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Resenha sobre o curta Luiza, exibido na MFL Boston

Por Guilherme Whitaker em 30/09/2017 13:13


Crítica de Daniel Cuenca.

 

Luiza, Caio Baú (2016)  (trailer aqui) 

Através de um capítulo da sexualidade da Luiza como marco situacional, a curta-metragem de Caio Baú (2016) examina a relações de uma mulher com deficiência com seu círculo de referência imediato. Qualquer semelhança de cotidianidade que poderia ser associada com o entorno familiar e romântico aparece constantemente circundado por um gaze ansioso que domina o ritmo peculiar deste filme. A narrativa adota uma dinâmica que poderíamos denominar de “entrevistas observadas”: solicitações que se originam de entrevistadores às vezes ocultos, outras vezes presentes, até ocasionalmente de conversas gravadas e reproduzidas sobre imagens posteriores.

Chama a atenção a multiplicidade de cortes e de câmeras por tomada. Esta troca nervosa de olho formaliza as inquietudes de um olho que vigia preocupado, apressurado, cada vez mais desesperado frente ao desenvolvimento inevitável da história sexual de Luiza com seu namorado. Todos se afligem, conversam, perguntam, confabulam e sentem-se paralisados pela vergonha ou o pudor enquanto Luiza e seu namorado avançam no processo de intimidade sexual. Sob as conversas e apelações à castidade, escorre uma procura de impedimento do direito reprodutivo com fundamento na deficiência dos afetados. A deficiência intelectual é efetivamente medicalizada com propostas que vão da pílula anticoncepcional à vasectomia. A pressa é o acontecimento iminente da relação sexual entre os namorados com potencial de gravidez (“o acidente”), e a urgência é a suposta incapacidade da Luiza de criar um criança: pessoa com certa deficiência não deve se reproduzir. O limite do esforço coletivo é de caráter meramente médico (a pílula não deu certo) ou patriarcal (o pai acha absurdo fazer cirurgia nela; a mãe não consegue falar de vasectomia com os pais do namorado). A discussão contorna então qualquer questão da autonomia em favor de uma corrida preventiva que exclui a protagonista.

Luiza negocia sua intimidade através da atenção coletiva com um certo grão de atordoamento que talvez a salve: the daze in the gaze. Os silêncios notáveis que acompanham certos close-ups da protagonista se opõem aos murmurinhos constantes que a rodeiam. O olho que vigia é diverso, esmagador, incansável é, talvez, um pouco mórbido. Além da manipulação irrefletida e da infantilização dos adultos com deficiência, a soletração da informação parece exibir uma certo componente de morbidez. As penetrações constantes na intimidade de Luiza, sejam por meio da entrevista ou do interrogatório mais insistente, parecem exceder as necessidades preventivas. Este excesso é particularmente evidente na conversa com a avó que tem lugar no final. As procura de detalhes periféricos por parte da avó chama atenção por seu caráter insistente e invasivo. Não conforme com a primeira vez, a avó repete a pergunta: “Como foi fazer sexo?”; “Como é que foi?”. E é aqui, precisamente, que Luiza ensaia sua primeira defesa: “Foi isso, vó” - não tenho mais para contar, acabe. Frente a insistência da avó, Luiza emprega a ultima linha de defesa frente à interrogação invasiva, uma estratégia que lhe concede um espaço de liberdade frente à solicitação implacável do testemunho: a mentira.


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Silvia mãe da Luiza 01/10/2017 16:47
A vida real é muito mais complexa do que simplesmente opinar a vida alheia. Falta muita maturidade em seus comentários
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