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Sessão Curta o Curta de Março exibe curtas da MFL

Por Guilherme Whitaker em 06/03/2006 11:50



Curtas de Março 
Destaques da Mostra do Filme Livre 2006
Sexta, 10 de março - "Pontualmente" as 20:15h na Urca - Grátis
Ateliê da Imagem - Av. Pasteur 453 


Ao mesmo tempo que o Rio apodrece pela prolongada burrice/maldade de seus governantes, ao mesmo tempo em que o Brasil como um todo deixa de ser uma nação SOBERANA a cada dia, vendendo a preço de banana suas riquezas naturais e intelectuais, e quase nada investindo em tecnologia de ponta, para assim seguir eternamente a depender dos estrangeiros que também assim vão aos pocos influenciando as nações mais passivas e por isso fracas, neste mesmo tempo agorístico contemporâneo dos pré e pós socráticos, pré e pós 5 bilhões de humanos a juntos conviverem numa Terra cada vez mais sinistramente globalizada, neste tempo também sobrevivente à Hiroshima, um tempo mais antigo que qualquer linguagem, um século mil, existente também fora dos crânios, nas tantas pré e pós histórias que, bem eou mal, também somos pois o mesmo sol refletimos desde as cavernas, hoje muita coisa boa e útil e singular é feita, mesmo no mundo brasileiro, como as sessões de curtas na urca. Então que...

A primeira Sessão Curta o Curta do ano vai exibir 5 curtas
que foram destaque na Mostra do Filme Livre (MFL) 2006, que acaba de acabar no centro do Rio. Aliás, lembrando agora, nem chega a ser a primeira do ano pois na própria MFL rolou uma sessão Curta o Curta especial, mas enfins.... Esta será a primeira sessão na Urca, seguindo a rotina que fazemos desde 2004, ocupando o stúdio do Ateliê da Imagem, na Urca. Abaixo, ao lado da foto de cada filme da sessão, publicamos um texto da curadoria do evento sobre cada filme. Além destes serão exibidos curtas surpresa...

Boato: uma autodefinitude,de Grupo Boato | RJ | 1991 | 14 min
“Uma idéia na mão, uma câmera na cabeça”. A primeira imagem: uma manivela mântrica/macunaímica, um ideograma audiovisual: a mão produz o movimento do tempo que gira e assobia vibrando suave e contínuo o que não se decifra. “É favorável atravessar a grande água.”Um plano virgem da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sete homens nus emergem das profundezas das opacas pequenas ondas negras em contraluz. Sete sereios esguichando seu mel, espalhando música, penetrando nas veias da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um passeio com estes poetas - músicos, atores, inventores - que pescam o que encontram pelo caminho e brincam com a linguagem do cinema, transfigurando os signos e incorporando ao seu universo, sintetizando suas idéias estéticas em uma montagem caótica e cheia de harmonia. O Grupo Boato surgiu em 1989, formado por um grupo de estudantes que faziam performances nas universidades cariocas e espaços públicos, e mais tarde se transformou em uma das mais expressivas bandas do circuito alternativo carioca. Transitando entre/com a música, a poesia, a performance e as artes plásticas, em um dado momento surge a vontade de fazer cinema. Filmado em negativo 16mm vencido, com direção coletiva do grupo, Boato:Uma Autodefinitude estreou em agosto de 1991, numa mostra chamada “O Q Há de Novo no Rio”, neste mesmo Centro Cultural Banco do Brasil. Depois foi exibido no Festival de Brasília, São Paulo, na XIX Jornada de Cinema da Bahia, no IX Rio Cine Festival. Segundo os autores que estiveram presentes para apresentar o filme: “É um curta sem pretensão. No cinema é legal passar uma coisa sincera. Ainda mais em tempos de guerra”. Em uma carta lida, enviada pelo integrante Beto: “O Boato é cinema fornicando com a poesia, mulher infiel, graças a Deus!”. (Karen Akerman)

Cinemação Curta-metralha, de Sérgio Péo, RJ | 1978 | 12 min
Seguindo a linha guerrilheira de outro curta também indicado pela mostra (“Cinemas Fechados”), o veterano Sérgio Péo não mediu papas na língua e na câmera para compor a sua metralhadora de farpas, principalmente quanto a situação vigente de então (ano: 1978). E “Cinemação Curtametralha” trata exatamente do momento em que os curtas-metragens foram regularizados para serem exibidos antes dos longas estrangeiros. Mas o que foi uma aparente vitória (nitidamente celebrada no filme), esbarrou depois com uma série de entraves. Afinal, tudo era mais complicado para o cinema de invenção: se nos longas as pessoas se digladiavam pelas verbas na Embrafilme ou faziam pornochanchadas popularescas, os curtas passaram a serem feitos nas coxas para cumprir a obrigação governamental, conseqüentemente sendo odiados pela população. Estas não eram as metas de Sérgio, o que pode ser visto aqui: uma tentativa de pôr a cara do povo na tela e de botar o bloco na rua, usando a voz off, imagens carnavalescas e a música de Ney Mattogrosso. Apesar do assunto datado, “Curtametralha” continua gerando as mesmas questões caras a todos nós. Afinal ainda estão lá a eterna briga do cinema americano X cinema nacional (de quase qualquer país), a falta de espaço para a exibição de curtas-metragens e a defesa deste formato como espaço privilegiado para o antihollywoodianismo. Péo era, em plena ditadura, um batalhador pelo cinema independente, proposta bastante relevante por esta Mostra. Como os tempos mudaram, ver sua obra se torna fundamental. (Christian KZL)

Landscape Theory, de Roberto Bellini, MG, 2005, 5min
De repente um risco cruza lentamente a tela. É o céu sendo manchado pela tecnologia kilometrica. Certa vez você foi num lugar onde acontecia algo singular: todos os dias milhares de formigas de um buraco no meio da rua ao meio-dia e faziam um mesmo caminho até um poste e, nele, desapareciam debaixo da Terra. Você então pega sua câmera de vídeo para registrar este inusitado acontecimento. Você tranqüilamente espera, será que elas virão hoje? Enquanto isso, o céu alimenta as inspirações. Surge então o risco e, junto com ele, o segurança de um prédio. Em off, vocês dialogam sem nunca aparecerem. Você segue filmando e grava o papo ali batido, que depois na edição serviu como pano de fundo das imagens que se seguem e que, paradoxalmente, compõem essa teoria sobre a absurda paranóia relativa à “questão de segurança” no mundo norte-americano e, como não, sul-americano e mundial... O segurança avisa que é muito perigoso filmar ali, que a polícia já prendeu vários e que pode chegar a qualquer momento... Mas surgem as formigas e são mesmo muitas... (Guilherme Whitaker)

Nada com Ninguém, de Marcos Pimentel, MG | 2003 | 14 min
Um homem velho, Dionísio, vive com seu filho Benito (considerado pelos moradores do vilarejo mais próximo “um garoto selvagem”) numa casa de montanha. A última vez que Dionísio recebeu uma visita foi há cinco anos, de um amigo que sempre o vem visitar. Marcos Pimentel, então estudante de documentário da EICTV, de Cuba, tinha que fazer sozinho, como exercício, um documentário sobre um único personagem. Viajou para a região de Sierra Maestra, lugar de origem da Revolução Cubana. Chegando lá resolveu se embrenhar pelas florestas, seduzido pelas lendas sobre Benito, mas o encontro se deu mesmo foi com seu pai, Dionísio.Logo na abertura do filme a frase sobre tela preta - “sou de poucas palavras, o silêncio é um exercício diário de minha personalidade, foi o que me levou até Dionísio” – aproxima o espectador da experiência vivida pelo realizador, no caso, desde o princípio, um personagem do filme. Antes de vermos quem é Dionísio, Pimentel já se apresenta, já se coloca, já está ali, vivendo a experiência junto com seu personagem, escolhido exatamente pela identificação com um aspecto de sua personalidade. Neste sentido, o documentário é o diário filmado por Pimentel em sua passagem pela vida de Dionísio. Sua contemplação, sua aproximação gradativa, os longos momentos de silêncio, acompanhados por frases de reflexão do diretor/personagem. Com imagens que parecem pinturas (influência do pintor holandês Veermer), uma decupagem rigorosa que não se preocupa apenas com o belo enquadramento, mas se coloca o tempo todo como o próprio corpo do observador, e uma montagem análoga a métrica de um poema, Nada com Ninguém é, segundo palavras do próprio diretor, “uma fábula, um conto de fadas”. (Karen Akerman)

A sentinela, de Michelle de Paula, BA | 2005 | 22 min
Aconteceu algo peculiar nesta Mostra: houve um boom de inscrições de curtas sobre presídio. Vários deles muito bons e tratavam de forma coerente este assunto tão complexo, mas poucos se encaixaram no perfil da MFL. Como então tratar o assunto “prisão” de forma “livre”? Até que ponto fazer isto não seria uma contradição? A baiana Michelle de Paula manteve o equilíbrio entre documentário-denúncia e a invenção. Começando com um longo e provocador plano-seqüência de uma câmera de vigilância ao centro da tela, numa clara referência ao panóptico pesquisado por Michel Foucault, o filme dá o seu cartão de visitas. Logo após, fica nítida a inumanidade de uma situação imposta: a câmera (da realizadora) registra apenas objetos, lugares vazios, planos-detalhes de goteiras, etc, sem mostrar uma pessoa, tendo como base o depoimento (assustador) de uma detenta adolescente. Ela narra o seu cotidiano por lá, os códigos de sobrevivência aos quais tem de passar e sua vida pregressa. Ou seja: áudio + visual se encaixam produzindo um discurso vigoroso. Outro ponto a ser ressaltado é a beleza crua das imagens, que aproximam o filme da videoarte, mas que ganha aqui um caráter muito além da abstração, coisa rara de se ver neste tipo de trabalho. (Christian KZL)

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