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Reflexos de um sol alaranjado

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:45


 

Reflexos de um sol alaranjado
Autor: Marcelo Ikeda


Na primeira exibição pública no Rio de A Hora da Partida, último filme do taiwanês Tsai Ming-Liang, no horário de um jogo decisivo da seleção brasileira em sua campanha nas eliminatórias da Copa e na iminência da eclosão de uma guerra mundial, lá estava um jovem realizador, como de costume, na segunda fileira de poltronas, que provavelmente deveria estar soltando boas gargalhadas, embora silenciosas, com o filme. Era Eduardo Valente, que já tinha o seu Um Sol Alaranjado praticamente finalizado.

Dada sua natural posição de liderança no cenário da UFF, seu papel como crítico, aliado à sua obsessiva e incansável cinefilia, e seu livre trânsito na organização de eventos e na coordenação de festivais de cinema, a expectativa em torno do projeto de realização de Valente era das maiores. No entanto, Valente conseguiu superá-las com a simplicidade e a serenidade que sempre lhe caracterizaram.

Um Sol Alaranjado é tudo o que o cinema universitário pode ser. Filmado em 16mm e preto-e-branco, sem som direto, em locação, no interior de uma única casa, sem nenhum movimento de câmera, é um filme que ao invés de tentar esconder sua suposta precariedade técnica, ao contrário, busca extrair suas virtudes exatamente a partir de um diálogo íntimo com suas impossibilidades. Trata-se de uma enorme lição para o atual cinema brasileiro, que cisma em varrer suas deficiências para debaixo do tapete. Valente vai ao cerne da questão quando nunca confunde simplicidade técnica com desleixo ou mau acabamento. É preciso observar que, apesar de toda a simplicidade técnica do filme, o ótico foi realizado nos Estados Unidos.

No entanto, Um Sol Alaranjado não é um exercício de linguagem, nunca é mero recurso esteticista, porque o que importa em cada fotograma do filme é a vida, o mundo, as pessoas. A influência do cinéfilo se faz presente quando o filme busca, para sua maior inspiração, os recursos do cinema japonês. A estrutura familiar, o conflito entre tradição e modernidade, a reavaliação da importância da rotina, a indireta referência à repressão sexual e a tragicidade do destino nos fazem lembrar de um leque que vai de Ozu, Oshima, Teshigahara até, é claro, o Tsai de A Hora da Partida.

Uma mulher (mulher?) que nada lhe resta a não ser o seu pai. Um pai, que nada lhe resta a não ser sua filha. Um equilíbrio.

Do outro lado, o destino. A impossibilidade da imanência. A brevidade da vida.

Como então é possível sobreviver ante nossa pequenez?

O que nos desconcerta ao assistir a Um Sol Alaranjado é que todo o rigor que envolve o filme não consegue esconder uma profunda ternura. A imobilidade da câmara inspira um distanciamento e uma intimidade. De um lado, a ternura do amanhecer, a relação implícita entre filha e pai, a generosidade em aceitar os limites do outro, a tolerância. De outro, o enclausuramento, a austeridade da câmera imóvel e do preto-e-branco, a repetição. Evitando qualquer tentativa de explicitações psicológicas, a terrível presença do destino evidencia a difícil fragilidade que envolve nossa existência.

Por outro lado, Valente não busca nossa comoção, e não é apenas o distanciamento do filme que nos mostra isso. É preciso observar a ambigüidade dos personagens, e como o filme assume que às vezes eles se tornam incrivelmente patéticos. O amigo Fernando Veríssimo, em tom de claro exagero, chegou a confessar que a segunda parte do filme era uma comédia. E é exatamente isso o que o aproxima do cinema de um Tsai. É a partir da impossibilidade da permanência que buscamos subterfúgios para manter um equilíbrio que não pode mais ser mantido. Mas o que fazer sem ele? Como deixar de alimentar a saudade sem que definhemos?

Muito mais haveria a ser dito sobre o filme de Valente. O belíssimo uso do som, o diálogo extremamente ambíguo entre o materialismo e o espiritual (a única palavra do pai ocorre no instante de sua morte), o caráter cíclico do filme, o papel da diferenciação de um e outro dia pelo plano geral e o plano próximo, a sugestão de um tempo e espaço pelo som do rádio e da televisão (a TV chega a falar em FHC), a sugestão quase freudiana de uma inclinação sexual, o final profundamente reticente, o desconcertante rock-and-roll nos créditos finais. Neste breve espaço, só podemos deixar para a imaginação do leitor.

Não podemos, no entanto, nos abster de um plano-síntese, daqueles que marcam anos nas salas de cinema. É a filha dando banho no pai morto. A ternura e o grotesco, a purificação e a sordidez, o desespero mudo e a fragilidade do Homem, a transcendência e o vazio da rotina, o caráter cíclico. São nesses momentos em que a vida e também o cinema nos parecem uma terrível circunstância, mas profundamente necessária.


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