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Ruy Guerra fala sobre curtas e longas histórias de cinema, leia aqui mesmo

Por Guilherme Whitaker em 24/06/2004 14:17


Veterano Esquema Novo
Homenageado no Festival de Porto Alegre, Ruy Guerra mostra vitalidade que só um artista experiente consegue ter...
Por Christian Caselli

Muito já se falou da importância de Ruy Guerra dentro do cinema brasileiro. Afinal, foram poucos os cineastas que conseguiram emplacar dois clássicos de peso dentro do Cinema Novo (“Os Cafajestes”, de 1962, e “Os Fuzis”, de 1964) e ainda continuar na ativa com uma obra coerente. Para comprovar isto, basta ver seu último longa, “Estorvo”, de 2000.

Homenageado na última edição do CineEsquemaNovo aos 73 anos de idade, o moçambicano Ruy mostrou que ainda está na “contracorrente”, como costuma dizer. Em Porto Alegre ele foi entrevistado com inclusividade pelo Curta o Curta.

Curtaocurta:Um dos motivos que o Festival CineEsquemaNovo resolveu homenageá-lo foi porque você defendeu a diversidade das bitolas nos outros festivais brasileiros. O que você achou da homenagem?

RuyGuerra: Eu acho o esquema do CineEsquemaNovo interessante como proposta de discussão da cinematografia mais do que um oba-oba. E é um festival que está vocacionado a um público mais jovem que está fazendo cinema justamente pela liberdade das bitolas.

CC: Você pensa em fazer um filme em digital?

RG: Eu tenho um projeto que eu estou estudando a viabilidade dele ser em digital, que é uma história policial. Pelo menos na minha visão sobre o digital, embora não possa ter uma postura nem muito rígida nem muito crítica -  quero fazer uma experiências primeiro -, me interessa fazer uma história que em si mesma tenha uma dinâmica acelerada. Eu não pensaria em digital de imediato se fosse uma história bem instalada, serena e tal, acho que o digital não seria tão adaptado a isto.

CC: Você falou que quer fazer um filme policial. E você já se aventurou em vários gêneros; como “Os Fuzis”, com temática mais rural, e “Os Cafajestes”, mais urbana; o “Ópera do Malandro”, que é um musical; o “Estorvo”, que é de difícil qualificação... Isto é proposital? Você gosta de mudar de gêneros?

RG: Não, eu não quero mudar os estilos, eu quero buscar formas. Formas que sejam instigantes e que me interessem em diferentes aspectos da dramaturgia. E evidentemente que a forma mexe com gêneros. Me interessa mais trabalhar dramaturgias distintas e não os gêneros.

CC: Você é moçambicano, estudou em Paris e se fixou no Brasil. Como esta mistura bate na sua cabeça?

RG: Eu acho que não sou um caso único e solitário. Isto faz parte de um pouco da diáspora das últimas décadas, em que há uma espécie de transumância de populações e de pessoas por motivos políticos, culturais, econômicos, que vão se desviando de país para país. O meu caso foi muito específico, porque eu nasci numa colônia, em uma ditadura de direita, que era a salazarista, então desde menino estava vocacionado para ir embora. E como me interessa muito a palavra, e como tinha uma formação cultural muito marcada pela  literatura, poesia e música brasileira, o Brasil sempre foi uma espécie de porto que um dia pensei em chegar.

CC: E por que o Brasil?

RG: Por fatores culturais muito bem marcados... Um país tropical como eu nasci, com os mesmos frutos, a mesma paisagem humana, só que em estágio diferente; que fala o mesmo idioma, embora com sotaque diferente; o natural era vir ao Brasil e ficar. Tive propostas de ficar em países considerados do primeiro mundo, mas que não me interessavam culturalmente.

CC: E como este caráter internacional se reflete na sua obra? No caso do “Estorvo” isto é mais evidente, já que há uma mistura de sotaques e geografias...

RG: Eu acho que o “Estorvo” procura ser um retrato disto. Evidentemente nele isto está mais bem marcado. Mas de uma forma mais subliminar está em todos os outros. Mesmo quando um brasileiro do sul vai trabalhar no nordeste, ele está passando de uma cultura para outra, embora seja a mesma base cultural, são razões diferentes. Comigo isto é mais forte, evidente, pelo fato de eu ter nascido e ter vivido minha juventude no continente africano, por ter estudado na Europa e por ter estado em outros países por períodos determinados, é evidente que isto dá um recuo crítico, dá um outro referencial cultural, dá informações paralelas que você, na sua prática, acaba englobado dentro disto. E no fundo sou um dos muitos exemplares destas pessoas que nasceram em um país, que vivem noutro e que vão morrer em um terceiro, e que somos eternos emigrantes em qualquer ponto em que a gente esteja.

CC: Voltando ao “Estorvo”, ele foi um filme muito contra a corrente na época em que foi lançado. Isto foi intencional?

RG: É claro que há um lado intencional, estas coisas não acontecem inteiramente por acaso. Se eu peguei a obra do Chico (Buarque) para adaptar, é porque eu achava que o cinema brasileiro estava muito acomodado esteticamente e achei que era preciso romper com este comodismo; com a base cultural tão apática que estava propondo o cinema nacional na época. E eu quis fazer um cinema de resistência, um cinema em que tem de haver vertentes em vários sentidos. E o “Estorvo” me parecia uma obra que me permitia tratar de uma paisagem humana e cultural que não estava sendo colocada, nem no cinema brasileiro, nem no cinema mundial.

CC: Essa “mexida” que você deu ainda está sendo necessária no cinema brasileiro atual?

RG: Eu acho que é sempre necessária. Talvez não precise assumir radicalismos como o do “Estorvo”, que eu achei que era fundamental - mas que também correspondia a uma experiência estética que me interessava percorrer - mas é sempre necessário a gente romper com sistemas acomodados.  

CC: Você falou uma coisa muito marcante na abertura do CineEsquemaNovo que é ótimo o fato de estar sendo homenageado ainda em vida. A sua obra póstuma é algo que paira em sua cabeça?

RG: Eu não penso em obra, penso em filme a filme. Vai ser uma obra quando eu morrer; eu não penso muito nisto. Mas é evidente que há certos filmes que não podem ser consumidos de uma forma mais ampla quando eles são feitos na medida em que eles são a contra-corrente. Como eu tenho uma tendência a fazer estes filmes contra o sistema vigente estético, é claro que eu tenho a esperança de meus filmes terem uma permanência para que sejam eficazes na sua postura. 


CC: Pra você o que representa o curta-metragem para o realizador? Seria mais um ensaio para um futuro longa...?

RG: Até o momento o curta tem sido um ensaio para se fazer um longa-metragem, porque é mais fácil de se conseguir os meios econômicos para fazê-lo, é evidente. Mas o fato é que o curta-metragem, em si mesmo, é um gênero. Há casos de bons curtas-metragistas que não foram bons cineastas de longas-metragens e vice-e-versa. Como tem o conto e a novela na literatura, acho que o curta-metragem tem uma estética própria. Eu, por exemplo, tenho projetos que não cabem no formato de longa, mas que cabem no de curta e acho que tem tanta importância para mim quanto um longa possa ter.

CC: E o curta é um espaço privilegiado para a experimentação ou não?

RG: É evidente que é na medida em que você sofre menos o peso econômico da produção. Se você faz uma produção cara, de alguma forma você está submetido a uma série de pressões, até a sua própria pressão pessoal, para que este dinheiro que vá sair completamente a fundo perdido. Então de alguma forma, você contemporiza. Enquanto no curta, como não há esta pressão econômica, você pode ousar mais, deve ousar mais e deve fazer com propostas estéticas mais arrojadas.

CC: Como professor universitário você estimula seus alunos a experimentarem mais?

RG: Claro que sim. Eu acho que a arte é um espaço de experiência por definição. E eu não estou falando simplesmente no cinema, mas também na literatura, na pintura, na música; eu acho que é preciso sempre arriscar, ousar e não trabalhar só com as formas-padrão já praticadas e já aceitas. Trabalhar com a arte é, de alguma forma, procurar trabalhar com o desconhecido, para poder resultar em alguma forma de comunicação mais interessante. Se não você simplesmente vira um copista. Pode ser um bom copista, mas é um estágio inferior da arte. 

Christian Caselli viajou a convite do Festival.


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