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Seminário Curta & Mercado: empresas, governo e entidades vêm futuro promissor pa

Por Guilherme Whitaker em 07/09/2010 19:46


No mês de agosto, entre os dias 23 e 25, representantes do setor público, de produtores e de empresas privadas ligadas à produção, exibição e distribuição, estiveram reunidos em São Paulo, na Cinemateca Brasileira. O Seminário de Comercialização de Audiovisual de Curta Duração – Curta & Mercado foi organizado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAV/MinC), pela Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), pela Associação Cultural Kinoforum e pela Cinemateca. O evento foi inédito como uma oportunidade de exposição das visões pública e privada sobre as perspectivas de desenvolvimento da circulação comercial de curtas-metragens nacionais.

Duas apresentações ajudaram a situar o tema em contextos mais amplos. Uma com informações sobre esse cenário na França e outra sob uma abordagem econômica moderna. Entre os destaques de ações concretas, o Canal Brasil apresentou resultados consistentes de valorização dos curtas nos últimos anos e o Circuito Espaço de cinemas, um bem sucedido projeto de exibição. Dentre as iniciativas empreendedoras, a Curta o Curta aparece como única dedicada com exclusividade à distribuição de curta-metragem. Para o desenvolvimento futuro, a ABD divulgou o projeto “Curta em todas as telas” e o Projeto de Lei 29 (PL 29), que regulamenta a TV por assinatura, surge como fator iminente a promover uma grande ampliação da demanda nos próximos anos. Ao final do evento, ficou a confiança de que o cenário de convergência digital se apresenta como uma excelente oportunidade para a produção audiovisual brasileira e para o curta-metragem em especial.

Produção vigorosa para sustentar a comercialização
Nos últimos anos, a SAV/MinC desenvolveu e executou com sucesso ações para apoio a produção de curtas-metragens. Silvio Da-Rin, ex-secretário da pasta, informou que, entre 2007 e 2010, foram lançados 30 editais que, com investimento de R$ 500 milhões, permitiram a realização de 500 obras. Outras iniciativas nas esferas estadual e municipal apoiaram a aquisição de equipamentos digitais e a formação de escolas de cinema. A quantidade de curtas produzidos em todo o país foi ampliada no período, com estimativa de 700 títulos/ano sem prejuízo da qualidade técnica e artística. A difusão também cresceu com a atividade cineclubista e, novamente, ações de políticas públicas como a Programadora Brasil e o Cine Mais Cultura. Contudo, estas ações na área de exibição, assim como os festivais, não remuneram os produtores. Segundo Silvio, “esse seminário está até atrasado”, reconhecendo que faltou, na década, ênfase na sustentabilidade e foco na comercialização.

Licenciamento remunerado já é realidade
A despeito da fragilidade na exibição remunerada, existem experiências bem sucedidas. O Canal Brasil apresentou a sua, muito relevante na abertura de espaço para o curta-metragem nacional. Desde 2000, já passaram pela grade do Canal Brasil 1.210 curtas negociados com 345 produtores. O volume de recursos envolvidos nos licenciamentos ultrapassa R$ 1,8 milhão. A meta para 2010 é ocupar 10% da grade de 24 horas do canal com curta-metragem nacional.

Para Adhemar de Oliveira, do Circuito Espaço, “nossa realidade é rica nas possibilidades e pobre na capacidade de realização”. A riqueza dos festivais se contrapõe à pobreza das salas de exibição, tanto em termos de quantidade quanto de diversidade da produção nacional exibida. Adhemar apresentou a experiência do projeto “Curta às Seis” que, com patrocínio da Petrobras, exibiu 550 curtas para 602 mil espectadores em salas de cinema do circuito Espaço, ao longo de seis edições desde 2000.

A Curta o Curta surge como uma das principais ações empreendedoras para apoiar produtores na circulação de suas obras e facilitar a vida dos exibidores ao organizar o licenciamento da produção.

Marcus Mannarino, um dos sócios da empresa, revelou que, desde 2007, já foram fechados contratos para exibição de curtas em salas físicas, na TV, na Internet, em celulares e em escolas, com cerca de 200 licenças de curtas negociadas. A Secretaria de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro adquiriu 8 curtas para exibir permanentemente em 240 escolas da rede pública de ensino fundamental. Outros contratos para exibição em salas físicas foram firmados com Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Valença (RJ), Sesc Santos (SP), Firjan-RJ, Sesi-RJ, Sesi Jacarepaguá, Congresso Nacional de Medicina do Trabalho e Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia. Mannarino citou, ainda, o evento Curta no Almoço, criado e produzido pela Curta o Curta desde 2007, com patrocínio da Caixa. Exibe na Caixa Cultural, no Centro do Rio de Janeiro, sessões diárias gratuitas, de até 20’ de duração, no horário do almoço, durante 2 semanas. Foram realizadas 6 edições. No total, foram exibidos 77 filmes. O público cresceu 151% entre a primeira e a sexta edição, com 522 pessoas e 1.312 pessoas presentes, respectivamente. Mannarino anunciou que a 7ª edição acontecerá em setembro. E, em outubro, será a vez de São Paulo receber o evento, sob o patrocínio do CCBB-SP.

Seguindo no relato de resultados, informou que a TV Brasil também licenciou filmes do Catálogo Curta o Curta. E que a distribuidora já abriu novas frentes para exibição remunerada dos curtas em novas mídias. Na telefonia celular, já estão disponíveis 8 obras em dois serviços: Minha TV Claro, para assinantes da operadora; e Enterplay, empresa de exibição de conteúdo audiovisual via Internet e em aparelhos celulares independente da operadora.

O Catálogo Curta o Curta já conta com mais de 160 títulos em oferta para licenciamento, incluindo todos os curtas da Casa de Cinema de Porto Alegre e obras de outras grandes produtoras, como Superfilmes, Urca Filmes, Cavídeo, WSet, Pela Madrugada e Otto Desenhos Animados. Mannarino contou que o Catálogo é ampliado permanentemente, com curtas selecionados e premiados em festivais de cinema e, também, com títulos que já não circulam pelo circuito.

Outras iniciativas privadas apresentaram seus modelos de negócio durante o seminário Curta&Mercado. A Elo é uma distribuidora que desenvolve um modelo de negócios que busca explorar o potencial do conteúdo audiovisual, incluindo o curta-metragem, como produto de apoio para grandes empresas fazerem “branding”. Ela mantém alguns canais para exibição gratuita de filmes via Internet. E trabalha, ainda, na venda de filmes para o exterior.

A M1nd, outra empresa que se apresentou durante o Seminário Curta & Mercado, é uma empresa de tecnologia com foco em soluções para plataformas móveis. “A M1nd tem a única solução de TV Móvel da América Latina, em operação na TIM, Oi e Brasil Telecom”, afirmou Thalita Dalacosta.

A Blopix aposta na migração das locações para o ambiente web e celular. “É uma plataforma para distribuição controlada de conteúdo audiovisual profissional em computadores e celulares. A pessoa não baixa o arquivo, ela tem o direito de assistir o filme ao longo de um determinado tempo, explicou Guilherme Coelho.

A criatividade sustenta a liderança econômica
Ana Carla Fonseca, economista da Garimpo de Soluções, trouxe um discurso mais estruturado e ajudou a plateia a perceber a pertinência da abordagem ao tema e a dimensão da oportunidade. Ana mostrou um estudo que revela como a Inglaterra se organizou, na última década do séc. XX, para se reposicionar no cenário de competição global dos próximos anos e elencou a economia criativa como uma das principais forças para sustentar a competitividade e a liderança das nações. Ana afirmou que cultura é investimento, não despesa.

Na França, a produção tem forte caráter autoral
Alain Rocca, produtor de cinema e autor de um estudo sobre a economia do curta-metragem na França, revelou que o setor se sustenta com base em dois pilares:

  • investimento de recursos institucionais, alocados por organismos governamentais ou para-governamentais para produção de curtas
  • investimento privado baseado no esforço das pessoas e empresas, que permite que este setor exista sem que a relação seja identificada sob uma ótica financeira e rentável.

 

Rocca alertou para um paradoxo que se apresenta ao pensar o desenvolvimento do curta. Os americanos dizem que os curtas são author driven, enquanto longas são market driven. Segundo Rocca, isso se aplica à França em relação aos curtas.

Para ampliar o acesso a recursos para a produção seria preciso aumentar a comercialização. Então, para isso, será preciso mexer nessa característica author driven. Mas, se essa característica for alterada, o financiamento básico poderá ser reduzido.

A questão não é se há futuro. E, sim, como aproveitá-lo.
O secretário do Audiovisual, Newton Cannito, exprimiu sua surpresa com a falta de debate público que as obras despertam nos últimos anos. Para ilustrar, ele lembrou de “O homem que virou suco”, filme de João Batista de Andrade realizado em 1981, que despertou interesse e causou grande impacto na sociedade na época. Para ele, a campanha de um filme é a repercussão que ele gera na sociedade, e não apenas a publicidade que o empurra. É uma visão que encontra eco na análise feita por Rocca para o setor, na França, na medida em que filmes feitos para o mercado, por sua natureza, atendem necessidades do público, não despertam questões na sociedade. Cannito afirmou que quer apoiar a distribuição. Segundo ele, o agregador de conteúdo, ou curador, é um papel crucial a ser desempenhado nessa cadeia.

Silvio Da-Rin, que após a saída da SAV/MinC assumiu a Gerência-Executiva de Articulação Internacional, Aquisições e Licenciamentos da TV Brasil, anunciou o lançamento, em breve, de edital de aquisição. A ideia é implantar uma política estruturada de valorização dos curtas, com chamada pública para licenciamento e posicionamento adequado na grade de programação.

O diretor da Ancine, Manoel Rangel, que reassumiu o cargo em 2009, afirmou com tom firme: “Essa é a mais relevante oportunidade para a produção audiovisual brasileira”. Rangel listou quatro fatores para justificar sua afirmação. A iminência da aprovação do Projeto de Lei 29, a lei que regulamenta a TV por assinatura, que em 3 anos vai gerar uma demanda de 1.300h/ano por canal de conteúdo brasileiro para ser atendido por produção independente. A estruturação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) que visa transformar o acesso de grande velocidade à Internet em um serviço básico de todo cidadão. O desenvolvimento da TV digital e a consolidação da Empresa Brasil de Comunicação.

“Para a comercialização do curta, a questão-chave é: quem é o agente”? Rangel afirmou que o setor precisa encarar com seriedade o desafio de se estruturar para atender à expansão da demanda que está em formação. E que o poder público tem um importante papel a desempenhar nesse cenário, criando as condições e oferecendo meios para que as coisas aconteçam. Mas alertou que quem faz as coisas acontecerem são, na verdade, os empreendedores.


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