu filme numa Jornada que esculhamba-os. Será que os digníssimos participantes do ’Júri Internacional de Filme’ sabiam português ? Pode ser que não tenham entendido os filmes... Ou seriam eles como Nietzsche, estando (ou supondo-se) acima do bem e do mal?

Para um evento que em sua apresentação formal proclama-se como sendo ’o mais tradicional festival cinematográfico do Norte e Nordeste do Brasil que, ao longo da sua historia, tem se firmado e consolidado sua credibilidade, pela seriedade, coerência e firmeza como espaço promotor da produção fílmica independente, sobretudo do Brasil e da América Latina’, creio que pouco foi feito pelo cinema de nosso país. As pretensões, é claro, foram tão dignas quanto imensas. A arrogância do júri fez questão de dar seu recado contra, e não a favor, do que se tem produzido (não sem diversas dificuldades) em curta-metragem no Brasil.

por Guilherme Whitaker


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