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Termina o 4ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto

Por Guilherme Whitaker em 24/06/2009 16:12


CINEOP ENCERRA SUA 4ª EDIÇÃO COMO PRINCIPAL FÓRUM DE DISCUSSÃO E EXIBIÇÃO DO PATRIMÔNIO CINEMATOGRÁFICO BRASILEIRO

Ano da França no Brasil, a década de 70 e as ações e discussões da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual foram os principais destaques desta edição, que reuniu mais de 20 mil pessoas na histórica cidade mineira

Terminou nesta terça-feira a 4ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto. Exibiu 71 filmes - entre longas, médias e curtas digitais e em película- em 31 sessões distribuídas em três diferentes espaços da cidade, que atraiu mais de 20 mil pessoas ao longo de seus seis dias de programação. O sucesso e as estratégias do cinema brasileiro dos anos 70 - e, mais particularmente, a participação e representação da mulher na produção desse período - foram tema de exibições e debates nesta edição, enquanto na  temática preservação a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual deu continuidade às suas atividades, através da realização da segunda Assembléia Geral, da eleição de sua Comissão Executiva e da promoção de diversos debates e seminários.

Criada na 3ª edição da CineOP, a ABPA reuniu nesta edição 74 representantes de 47 arquivos, que elegeram sua Comissão Executiva. Tendo a frente como coordenador o professor da UFF-RJ, Rafael de Luna Freire, a Comissão é composta por Fernanda Elisa Costa P. Resende, pesquisadora da UCG-GO; Beatriz Kushnir, diretora-geral da AGCRJ-RJ; Yuri Queiroz Gomes, técnico da ANCINE-DF; Ronaldo dos Anjos, técnico do MIS-SC; João de Lima Gomes, professor da UFPB-PB; e Alexandre Pimenta Marques, coordenador do acervo do CRAv-MG.

Os integrantes da ABPA e participantes do 4º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros divulgaram ainda, ao final da CineOP, a Carta de Ouro Preto 2009, com uma série de demandas e considerações a respeito do atual estado do patrimônio audiovisual brasileiro e da atuação da Associação junto aos órgãos públicos e sociedade civil, dando prioridade especial às situações delicadas pelas  quais passam a Cinemateca Capitólio, do Rio Grande do Sul, e o CRAv - Centro de Referência Audiovisual, de Minas Gerais.

A programação de debates e seminários da temática preservação também foi intensa, com mesas dedicadas à discussão dos impactos e influências da era digital no complexo sistema de preservação e restauro no audiovisual, os caminhos para conferir à sétima arte o devido valor de patrimônio, a catalogação, digitalização e preservação de acervos em TVs privadas e públicas, entre outros, e contou com representantes de importantes acervos e instituições, como o Ministério da Cultura, o CTAV - Centro Técnico Audiovisual, a Cinemateca Brasileira, o Arquivo Nacional e a Fundação Padre Anchieta.

Um dos principais destaques da programação, foi a presença de convidados franceses no Seminário, como parte das celebrações do Ano da França no Brasil. Foram apresentados projetos e realizações dos Arquivos Franceses do Filme (AFF), departamento do Centro Nacional de Cinematografia (CNC) da França, e da Cinemateca Francesa, representada por Camille BLOT-WELLENS, Diretora de Coleções de Filmes da instituição, com uma apresentação bastante importante e que, muitas vezes, ia na contramão do que está se tornando senso comum no Brasil, quando afirmou que "o digital não é uma meio de preservação, mas sim de pós-produção e difusão, primeiro porque a qualidade da imagem digitalizada não é comparável à do filme em película e depois porque a tecnologia torna-se obsoleta muito rapidamente e um filme digitalizado hoje pode estar fora dos  padrões mínimos de qualidade em poucos anos".

"A Cineop é um instrumento de integração da cadeia produtiva do audiovisual. Coloca novos paradigmas em debate, olha a história a partir do contemporâneo e dá sua contribuição na formação, reflexão e construção do plano nacional de preservação. A cada edição, a Mostra registra resultados significativos que agregam valor de patrimônio à sétima arte", afirmou Raquel Hallak, coordenadora da CineOP.

A participação dos franceses na programação da 4ª CineOP foi responsável também por um dos momentos mais emocionantes da mostra deste ano, com a apresentação em estréia nacional do cine-concerto Le Rendez-Vous du Sam'di Soir. O evento consistiu da exibição de três clássicos curta-metragens franceses - Sur un Air de Charleston (1926) e La Petite Marchande d'Allumettes (1928), de Jean Renoir, e Entr'acte (1924), de René Clair - com acompanhamento musical ao vivo por Marco Pereira das Neves, Celine Benezeth e Máxime Roman, em uma sessão que remeteu à tradição do cinema mudo do início do século XX e que já havia sido realizada com sucesso em diversas cidades francesas.

A apresentação do trio francês emocionou as mais de 600 pessoas que tomavam o Cine Vila Rica em todas as suas poltronas, corredores e escadas. Do humor de Sur un Air de Charleston à dramaticidade de La Petite Marchande d'Allumettes, passando pelo experimentalismo de avant-garde de Entr'acte, o público acompanhou as projeções com um silêncio religioso e ovacionou os músicos franceses, aplaudindo-os de pé a cada intervalo de projeção entre os três filmes.

Já na temática histórica, além da exibição de grandes sucessos de nossa cinematografia, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Dama do Lotação, Xica da Silva, A Ilha dos Prazeres Proibidos e Roberto Carlos a 300 km por hora, os dois principais pólos produtores da década de 70 - a Embrafilme e a Boca do Lixo - foram detalhadamente discutidas em debates com a presença de cineastas, produtores, críticos e atrizes com forte atuação no período.

Na mesa "Estratégias da Boca do Lixo", a atriz Neide Ribeiro, o crítico de cinema Inácio Araújo e os cineastas Guilherme de Almeida Prado e Carlos Reichenbach discutiram bastante o cinema popular da época, o que se perdeu de lá para cá e quais os possíveis caminhos para o cinema brasileiro se reaproximar desse grande público. Em linhas gerais, houve uma divergência que colocou Inácio Araújo e Guilherme de  lmeida Prado de um lado, afirmando que o cinema brasileiro necessita e precisa analisar e entender os atuais sucessos de público do que definiram na mesa como "Globochanchadas", e Carlos Reichenbach de outro, afirmando que "se um dia precisar de um filme feito para
espectadores de uma emissora de TV pra sobreviver, vai ser o fundo do poço". Já a mesa "A Conquista do Mercado" contou com a participação dos cineastas Roberto Farias, Neville d'Almeida, Geraldo Veloso e do produtor Luiz Carlos Barreto para discutir a produção da época de ouro da Embrafilme, responsável em grande parte pela conquista do mercado pelo filme brasileiro na década de 70, quando nossa produção chegou a dominar mais de 40% do mercado, cifra da qual nunca mais nos aproximamos.

O foco principal da discussão girou em torno das dificuldades de distribuição e difusão dos filmes brasileiros de hoje, em contraposição ao período fértil da Embrafilme, uma vez que era consenso entre os membros da mesa que o problema da produção, bem ou mal, estava resolvida. "Nós resolvemos o problema da produção e hoje são realizados mais de 60 títulos por ano, mas não se mexeu na distribuição ou na exibição. Não podemos mais produzir nossos grandes sucessos e entregá-los nas mãos de nossos inimigos, de nossos concorrentes", disse o cineasta Neville d'Almeida, referindo-se às parcerias com as majors norte-americanas na distribuição dos filmes brasileiros de sucesso.

Ainda dentro do conceito da edição deste ano, que era o da representação da mulher nessa produção da década de 70, a 4ª CineOP homenageou a atriz Zezé Motta, que além de estar presente na sessão de abertura, que foi exibido seu maior sucesso Xica da Silva, participou do debate "Mulheres dos Anos 70: O Poder do Corpo e Sobre o Corpo", que contou com a presença também do cineasta Cacá Diegues, da produtora Lucy Barreto e da atriz Zilda Mayo.

Já a programação contemporânea da mostra contou com sete longas e médias-metragens inéditos no circuito comercial, além de sete séries de curtas digitais e em película. "Na seleção deste ano, tivemos um pouco de tudo que move o documentário brasileiro atualmente: arte, História, espaços, índios e uma comunidade específica. São nossa arte e nossa História, pelas perspectivas individuais principalmente, mas sem abrir mão das conexões com o que está para além dos indivíduos", destacou Cléber Eduardo, responsável pela seleção de longas e médias da 4ª CineOP. Houve ainda a realização da tradicional Mostrinha, com nove sessões, entre longas e curtas, para toda a família, além do Cine-Escola, que levou alunos de 12 a 17 anos das escolas públicas e privadas da região de Ouro Preto para assistirem a dois longas-metragens: Houve uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, e Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet. E, ainda, sete oficinas culturais oferecidas gratuitamente durante a mostra, certificaram 200 estudantes. "A Mostra de Ouro Preto já é referência nacional e internacional em se tratando do cinema brasileiro. Já está plenamente consolidada e é importante para a cidade de Ouro Preto, que é uma cidade cinematográfica, onde muitos filmes foram rodados", constatou Ângelo Oswaldo, Prefeito de Ouro Preto.

As fotos de todos os eventos da mostra encontram-se no site oficial da mostra: www.cineop.com.br.

Informações para o público: (31) 3282.2366 - Universo Produção site oficial: www.cineop.com.br


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