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Sobre filme, olhar e liberdade

Por Guilherme Whitaker em 03/04/2009 17:46


Sou calouro dentro da curadoria da MFL. Trabalho com as mesmas queridas pessoas há seis anos, mas anteriormente me detinha à produção dos panoramas e do seu processo de inscrições. Desde sempre, ao comentar sobre a existência da mostra, os ouvintes atentos têm o costume de imediatamente perguntar: “O que é um filme livre?”. No lugar de ter uma resposta pronta e que fecharia a questão, indico a estes que leiam os diversos textos espalhados pelos oito catálogos anteriores a este e que possuem idéias diversas sobre esta definição.

Não se trata de atribuir o rótulo de liberdade a algo preso e prévio ao filme, ou seja, a um ideal pseudo-vanguardista dado pelos meus gostos. Acho que minha análise crítica e meu martelo batido a favor da exibição de tal obra audiovisual devem partir da obra que acabei de apreciar. Caso esta seja positiva, caso julgue o filme “bom” e sua exibição importante e suscitadora de um mínimo debate por parte de outros espectadores, logo posso concluir que tal filme “é livre”. Parece algo simples até demais, mas é desta forma que consigo funcionar. Outra característica que parece constante à boa parte dos “filmes bons, logo livres” que vi durante a mostra é a própria abertura de suas estruturas. Da mesma forma como me agradam as obras que não são facilmente encaixadas em modelos estanques de análise e crítica, dou especial valor àquelas imagens em movimento que não trancam a interpretação do público.

Lembro de Marcel Duchamp e do dito “coeficiente artístico”, a necessidade da participação ativa (intelectual mesmo) daquele que aprecia uma obra de arte. O artista francês colocava-se contra a arte “meramente retiniana” e julgava essencial, por exemplo, a cultura artística do Renascimento e suas formas capazes de fazer com que um historiador da arte como Erwin Panofsky sugerisse formas específicas de análise (a iconologia) para seu montante de alegorias e significados possíveis. Àquilo que Panofsky constatou, ou seja, a necessidade de uma participação hiperativa por parte do público da época e dos estudiosos contemporâneos a nós durante a leitura destas imagens, igualmente dei valor positivo quando me deparava com obras que deixavam clara sua ausência de certezas seja em sua visualidade, seja em seus depoimentos, seja em seus personagens, seja mesmo, e principalmente, nas habituais mini-certezas de um espectador ou de um curador já cansado e com possíveis olhos e opiniões viciados.

Se a liberdade fílmica não está na forma audiovisual, nada mais justo que minhas apreciações, as de Chico Serra, Christian Caselli e Guilherme Whitaker não sejam coincidentes, proporcionando este variado leque de opções artísticas, compromissos e resultados finais. Retornando ao começo de minha argumentação, em vez de dar qualquer tipo de resposta curta e simples (ou prolixa e pretensiosa) ao tópico “O que é um filme livre?”, parece-me mais justo convidar aquele que pergunta a vivenciar algumas sessões de nosso festival e incentivá-lo ao seu próprio responder. Como contrapartida, obviamente, o melhor que posso fazer é ouvir suas opiniões, da mesma forma como ele lê este texto, e dialogar. Construir em conjunto nossos conhecimentos, mesmo que estes apontem para lados de oposição extrema. Aprender a “viver juntos” (como uma Bienal de São Paulo já disse) e respeitar as diferenças. As imagens ali estão e, como o projeto gráfico deste ano indica, a atribuição de um significante e significado a estas está dentro de cada um. Talvez soe cafona e com toques de um humanismo difícil de ser imaginado (resgatado?) na sociedade e nas relações humanas que tecemos atualmente, mas para fruirmos “filmes livres” precisamos ter olhos igualmente livres.

Raphael Fonseca


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