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Tela Livre: Imagem e Cidadania no Fórum Social Mundial

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:45


 

Tela Livre: Imagem e Cidadania no Fórum Social Mundial
Autor: Francisco Serra


O Instituto de Imagem e Cidadania do Rio de Janeiro foi ao 2 Fórum Social Mundial para mostrar que uma outra imagem é possível. O IMAC, sediado no Sobrado Cultural, em Vila Isabel, com apoio do SEPE, Sindicato de Professores - RJ, levou para Porto Alegre , junto com uma equipe de educadores e estudantes de cinema, um projeto que desenvolve desde outubro de 2001, o Tela Livre.

O enfoque do Tela Livre é exibir e discutir filmes e vídeos de curta-metragem , produzidos de forma alternativa, por estudantes e cineastas estreantes, a fim de articular novas formas de criação e produção de imagens que diferenciem das apresentadas nos grandes veículos de comunicação e nas grandes salas de exibição, tratando portanto de temas não-comerciais, geralmente esquecidos pela mídia em geral.

Sem fazer parte da programação oficial do Fórum Social, chegamos em Porto Alegre com uma tela, um projetor 16mm e alguns filmes e fomos buscar nosso espaço. No Acampamento da Juventude, provavelmente o maior Acampamento Intercontinental d´América Latina, reunindo movimentos estudantis, grupos e partidos políticos, anarquistas, punks, etc. encontramos o público e os meios possíveis para divulgarmos nossas idéias. Anunciada na Rádio Comunitária do Acampamento, A Rádio Muda, de Campinas, o Tela Livre teve sua primeira exibição no dia dois de fevereiro, para um público de cerca de 50 pessoas. Ao final da exibição de Impresso à Bala, O Comustível do Futuro (ambos produzidos pelo Curso de Cinema da UFF) , mais A Velha A Fiar, clássico do cinema popular de Humberto Mauro e a animação Caninabis, falamos sobre a proposta do Tela Livre e sobre os temas apresentados, como o sensacionalismo da mídia em geral no que se refere a violência nos centros urbanos, as drogas como instrumento de corrupção, entre outros. Mas era só o começo. Fomos convidados pela Coordenação de cultura do Acampamento para realizarmos uma atividade na FEBEM, de Porto Alegre, para 30 jovens internos. A discussão se ampliava, com novos questionamentos e experiências apresentadas pelos jovens, alguns deles ligados a arte (música e literatura), e aproveitamos para falar brevemente do processo de produção audiovisual nos meios alternativos, além de diferenciar nossa produção, independente, das imagens mostradas nos veículos oficiais de comunicação.

A terceira apresentação do Tela Livre, no dia 4 de fevereiro, ocorreu num Acampamento do MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, numa ocupação dentro de uma área pública federal, com presença de crianças e adultos do movimento. Nesse caso apresentamos o curta Epílogo, de Marcio Blanco (UFF), que esteve presente e falou de seu trabalho e da luta do cinema independente e universitário. Fazendo uma analogia, afirmou que “da mesma forma que vocês (MST) lutam por terra, nós, estudantes e realizadores independentes, lutamos por tela, para exibirmos nossos filmes”. Daí surgiu uma importante discussão política sobre cinema nacional. “Com o Tela Livre pretendemos mostrar o que não é mostrado, visto que os cinemas de rua foram substituídos pelos cinemas dos shoppings, e os cinemas de arte, assim como nos shoppings, custam muito caro. E com raras exceções, nenhuma destas salas exibem filmes brasileiros independentes, de baixo orçamento”, afirmou Claudio Paolino, coordenador do Tela Livre. E surge mais uma questão: “Mas afinal quanto custa um filme de curta-metragem?” perguntou um jovem do MST. Explicamos que nós, estudantes e cineastas estreantes, produzimos com os meios possíveis e recursos escassos, ao contrário das grandes produtoras nacionais e estrangeiras. Expliquei que procuramos produzir e exibir uma outra imagem: “nós não somos obrigados a assistir a filmes que não dizem respeito a nossa realidade, como os milionários filmes norte-americanos, que de maneira geral só apresentam uma estética da violência, estimulando a brutalidade social e racial, e insuflando os desinformados que suas guerras pelo mundo afora são uma atitude correta, justa, indiscutível, para o bem da democracia e do livre comércio”. Outros questionamentos surgiram: “Por quê não assistimos mais a filmes de curta-metragem, por quê não exibem mais esses filmes?”, perguntou outro jovem. Esta dúvida é o motivo da existência do Tela Livre, pensei, agora, escrevendo esse texto. Ao final da discussão, exibimos A Velha a Fiar, que trata de uma canção popular e que logo nos primeiros planos nos mostra a relação do homem com a terra, com a natureza, provocando uma relação imediata com o MST.

Além das apresentações do Tela Livre, documentamos a diversidade étnica/sócio-cultural do Fórum: Manifestações contra a Alca e Panelaços, o agricultor e anti-militarista francês José Bové, MST, Augusto Boal e o Teatro do Oprimido , teatro de rua, grupos musicais e de dança, shows, movimentos sociais em movimento...O Fórum Mundial do Audiovisual , realizado nos dias 3 e 4 de fevereiro na PUC - RS , com presença de cineastas e produtores culturais brasileiros e estrangeiros, como Fernando Solanas, Paulo Cesar Saraceni, João Batista de Andrade, Lucélia Santos, entre outros, apresentou propostas de ampliar a difusão do cinema brasileiro, da imagem brasileira, nas TVs, através de medidas protecionistas. Uma carta de intenções do Fórum Audiovisual incluía, a pedido da cineasta gaúcha Bia Werther , um espaço para o cinema experimental nos editais de produção de curta-metragem, a serem lançados no país. Só faltou uma discussão a nível prático, a nível local, como formas de articulação de rádios e tvs comunitárias, no sentido de ampliar a formação e difusão do cinema nacional, em ondas curtas, em localidades distantes dos grandes centros culturais / econômicos. Exigir uma postura do Governo em relação ao cinema brasileiro é uma atitude necessária, mas viabilizar, de forma alternativa e independente, os meios de produção e exibição foi uma prática muito pouco discutida e realizada. Apesar de não participarmos de todas as discussões do Fórum Audiovisual , acreditamos que nós, cineastas, estudantes de cinema e educadores ligados ao IMAC e ao SEPE atuamos nesse sentido prático, desenvolvendo uma atividade de caráter político, cultural e social, mostrando filmes diferentes, novos e antigos, tecnicamente pobre, mas de conteúdo riquíssimo, filmes independentes e de contestação, que levamos à tela não como simples entretenimento, mas como forma de resistência cultural.


Francisco Serra é estudante de cinema, projecionista, roteirista e diretor dos curtas "Superoyto", "Severino da Silva" e "Psico Brasilis" (em produção). E-mail: chicoserra@zipmail.com.br.


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