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Rio das Ostras exibe curtas e vê nascer Associação dos Cineclubistas do Estado d

Por Guilherme Whitaker em 26/08/2004 13:44


1ª Mostra Rio das Ostras de Cinema
retrata a produção carioca dos últimos cinco anos
 
Por Christian Caselli
 
    Com a iniciativa do pessoal da produtora Fora do Eixo, foi realizado de 19 a 22 de agosto a 1ª Mostra Rio das Ostras de Cinema, que, em sua primeira edição, preferiu fazer um resgate de alguns dos mais significativos curtas-metragens cariocas de cinco anos pra cá. O resultado disto foi mais um evento bacana feito na medida para divulgar a nova produção cinematográfica para fora dos grandes centros urbanos. E realmente a curadoria de Frederico Cardoso e Walter Fernandes escolheu a dedo alguns dos filmes mais aclamados entres os festivais do Brasil a fora, como os curtas “Coruja” (de Simplício Netto e Márcia Derraik, que ganhou diversos prêmios), “Como se morre no cinema” (de Luelane Corrêa, grande vencedor de Gramado) e “Um Sol Alaranjado” (de Eduardo Valente, que levou o prêmio da Cinefundition em Cannes), entre outros.
 
    Vale ressaltar que a Mostra proporcionou também o I Encontro Cineclubistas do Rio de Janeiro. Foram dois dias de discussões na Sala da Cultura do Cinema, onde os debates eram precedidos à exibições de diversos vídeos cariocas. A iniciativa foi tão produtiva que, logo no primeiro dia do encontro, foi fundada a Associação dos Cineclubistas do Estado do Rio de Janeiro. 
 
    Ao fim da mostra, Prefeitura, realizadores, organizadores e público estavam contentes com o rebuliço causado pelo evento. A tendência é de que o festival perdure pelos próximos anos, sendo talvez a principal iniciativa de Rio das Ostras na área do cinema – vale ressalta que a Prefeitura local está demonstrando o interesse em criar na cidade um tipo de evento para cada área da cultura. Frederico Cardoso disse que na próxima edição serão abertas inscrições para aqueles que queiram exibir seus trabalhos. “Na verdade, nós queríamos ter aberto também para este”, declarou Fred, “mas não houve tempo hábil entre a assinatura do contrato e o dia da abertura do evento”.
 
Sessão por Sessão

    Embora não tenha sido exatamente da forma que seus realizadores queriam, a opção por fazer um apanhado da produção carioca dos últimos cinco anos foi bastante interessante, justamente para se fazer uma reflexão sobre esta safra. E, como se pode perceber, até que o Rio se saiu bem, obrigado.
 
    A exibição dos curtas feitos em 16mm e 35mm foram no Teatro Popular de Rio das Ostras nos horários nobres. A sessão de abertura se preocupou em ressaltar todo o ecletismo que o formato do curta pode oferecer: começou como o belo experimental “Ovo” (de Nicolas Algranti, baseado no texto mais misterioso de Clarice Lispector), passando pelo divertido e rápido “Afinação de Interioridade” (de Roberto Berliner, estrelado pelo então apenas-músico Gilberto Gil), a grotesca animação “Engolervilha” (dirigida por Marão), o denso e visceral “Tropel” (de Eduardo Nunes), o sensível “O Resto É Silêncio” (de Paulo Halm, com atores surdos), entre outros.
 
    Outras sessões tiveram um caráter mais temático, mesmo que isto não estivesse óbvio. O Programa 2 privilegiou a cultura popular: o samba estava em filmes com o citado “Coruja” (que trata dos compositores do sambista Bezerra da Silva) e “Meu compadre Zé Kétti” (do veterano Nelson Pereira dos Santos). Já o cotidiano podia ser notado em “Bala na marca do pênalti” (de Alexandre Dacosta), “O jeito Brasileiro de Ser Português” (de Gustavo Mello) e “Carraspana” (de Mário de Andrade). O único que divergia desta tendência foi o também citado “Como se Morre no Cinema”, já que ele trata de algo peculiar ocorrido com o clássico “Vidas Secas”, feito em 1963 por Nelson Pereira dos Santos – cineasta que, em compensação estava com um curta na sessão.
 
    O Programa 4 também tinha a sua veia popular, porém se concentrando na malandragem carioca. “Trava Contas” (de Paulo Camacho) é um experimental acerto de contas entre um bicheiro e um espertalhão. “Rota de Colisão” (de Roberval Duarte) trata de um roubo entre meninos de uma comunidade. O ágil “Nevasca Tropical” mostra a chegada de um certo pó branco na favela com direito a linguagem de história em quadrinhos e a Elza Soares no elenco. O carismático “Uma Estrela pra Ioiô” (de Bruno Safadi) trata de prostituição a la cinema mudo, enquanto o diabo – outro malandro – quer ajuda publicitária em “Do Jeito que o Diabo Gosta” (de Inácio Luiz). Mais malandragem em “Truques, Xaropes e Outros Artigos de Confiança” (de Eduardo Goldenstein) e mídia hipócrita em “O cabeça de Copacabana” (de Rosane Svartman).
 
    Já o programa 5 tematizava relacionamentos e acabou fazendo um apanhado eclético sobre isto. O belo e estranho “Patuá” (de Snir Wine) causa sensações diversas ao espectador ao misturar amor e canibalismo. “Uma Folha que Cai” (de Ivo Lopes Araújo) mostra as lembranças de um homem adulto sobre um infantil romance platônico. Outro tom é dado em “Oi Laura, Oi Luís” (de Márcio Melges), que retrata o livre e divertido cotidiano de um casal bacana. Já “Flores na estrada” (de Marcos Gonzales) mistura discussão de casal, burocracia e humor negro. A sessão terminou com o beckettiano “O Casal dos Olhos Doces” (de Felipe Rodrigues) e o bizarro “Quando o Amor Vem por Necessidade” (de Pablo Nery French).
 
    Quanto ao Programa 3, não houve um tema muito bem definido – pelo menos para este repórter – mas teve exemplares interessantes como o divertido “TPM – Tensão Pré-Matrimonial” (de Sérgio Rossini, que, só por ter retratado a Vila da Penha ao invés da Zona Sul, já teve seus méritos), o documentário/ficção “O Engraxate” (de Leonardo Duarte), o denso “Um Sol Alaranjado” e o kafkiano “O Refém” (de Alan Minas). Pra não dizer que tudo são flores, esta sessão teve o pior curta da Mostra: “Liberdade Ainda que à Tardinha”, de Luís Guimarães de Castro. Perdendo a chance de fazer um filme interessante sobre a vinda do grupo teatral americano Living Theatre em Ouro Preto (MG) durante a ditadura, o diretor optou em fazer um romance riponga-deslumbrado que constrange qualquer espectador.
 
    As sessões paralelas também tiveram seus méritos. Nas que antecediam as discussões cineclubistas priorizou-se o formato digital ou mesmo o VHS, com os vídeos “O Ovo Colorido” (direção coletiva), o sensacional “Unido Vencerás” (documentário de Pedro Asberg sobre a torcida do América), “Dia Internacional da Preguiça e Contra Inércia” (de Candy Saavedra e Carla Miguelote), “São Jorge de Camunguelo” (de Karen Akerman), “Kino Copa” (de Igor Cabral e Chico Serra), entre outros. O “Programa 6 – Especial Cineclubista” encerrou a mostra e talvez tenha sido a sessão mais autoral de todas, com o interessante “Disparos” (de Tarcísio Puiati), o ótimo “A Maldição do Samba” (de Remier) e o neo-marginal (favor não levar este rótulo a sério) “Mais Velho” (de Nilson Primitivo).
 
    Esta variedade é mais ou menos comum em mostras ou festivais deste tipo, mas foi bom comprovar isto justamente entre os filmes que tiveram uma carreira mais bem sucedida. Enfim, é possível não se guiar em padrões rígidos para se obter reconhecimento.
 
Christian Caselli viajou a convite do festival.
 
Cineclubes do Rio se encontram na Mostra Rio das Ostras de Cinema
por Chico Serra

    Em duas tardes ensolaradas de agosto, um grupo de 30 e poucas pessoas se reuniu na Casa da Cultura do Cinema, durante a 1a Mostra Rio das Ostras de Cinema, realizada pela Fundação Rio das Ostras de Cultura e pela Prefeitura de Rio das Ostras, para discutir estratégias de uma organização regional dos cineclubes do Rio de Janeiro e de um projeto nacional de Cineclubes, articulado a entidades regionais de outros estados. As discussões foram quentes, e as pautas incluiram questões relativas a direitos de exibição,bitolas de projeção, formas de arrecadação e manutenção,divulgação, articulação dos cineclubes a nível regional e nacional, questões fundamentais para o fortalecimento do movimento cineclubista.
    Estavam presentes representantes de Cineclubes como o Cachaça Cinema Clube, Cine Buraco, Cineclube Sobrado Cultural, Mate Com Angú, Cineclube Cantareira, Cine Santa Teresa, o Cavídeo, e outros, todos surgidos de 2001 para cá. No calor dos depoimentos surge uma idéia que já estava sendo discutida há tempos e precisava de uma definição de uma vez por todas: a criação de uma Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro, entidade que representará esses espaços de exibição junto aos governos federal, estadual, municipal e irá propor políticas públicas para o audiovisual, como formas de reparação dos estragos culturais feitos pelas exibições massivas dos filmes importados e nacionais falsificados nas telas comerciais de cinema. A entidade foi criada, sendo provisoriamente chamada de ASCINE (Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro), e irá iniciar uma pesquisa a fim de mapear os cineclubes presentes no Estado do Rio de Janeiro, além de realizar reuniões regulares que definirão os passos a serem seguidos na articulação regional. Está previsto a criação de um Jornal que reúna artigos sobre cinema e as programações dos cineclubes do Rio de Janeiro, bem como a realização de um grande evento que funcione como um forum regional de cineclubes, com diversas programações de cinema e vídeo e debates.
    A pluralidade das programações, a diversidade de propostas e a autenticidade da criação dessas mesmas salas alternativas , que foi foco de diversas matérias de jornais e até da TV, serve como um panorama da pluralidade cultural do próprio Rio de Janeiro, onde não se pretende fazer um retorno a forma de organização dos antigos cineclubes, travadas com seus estatutos, atas de fundação e assembléias etc. O que pretende o coletivo de cineclubistas do Rio de Janeiro é uma reorganização da forma de fazer cineclube, com liberdade de programação, incentivando as produções fora dos circuitos comerciais e clássicos do cinema mundial, bem como a liberdade da forma de organização dos cineclubes, de acordo com o público, periodicidade e a geografia cultural da região onde estiverem atuando essas salas de liberdade e experimentação audiovisual.

Para saber mais entre em contato com Chico Serra pelo email franciscoserra@terra.com.br ou tel: 21 99238220

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