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Telephone Colorido

Por Guilherme Whitaker em 08/01/2002 15:07


Telephone Colorido, antigo Moluscos Lama, é um grupo de fazedores de imagens. Há alguns meses no Rio, onde ´Resgate Cultural` ganhou o prêmio ABD&C-RJ de melhor filme no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, volta e meia são vistos pela cidade a produzir imagens dos mais variados tipos, como o recente vídeo ´Mongos`, que alterou o arenoso piso de Ipanema para depois balançar as estruturas da mostra Surrealista em pleno Centro Cultural Banco do Brasil, tudo, é claro, com muito humor, absurdo e suor. Confira aqui, nesta entrevista à Karen Akerman, publicada no zine O Incinerasta de setembro, um pouco destes perambulantes seres e suas ações mirabolantes.

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CC - Como surgiu o Telephone Colorido? 
TC - Moluscos Lama é a biografia da galera. Telephone Colorido é mais institucional, né? Foi em 96, na gravação de música imperfeita, não, não, mas naquela época ainda num era, era a Gemini Produções. Telephone Colorido surgiu no momento que você deu o nome. Foi exatamente 96. Todo mundo morava
numa casa nos Milagres, todo mundo junto, muita gente. Eram 3 casas conjugadas, e todo mundo era artista plástico. Tem muita reportagem sobre esta época, principalmente no Jornal da Província do Recife, a gente saiu até do Caderno Cultural do jornal pra ir pro Caderno Policial, muitas drogas e tal, e foi um repórter policial e botou pra fuder. E a reportagem era a seguinte: "E eles ficam alegres quando aparece ácido para vender". Como se a gente vendesse ácido! Foi muito doido, a gente mandou uma carta pro jornal, foi uma briga de foice: Jornal X Moluscos Lama. E tem também o nosso braço musical, a banda Pajé Limpeza, que faz a trilha de nossos filmes. Teve também um disco que a gente fez. A gente foi num show do Manu Chao e gravou e a banda tocava paralelamente, foi a primeira vez, quer dizer, num sei se foi a primeira vez, mas olha o que aconteceu: duas bandas tocando simultaneamente, no mesmo local, no mesmo ambiente, sons diferentes, foi um negócio muito louco, Pajé Limpeza e Manu Chao. Aí, no outro dia a gente tava com as duas fitas no bolso, tava tomando uma pinga em Olinda, aí passou Manu Chao, aí eu fui lá e disse: Essas duas fitas são de teu show de ontem, a gente vai lançar um CD que é Pajé Limpeza com Manu Chao, e é aquela banda ali, apontei o pessoal que tava na mesa do bar. Aí ele fez: Bom negócio! Bom negócio! E o nome do CD é esse: Pajé Limpeza com Manu Chao: Bom negócio! E foi o que mais vendeu.

CC - E o Moluscos Lama, seria a base para as outras manifestações? 
TC - Era no começo, quando a gente fez a primeira performance na inauguração do Museu de Arte Moderna Aluizio Magalhães (MAMAM). A gente invadiu com uma Santa Gigante que eu (Lourival) tinha feito, e foi descendo as escadas dizendo: Abaixo Mauricio Silva, abaixo João Câmara, abaixo todas as instituições, abaixo Moluscos Lama que nem era ainda Instituição, mas queria ser, aí agente quebrou a Santa na frente do MAMAM, e destruiu e queimou, filmando, e isso causou uma polêmica, porque tudo lá é muito careta. Depois disso rolou uma exposição de Basquiat, e a gente fez uma intervenção. Fernando ficou nu, eu (Lourival) pintei a rua da Aurora, desviei o trânsito, roubei uns cavaletes do Detran, e pintei um cifrão no meio da rua, depois o trânsito voltou ao normal e os carros passavam em cima do cifrão. E o povo achou que como eu tinha uns cavaletes do Detran a coisa era toda Institucional, e todo mundo aplaudiu, e foram até perguntar pro curador da mostra e ele disse: É isso aí, claro.Mas o curador de Basquiat, o dono de Basquiat, veio e falou que a gente não podia intervir tanto assim; tinha um quadro dentro de um vidro escrito OXEN com um bando de vaca e eu botei um adesivo TE e ficou OXENTE, mas eu botei no vidro, eu não botei no quadro, e os seguranças lá nos ameaçaram: Você escreveu no quadro! - OXENTE!, acabou que chamaram-nos pra conversar: A gente faz uma exposição, fica meses trabalhando nela, muita gente envolvida, aí vocês vem aqui e chamam mais atenção! (gargalhadas); e eles então disseram que se a gente quer fazer alguma coisa que a gente peça apoio institucional, que eles dão apoio, material, dá tudo. Aí o que rolou é que a gente queria uma exposição no MAMAM, fomos direto no assunto e o cara ficou: É? É? Bom nós temos que ver
qualidade do trabalho e tudo e a gente já respondeu que nosso trabalho é do caralho, muito bom, os quadros, tudo que a gente faz é muito bom; aí pronto. Pra ele dar uma resposta social botou no Lorismar Rodrigues (um colunista social de Pernambuco): "Moluscos Lama no MAMAM". Marcos Lontra que é um dos curadores do museu veio com a conversa: Eu já produzi toda geração 80, aqueles artistas todos do Rio de Janeiro, eu sei muito bem, o povo fumava mas hoje em dia eu tô aqui no MAMAM, vocês tem que entender, mas tudo bem, vamos fazer uma exposição aqui. Então Marcos Lontra convidou os garotos do Moluscos Lama para expor no MAMAM, só que ele avisou que eles têm que não detonar nenhuma obra, porque eles vão fazer a exposição paralela a de Picasso. E a gente fez um vídeo sobre a exposição que é o "Grandes Gênios da Pintura", que é um vídeo sobre nós mesmos de quase uma hora, esse vídeo é do caralho, pra quem tá interessado na nossa biografia tem que assistir esse trabalho.

CC - Quantas pessoas fazem parte do complexo Telephone Colorido-Molusco Lama-Pajé Limpeza? 
TC - 10, 20, 45, 8, às vezes um.

CC - Como vocês fazem pra criar todo mundo junto? 
TC - É muito maneiro. E fantástico. Já foi discutido o roteiro das próximas cenas de A Loura o Chopp e Ipanema (filme que está sendo rodado no rio de janeiro) aqui, agora mesmo nesse bar.

CC - E em termos de dinâmica de grupo, quando vocês tão em plena performance quem chega junto ao fotógrafo e dá as orientações? 
TC - Pronto, é exatamente isso, Maria Pessoa, digamos, ela foi a direção de fotografia (em Resgate Cultural), aí tinha a cena de Anderson que era a cena do Sai Baba e eu(Lourival) fiquei dizendo pra ela como tinha que ser; aí na cena do Ariano negro já foi diferente, ela foi sentindo mesmo quem tava mais envolvido com a cena aí ela sugava bem, espontaneamente. Mas cada caso é um caso, no Resgate foi assim, foi o primeiro em película, mas não é necessariamente assim toda vez.

CC - Falem um pouco sobre o Resgate Cultural (curta realizado em 16mm). 
TC - O Resgate é o supra-sumo do poder. Veja bem, o Resgate foi uma super-produção, tá entendendo? Foi rodado em película e vídeo e depois passamos tudo pra 16mm. A grana veio dos 2 prêmios que a gente ganhou. Destruindo Monolito ganhou prêmio de melhor vídeo experimental e ZAP, um vídeo clip que ganhou prêmio também. E aí a gente ía dividir essa grana entre quem? 60 pessoas? 15? 23? Só que o Resgate custou o dobro dos prêmios, e todo mundo juntou o que faltava. Foi um grande empenho. O Resgate Cultural é a parte política da estória. É uma coisa sobre valores culturais, acabou sendo o que era mesmo na verdade. O filme é muito experimental, mesmo esse negócio de serem mil pessoas dirigindo, mil trechos de roteiros na hora, como diz Grilo, Jazz mesmo, é a melhor definição, bem improviso. Em vídeo é muito mais simples, a principal dificuldade do Resgate foi essa, porque a gente não sabia operar os mecanismos registradores da lombra, que era câmera e edição, mas Karen Barros se anexou total na montagem e na câmera foi Altair e Maria Pessoa.

CC - Os filmes de vocês não passam a idéia de serem filmes sem direção, ao mesmo tempo, não tem uma direção centralizadora, que é o mais comum, então rola uma dinâmica específica do grupo. 
TC - É, específica espontânea mesmo. Desde 94 todos moram meio juntos, aí nisso rolam altas lombras que, por exemplo se eu dublar e disser alguma coisa num filme só quem vai entender somos nós mesmos, muito por causa da convivência mesmo, o dia a dia. Mas tá limpeza, alguma coisa chega no público.

CC - Fale um pouco da interferência de Mongos no CCBB, na Mostra Surrealista.
TC - É o seguinte, teve um protesto hoje, do Mongos, no CCBB, que num foi careta não. Foi um protesto contra o sistema monetário internacional. Mongos entrou lá, uarghhhhh, szruaaahaam, os seguranças chegaram, barraram a câmera dentro do local, mas enfim, Assistente de Mongos foi lá, chamou o organizador geral e perguntou: ô rapá, barrado dentro do surrealismo, que porra é essa? um lombrô e o outro noiô. Aí foi o equilíbrio.Mas o que noiô foi muito legal. Aí ele mandou 2 seguranças ficarem de olho em nós (Lorival interrompe Ernesto, que estava incorporando Mongos) :2 não rapaz, tu tava dentro do saco, tinha uns vinte seguranças (Ernesto volta a falar):Isso que é bom de Mongos, que o cara não vê nada lá dentro, vai só intuindo, o camarada quase num respira, e ainda tava meio molhado do episódio do afogamento do Posto 9, que Mongos se afogou e mandaram helicóptero capturá-lo. O tal do Mongos, num foi careta não. Aí atacamos lá, num sei, que tava Mongos e o Assistente de Mongos, à princípio barraram, disseram que aquele cachimbo lá valia milhões (Lourival) Até que um dos seguranças disse assim: Mas isso faz parte da Mostra Surrealista? Aí o segurança que tava perto da gente disse: Faz não, e eu digo: Faz! E ele: Mas num é oficial, e então eu respondi, mas ninguém era, nenhum surrealismo é oficial; tem aquele lance, o camarada ser barrado na Disneylandia porque tá chamando mais atenção do que o Mickey, o Pepeu (Gomes), num é? O segurança falou :Tão querendo chamar mais atenção do que o negócio aí!, e aí Mongos incorporou, começou a chamar toda a atenção lá em baixo uahhhhhhhhh, calma Mongos!, e a galera oficial de lá, os atores da performance, eles num queriam interagir. Mongos gritava - Surreal! Surreaauuullll! E o Assistente de Mongos - Pós
Moderno! Pós Moderno! (Assistente de Mongos é um homem de capa preta e máscara de biólogo).

CC - Falem um pouco de vocês como grupo de cinema. 
TC - Nós não somos cineastas, estudiosos e tal, se você quer saber eu (Abel) não sei a diferença de 16 pra 35. Cinema é muito bom, porque é um registro da coisa que tá acontecendo. Quando Ernesto resolveu pular do Posto Nove (incorporando Mongos), por exemplo, ele resolveu que iria e a câmera acompanhou o movimento dele e registrou. Neste caso a direção daquela cena é dele, enquanto ele tá fazendo. A mesma coisa quando Lourival resolve ir se afogar de Mongos no mar e o helicóptero vem capturar. A câmera simplesmente fica ali, registrando tudo. O legal do cinema é que provocou uma mídia muito positiva pra todo mundo, a gente viajou muito com o filme e as viagens proporcionaram outras idéias e outros filmes, e outros contatos, como com
vocês. Esse negócio de você não saber a mídia cinematográfica possível é bom porque te dá uma resposta. Muita gente tem achado tão legal esta estética da improvisação, que no domingo quando a gente tava filmando na praia tava todo mundo dando idéia e todo mundo feliz, sem aquele negócio da egotrip e da egolombra. Mas tem também um produto que é a montagem, que em nosso caso é um método de trabalho que muita gente não acredita como pode dar certo. Mas esse método vai sendo cada vez mais assimilado. É importante dizer que as coisas que a gente tá falando aqui talvez os outros que tão lá em Pernambuco falariam diferente. Aqui tamos Lourival, Abel, Ernesto e Petrônio, que agora saiu pra se beijar, mas também falou um pouquinho.

CC - E quem ficou por lá? 
TC - Juliana, Lia, Grilo, Raoni, Ricardo, Burito, Fernando Peres e, sei lá se eu tiver esquecendo de alguém, devo tá.

CC - Quais são as fontes de inspiração pros filmes de vocês? 
TC - Nossa inspiração pra fazer cinema veio muito da nossa experiência de fazer vídeo.Temos o roteiro-princípio que vai se transformando com as intervenções de quem entrar na lombra, enquanto que em outra situação, numa situação mais careta, as pessoas quase não podem dar opinião, é tudo hierarquizado. Mas como a coisa é toda tão democrática, e sempre foi assim, rola uma anarquia da criação. Mas também tem os paus. Quando a gente tava montando o Resgate tinha uma cena que um queria que entrasse e todos os
outros achavam que não. E não rolou. Mas existe atrito, principalmente na montagem. A gente brinca de editar, todo mundo junto, mas chega uma hora que dá porrada mesmo. Nem tudo é tão romântico assim, é normal. Todo mundo é gente, e ego, é todo mundo muito egolombrado, eu(Lourival) me acho muito bom mesmo. E vou discutir se tenho certeza de algo. Mas como existe já uma confiança forte dentro do grupo esses paus se resolvem e o produto final fica bom e todo mundo satisfeito.

CC - Como vocês vêem a produção de cinema nacional? 
TC - Eu nem vejo (Lourival). Eu vejo muito filme de Hollywood. Eu tenho uma idéia muito melhor dos filmes de 007 e Missão Impossível do que dos filmes brasileiros. Eu gosto de filmes de ação. Nova York Sitiada, que agora vai virar cult, esses filmes assim, Moulin Rouge, com certeza eu tenho muito mais contato com esse tipo de filme. Baile Perfumado, por exemplo, é um filme legal, mas também muito fácil de ter feito. Com todos aqueles aparatos. mas eu gosto do filme. Ele tem um lance autoral, de filmar Lampião e o cara que filmou Lampião. Mas eu tenho certeza que vai vir aí um filme legal de Cláudio Assis, Amarelo Manga. Esse cara é bom, bem autoral. O filme dele Texas Hotel, inclusive teve uma festa em Recife desse filme e Abel virou pra ele e disse: De autoral em Recife só tem dois: nós e tu. Só que nós somos uma merda e tu é quase bom, e aí ele ficou puto. Abel fez o maior elogio que podia fazer a alguém e o cara ainda fica puto. Deu porrada. Máquina de escrever na cabeça e tudo.

CC - Onde vocês mostram os filmes de vocês? 
TC - Na hora que tem a gente vai. Resgate foi pra São Paulo, Festival Universitário do Rio de Janeiro, São Luiz. O Zé Roberto passou em Gramado, ganhou prêmio de vídeo. A gente fez a Mostra Monstra lá em Recife e botou vários trabalhos nossos, um juntinho do outro. E vamos fundar a TV Comunitária de Recife. Nós vamos dominar essa TV.

CC - Ao se fazer filmes exerce-se um poder. Como vocês acham que isso mexe com a cabeça das pessoas? Qual o poder da imagem pra vocês? Vocês tem um objetivo ou é puramente intuitivo? Simplificando esse bando de perguntas: Vocês sabem o que estão fazendo ou não tem nem idéia?
TC - Eu acho que a gente sabe. (risos) (berros). Ao filmar hoje, por exemplo, o atentado dos Estados Unidos e botar em Mongos a gente sabe o potencial de um filme assim. É muito mongolóide, mas a gente sabe o que isso quer dizer. Se um de nós lombra numa coisa e sugere que se filme, a gente sabe que se incluir isso de uma determinada maneira no projeto que está sendo feito no momento, maior ou menor, um vídeo ou filme, vai ser legal. Nunca é gratuito, existe uma empatia, uma noção da estória. Nós somos os patinhos feios de Recife. A aceitação em Recife é zero. Muitas coisas muito loucas desde 94, e a galera continua junto fazendo. Isso não é a toa, né? Esse negócio de artes plásticas e tal, e por acaso surgiu a película. Daqui a pouco todo mundo vai enjoar de cinema e vai começar a dar o cu por aí. (gargalhadas loucas), que pode ser uma coisa completamente abortada quando a gente chegar no Recife. Tem isso também. As imagens que a gente filmou no Rio, pode não rolar nada com elas, aí vai ser foda. Pode nunca mais rolar nada, a partir disso. Mas a gente sempre vai instigar pra que role.


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