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Saiba como foi a Oficina de Foto alternativa da MFL

Por Guilherme Whitaker em 05/02/2005 21:29



Duas das fotos do Ateliê de Processos Alternativos  -  Oficina da MFL 2005



PRIMEIRA SEMANA

Primeiro encontro no Ateliê da Imagem
No primeiro dia do Ateliê de Processos Alternativos (oficina da IV Mostra do Filme Livre que acontece no Ateliê da Imagem), os 10 alunos selecionados foram apresentados às técnicas que eles estarão colocando em prática nos próximos dias. Os professores Ana Saramago e Marco Antônio Portela fizeram uma apresentação geral e mostraram exemplos das possibilidades abertas pelas experimentações criativas que esses processos possibilitam. 

Esses processos são chamados de alternativos porque fogem completamente à linha de produção industrial da fotografia convencional. Algumas são técnicas históricas, dos primeiros anos da invenção da fotografia, como o daguerreótico, o ambrótipo, o ferrótipo, o cianótipo, a goma bicromatada, o marron Van Dick, etc. Destes, os alunos estarão produzindo, principalmente, cianótipos e marron Van Dick, por serem os mais simples de serem manipulados quimicamente e que rendem resultados interessantes a curto prazo. Além desses, também serão feitas experiências com técnicas alternativas contemporâneas, como a impressão com café ou a impressão com emulsão líquida, que pode ser aplicada em superfícies diferentes do papel tradicional: tecido, cerâmica, tela, ou qualquer outro que a imaginação sugira e a prática viabilize.

Já no primeiro dia, surgiram várias idéias criativas para serem desenvolvidas ao longo do curso, algumas totalmente inéditas, pois nunca foram testadas anteriormente. Agora é hora de produzir os negativos grandes, pois as impressões são feitas por contato, ou seja, a imagem fica com o mesmo tamanho do negativo. Aguardem as próximas notícias, pois vocês poderão acompanhar aqui mesmo no site curtaocurta, o passo a passo dessas experiências, com todos os desafios técnicos envolvidos e suas aventuras estéticas maravilhosas. 

Os alunos da oficina de fotografia estão cada dia mais envolvidos no trabalho com as experimentações fotográficas. Os processos alternativos passam por uma etapa superinportante que é a da preparação do negativo. Existem diversas formas de se fazer um negativo grande e eles experimentaram algumas delas. O fundamentral é que a cópia que será feita em seguida vai ter exatamente o mesmo tamanho do negativo, já que a impressão é feita por contato direto do filme com o papel fotográfico.

Uma das formas de fazer um negativo grande é usando caixas e latas para fotografar. Assim, os alunos fizeram sua prática de pinhole, que também é conhecida como câmera do buraco da agulha. Prepara-se a lata ou caixa com vedação total à luz, faz-se o furinho com delicadeza e depois é só inserir o filme ou papel dentro da câmera e sair por aí, fotografando o que quiser. Essa parte do curso apresentou ao pessoal algumas das possibilidades de se investir na via alternativa já desde o momento da captação das imagens. A fotografia da lata surpreende por sua qualidade e nitidez até as pessoas mais céticas!

Outra maneira de fazer negativos grandes é ampliar o negativo pequeno em um filme litográfico (tipo o kodalith) em folha, o que vai gerar um resultado positivo. Daí, pode-se fazer uma cópia-contato desse positivo em outro filme em folha do mesmo tamanho, gerando, por sua vez, um resultado negativo. A razão de ser assim é que o filme revela uma imagem de tons invertidos, pois onde a luz bate, a prata - que é a base da fotossensibilidade dos materiais fotográficos - escurece. A luz fica escura e a sombra fica clara. É por isso que o processo tem que ser feito em duas etapas. Mais explicações que isso, só mesmo fazendo a oficina... 

As atividades no laboratório foram ficando mais quentes a cada dia. Muita movimentação de entra e sai pra revelar, ver como ficou e mostrar pros colegas, que, a esta altura, já vão criando uma cumplicidade nesse processo de experimentação que sempre envolve surpresas e, às vezes, algumas inevitáveis decepções. Mas nada que uma próxima experiência bem sucedida não resolva...

SEGUNDA SEMANA

A palestra de Francisco da Costa, fotógrafo e pesquisador, mobilizou a curiosidade geral da turma. Nos últimos anos, ele vêm se dedicando a resgatar as técnicas dos primeiríssimos anos da fotografia. Trata-se do Daguerreótipo, que é considerado o primeiro processo fotográfico inventado na história. O nome é derivado de seu inventor, Louis Jacques Daguèrre, que em 1839, recebeu o reconhecimento oficial da Academia de Ciências na França pela invenção dessa técnica que possibilitava aos homens "desenhar com a luz". O daguerreótipo chegou a ser o processo mais popular de produção fotográfica nas primeiras décadas da história da fotografia, a despeito da "concorrência" das outras técnicas descobertas na mesma época. Nos idos de 1870 em diante, o daguerreótipo perde gradualmente terreno para os processos baseados no princípio positivo-negativo, que permitiam infinitas cópias a partir de uma única matriz (forma de trabalho mais adequada ao sistema de produção industrial). 166 anos depois da invenção do daguerreótipo, Francisco da Costa produz seus próprios daguerreótipos no Brasil e ensina o caminho das pedras, em cursos e oficinas, aos aventureiros que quiserem sentir de novo o sabor de produzir essa imagem única, produto de um amálgama de prata em placa de cobre polida, sensibilidade com vapor de iodo e revelada com vapor de mercúrio! 

                                                                 
                                "desenhar com a luz". O daguerreótipo                   Tatiana Altberg e o grupo da Maré  

Convidamos a fotógrafa Tatiana Altberg a apresentar o projeto desenvolvido por ela junto às crianças da comunidade da Maré. É uma oficina de fotografia pinhole e esse trabalho tem parceria com o CEASM - Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, fundado em agosto de 1997 pelos próprios moradores e atuante no complexo da Maré. Lá eles têm um laboratório preto e branco montado, onde as crianças aprendem a revelar e copiar. Pode parecer surpreendente, mas as crianças preferem fotografar com as latas e caixas do que com as câmeras manuais profissionais que foram doadas ao projeto. Os garotos da Maré deram um show de competência na arte da "foto da lata" e mostraram um material de rara beleza e força. Tem auto-retratos, retratos de família, fotos feitas nas ruas, fotomontagens no estilo modernista, composições abstratas, geométricas, etc. Tem até histórias de ficção construídas juntando-se imagens e palavras, prática esta que vem sendo estimulada por Tatiana e que tem chegado a resultados altamente poéticos e reveladores.

Estamos chegando mais perto do momento decisivo. Agora que cada aluno já juntou vários negativos, partimos para a fase de impressão. Como já foi dito, as cópias são feitas por contato do negativo com o papel emulsionado artesanalmente. Esse "sanduíche" é prensado entre dois vidros e preso com garras, para não sair do lugar. A prensa é exposta ao sol pois esse tipo de emulsão é mais sensível à radiação ultravioleta, que, como sabemos, é abundante no Brasil nessa época do ano. Num belo dia de sol, deixamos a prensa exposta por alguns minutos e acompanhamos o gradual escurecimento do papel. A "revelação" da imagem acontece a olhos vistos, no ar aberto, e nisso esse processo é radicalmente diferente das técnicas padronizadas de processamento em laboratório, que ora acontecem à luz vermelha, ora na escuridão total. Nos dias menos ensolarados, essa etapa pode levar até uma hora! Enquanto isso, a gente espera e também aprende a lidar com a nossa própria expectativa e ansiedade... 


                                            
              "Esse "sanduíche" é prensado entre dois vidros"...            Essa é fruto de um negativo pinhole...

Finalmente, ficou pronto o primeiro cianótipo do grupo! A base da fórmula química usada para emulsionar o papel é o ferricianeto de potássio, que gera esse tom de azul que é característico do cianótipo. A cena mostra o jardim do Ateliê da Imagem, onde a foto foi feita com câmera de latinha. Fruto de um negativo pinhole, essa cópia foi impressa em papel preparado pela própria pessoa que fez a foto, no caso a Teresa Cristina. É difícil imaginar uma técnica de resultados mais pessoais que essa: o fotógrafo fabrica sua câmera, prepara seu negativo, fabrica seu papel, ele faz tudo do seu jeito e, por isso mesmo, sempre chega a resultados pessoais e únicos, inclusive difíceis de repetir igual. Geralmente, esse apelo artesanal e esse envolvimento especial com os processos da criação, mudam a relação que a pessoa tem com o que faz, bem como com o produto do seu fazer. 


Visite as exposições de Ateliê da Imagem
www.ateliedaimagem.com.br
21 - 25413314


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