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Tolerância, o fim da crítica e um viés do cinema brasileiro

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:58


 

Tolerância, o fim da crítica e um viés do cinema brasileiro
Autor: Marcelo Ikeda


"O denominador comum de todas as atividades relacionadas com o cinema é em nosso país a mediocridade. A indústria, as cinematecas, o comércio, os clubes de cinema, os laboratórios, a crítica, a legislação, os quadros técnicos e artísticos, o público e tudo o mais que eventualmente não esteja incluído nesta enumeração mas que se relacione com o cinema no Brasil, apresenta a marca cruel do subdesenvolvimento. Assim como as regiões mais pobres do país se definem imediatamente aos olhos do observador pelo aspecto físico do habitante e da paisagem, todos os que nos ocupamos de cinema no Brasil escapamos dificilmente a um processo de definhamento intelectual que mais cedo ou mais tarde acaba imprimindo características reconhecíveis à primeira vista."

Paulo Emílio Salles Gomes - Uma situação colonial - 18/11/1960

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A expectativa em torno do lançamento de Tolerância não poderia ser maior. Era o longa de estréia da Casa de Cinema, cultuada produtora gaúcha que, ao longo da década de 90, se notabilizara pela produção de curta-metragens exemplares. O grupo de seis sócios que fez deslanchar a produtora, especialmente a partir de 1991, formado por Giba Assis Brasil, Ana Luísa Azevedo, Luciana Tomasi, Carlos Gerbase, Nora Goulart e Jorge Furtado, já trabalhava junto desde a década de 80, produzindo curtas importantes como Barbosa, O dia em que Dorival encarou o guarda, e especialmente Ilha das Flores. Este último curta, produzido pelo grupo, é reconhecidamente um dos maiores marcos do curta-metragem brasileiro. Transgredindo os limites de um documentário convencional, usa a inquestionável lógica de forma irônica como motor de seu contundente discurso contra a desigualdade de um Brasil ocultado por muitos. Além disso, o grupo conseguiu desenvolver trabalhos inteligentes mesmo no limitador processo criativo da televisão. Destaca-se, além da contribuição em roteiros de minisséries como O Memorial de Maria Moura e Engraçadinha, o belo Luna Caliente.

Se o principal nome da produtora é o de Jorge Furtado, pela consagração de curtas e pelo trabalho na televisão, deve-se ressaltar a importância do trabalho coletivo, já que os membros do grupo participam juntos de vários projetos. Carlos Gerbase é um nome de destaque no grupo, especialmente com a repercussão de seu curta Deus ex Machina, em que o humor ágil de Gerbase se afirma com o domínio de uma estrutura temporal ambígua e uma referência quase nostálgica aos antigos filmes policiais/noir. Apesar de considerado um "novo talento" do cinema brasileiro, esse gaúcho de 41 anos já possui uma longa experiência com o audiovisual, desde suas experiências em super 8, passando pelos curta-metragens e pelas minisséries televisivas. Deve-se acrescentar ainda que essa experiência já se fez sentir inclusive em projetos de duração maior que o curta. Com apenas 20 anos, já apresentava um filme de 45 minutos em super 8 intitulado Meu Primo. Em 1983, produz Inferno, um longa-metragem em super 8 de 90 minutos de duração. No ano seguinte, dirige um longa-metragem em 35 mm intitulado Verdes Anos, pouco conhecido, com o qual ganhou um prêmio em Gramado. Além disso, possui inúmeros trabalhos em vídeo e para a televisão, sejam de ficção, videoclipes ou institucionais.

Por tudo isso, a expectativa em torno do lançamento de Tolerância, como já se disse, não poderia ser maior. A experiência do grupo, os bem-sucedidos trabalhos na televisão e a ótima repercussão de seus curta-metragens formavam uma das maiores expectativas do cinema brasileiro no ano 2000. Ademais, o projeto veio sendo cuidadosamente elaborado e preparado ao longo de vários anos. O primeiro tratamento do roteiro data de dezembro de 1995; a última versão, de maio de 1999. Durante quase quatro anos, portanto, o roteiro foi sendo sistematicamente revisado, aprimorado, reavaliado. A princípio idealizado por Carlos Gerbase, o roteiro foi ganhando modificações com as leituras de Jorge Furtado, Álvaro Teixeira e, posteriormente, Giba Assis Brasil.

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Exatamente por todos esses motivos, o que se vê na tela ao longo dos 100 minutos de Tolerância reverte drasticamente a expectativa listada. O primeiro projeto da Casa de Cinema de Porto Alegre é, infelizmente, o revés do trabalho sempre criativo e inovador do grupo, ainda que com um projeto de contato com o grande público. Em Tolerância, o que mais surpreende é a concessão irrevogável por uma forma (ou melhor, uma fórmula) de cinema previamente fabricada e repetida à exaustão. Abusando dos clichês das mais banais superproduções do cinemão hollywoodiano, torna-se uma colcha mal costurada de uma série de elementos que variam do thriller psicológico ao pornô soft. Em contraste com os sempre criativos diálogos de Gerbase, temos as péssimas interpretações de Maitê Proença e Roberto Bomtempo, repletas de reações artificiais e lugares comuns. Logo no início do filme, a defesa de Teodora no Tribunal – a advogada interpretada por Maitê – não convenceria nenhum jurado. As soluções arquitetadas pelo roteiro são sempre as mais simplórias. A forma como Anamaria se aproxima de Júlio é tão explícita que quase se torna patética. Na verdade, a tão elogiada atuação de Maria Ribeiro peca na verdade pelo excesso: é um conjunto de "caras e bocas" que torna sua personagem uma criatura vulgar. De fato, em todo o roteiro, a caracterização psicológica dos personagens é de uma superficialidade quase insuportável. Todos os clichês psicológicos são inseridos como se fossem reveladores ou inovadores. A inserção de um personagem que nos remete à questão latifundiária no Brasil tenta garantir ao filme um certo respaldo social, mostrar evidências de uma "responsabilidade" do realizador, mas acaba esbarrando no caricato e no símbolo barato. Os quiproquós de Júlio enquanto aguarda a presença de Anamaria e a chegada da pizza, despistando sua esposa que chegara de surpresa, somente revelam que Tolerância nada mais é que uma diversão barata que utiliza recursos tão pasteurizados quanto os da televisão.

Os bons filmes do cinema americano – e assim diziam os críticos da Cahiers nos anos 60 – mostravam suas virtudes nas entrelinhas. Apesar de sua narrativa clássica, sua adesão explícita ao desenho do cinema de gênero e seu primordial contato com o público, deixavam entrever uma questão e uma visão de cinema e de mundo essencialmente pessoal. Este parece ser o pressuposto de Gerbase. No entanto, se a ruptura com os padrões desse mesmo cinema só se revelava nas entrelinhas, num discurso implícito, no filme de Gerbase, tudo deve ser mostrado à exaustão. É através dessa "superexplicitação" que Gerbase revela sua imaturidade em realizar um filme que efetivamente tenha uma proposta de cinema.

Tolerância tem uma trama parecida com Atração Fatal. Márcia (Maitê Proença), uma advogada, e Júlio (Roberto Bomtempo), que retoca fotos de mulheres nuas utilizando recursos da computação gráfica, são um casal feliz. O equilíbrio é quebrado quando Márcia conta ao marido que o traiu com um cliente (Nelson Diniz). Ela deseja um relacionamento sexual mais aberto entre o casal. Ele resolve então ceder aos encantos de Anamaria, amiga de sua filha Guida (Ana Maria Mainieri), que passava férias com a família. Quando Márcia descobre, no entanto, ela reage de forma oposta a que vinha defendendo. Anamaria morre e Júlio passa a ser o principal acusado. Através de um jogo com o ponto-de-vista e de flashbacks, o filme passa a ser não-linear. No final, descobre-se que Guida matara Anamaria para defender sua mãe, quando ambas brigavam. Márcia usa seu talento de advogada para incriminar seu cliente, que a essas alturas foi morto por um grande fazendeiro. Júlio acaba absolvido, ao ser defendido pela esposa.

De fato, Tolerância é tão ou mais conservador que Atração Fatal. Embora evidencie a inutilidade da justiça, mostrando as peripécias armadas pela advogada para absolver Júlio, é preciso observar que Márcia acabou no fim das contas não apenas salvando sua filha, mas essencialmente seu casamento nos moldes tradicionais. Ao final das contas, a família ficou tão unida quanto antes. As ameaças foram eliminadas, seja Anamaria ou o cliente de Márcia. Esses dois personagens são apresentados com a mais rala preparação psicológica, especialmente Anamaria.

Dentro da forma estrutural básica seguida pelo roteiro, parece claro que a única personagem que poderia ter matado Anamaria seria Guida. Júlio era o principal acusado; Márcia, uma escolha por demais óbvia, justificada pelo ciúme; Teodoro, o cliente de Márcia, nem mesmo conhecia Anamaria. Como Guida não deve se revelar má, a morte deve ser obviamente um homicídio culposo. Alguns críticos ficaram entusiasmados com a não-linearidade do roteiro, e como esse "quebra-cabeças" vai se revelando pouco a pouco. No entanto, não passa de mero maneirismo de estilo, inclusive mal acabado. Entre as tantas artimanhas do roteiro, há paralelismos tão banais quanto a justificativa por que Márcia resolve defender o marido. Ela diz "estou fazendo isso pela nossa filha". No final, mostra-se que a frase deveria ser entendida literalmente.

Por fim, Tolerância utiliza um recurso quase covarde. Por muito tempo, o cinema brasileiro teve uma imagem extremamente negativa com o público em relação ao erotismo de algumas cenas, especialmente nos anos setenta, com a famosa pornochanchada. Após a retomada, nota-se um esforço incomum para reverter esse preconceito. O preço pago para reverter esse "truísmo" chega a ser quase um excesso. Vemos uma quantidade infindável de insossos filmes de época em que as mulheres não exibem nem mesmo o tornozelo. Os filmes brasileiros recentes têm sido bem comportados, mas isso não significa que os cineastas têm tratado tais cenas com covardia. Há alguns filmes que apresentam cenas marcantes de sexo, como Um Céu de Estrelas e Um Copo de Cólera. No entanto, fazem-no com um bom gosto indiscutível e com um contexto completamente justificado na ação dramática do filme.

Pois bem, Tolerância é exatamente o oposto dessa tendência. Distribuído pela Columbia, com o apelo a um público mais adolescente, para o qual o cinema brasileiro não tem especificamente apresentado alternativas, é um péssimo formador de opinião. Na saída, o comentário é comum: "como todo filme brasileiro, tinha que ter um pouco de sacanagem, né?". As cenas de sexo em Tolerância beiram o mau gosto e são claramente desnecessárias. São inseridas com o objetivo de lembrar ao público de que o cinema brasileiro de hoje continua tendo resquícios das velhas pornochanchadas, o que é enganador. Nada contra as pornochanchadas, no que elas tinhas de autêntico ao retratar o Brasil numa crônica de costumes, mas essa efetivamente não é a intenção de Tolerância. A primeira transa entre Júlio e Márcia, num bosque, tenta resgatar o clima do famoso quadro Le dejeneur sur l´herbe, de Manet. Obviamente fracassa, especialmente porque o cineasta não promove um jogo com a luz e com a profundidade que pudesse evocar o clima do quadro. Mais tarde, quando finalmente Júlio se rende aos caprichos de Anamaria, a cena é de um excesso claramente desnecessário. Todo o hercúleo trabalho de grande quantidade de filmes da nova safra para reverter esse preconceito parece ter sido jogado na lata do lixo pela irresponsável apresentação das cenas de sexo no filme de Gerbase.

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É uma pena que um talento tão promissor quanto Gerbase tenha se mostrado reacionário, mas enfim, filmes ruins são feitos, erros são cometidos, e o que há de tão devastador nisso? De fato, deve-se lembrar que o fracasso de Tolerância não singnifica que o próximo filme de Gerbase não possa ser um belo filme. Podemos citar como exemplo o rápido amadurecimento da equipe da Conspiração, que em Eu, Tu, Eles realizou um filme que promove um diálogo com o público sem abrir mão de uma proposta de cinema inteligente e instigante.

De fato, o que mais nos aterroriza não é o fracasso do filme de Gerbase em si, que lamentamos e nos surpreendemos, mas sim o fato de que a crítica foi praticamente unânime em ressaltar as qualidades do filme. Revestidas de um superficialismo redutor, as críticas dos principais meios de comunicação se limitam a repetir os mesmos temas. De um modo geral, Tolerância é bem sucedido ao compor sexo, crime e paixão num roteiro bem arquitetado e com surpresas na hora certa. Elogiam a atuação dos atores, em especial de Maria Ribeiro, e a introdução do tema dos sem-terra.

Ainda assim, isso poderia refletir apenas uma diferença de opinião entre este interlocutor e os demais críticos. No entanto, é no mínimo curioso um filme com todas as irregularidades de Tolerância não receber sequer uma crítica negativa. A crítica de fato tem se afirmado com uma unanimidade que impede uma discussão mais ampla sobre os filmes exibidos. Isso também confirma que esses veículos vêm tecendo elogios sobre um cinema brasileiro, e não sobre o cinema brasileiro.

Na verdade, a crítica que se lê nos principais jornais e veículos de comunicação do país é em sua assustadora maioria, antes de um texto crítico, uma reprodução do senso comum. A crítica a filmes estrangeiros é simplesmente uma reprodução que sintetiza os argumentos da crítica estrangeira. Portanto, funciona quase como uma matéria jornalística, resumindo para o leitor a opinião do estrangeiro, considerada como um "fato" irrefutável. Nos filmes fora de Hollywood, apela-se para o bom gosto da crítica bem comportada, ou seja, o mainstream da produção não americana: são os clássicos de Kiarostami, a estética kitsch de Almodóvar, o novo filme de Wenders, etc.

Nos filmes americanos, a estratégia é ainda pior. Os críticos julgam que os espectadores que assistem a um filme tão insosso quanto A Múmia não procuram nenhum resquício de inteligência mas simplesmente entretenimento. Por isso, ao invés de se debruçarem sobre as características estético-ideológicas do filme em si, preferem fazer um julgamento de qual seria a opinião desse tipo de espectador. Segundo esse critério, como A Múmia é um grande besteirol, e esses espectadores estariam preparados para ver nada além disso, o filme é excelente. O jornal O Globo, por exemplo, à época do filme, lançou a cotação máxima ao filme (bonequinho aplaudindo de pé). A crítica, portanto, passa a ter uma função de servir essencialmente ao mercado, indo de encontro ao que o espectador "acha" ou "deve achar" do filme em questão. Se o crítico julga que os espectadores que irão assistir a um filme de sexo explícito irão se divertir como nunca, correspondendo ao máximo a suas expectativas, o filme deverá receber cotação máxima. O critério de julgamento do crítico é portanto baseado exclusivamente em uma avaliação do que o espectador médio que assiste àquele tipo de filme deve achar ao final da sessão. Entre os inúmeros problemas desse tipo de abordagem, duas são as mais evidentes. Em primeiro lugar, o que diferenciaria o crítico de um espectador comum? Nesse caso, não haveria a necessidade de nenhum conhecimento de linguagem cinematográfica, mas apenas possuir um "feeling" sobre o comportamento do público (claramente um recurso de marketing). Em segundo, o que é esse espectador médio?

Nos filmes brasileiros, a questão passa a ser um pouco mais complexa, já que não existe a recepção da crítica estrangeira. Quando esta é positiva, a reação da crítica vai na mesma direção. Se o filme participa de festivais internacionais, certamente será bem recebido pela crítica. Mas de fato, vigora nas críticas de jornal uma certa complacência pelo cinema brasileiro. Se observarmos com atenção, dificilmente um filme brasileiro, mesmo que ruim, recebe cotação mínima desses veículos. Os pontos mais agressivos ao cinema nacional acabam sendo as matérias jornalísticas e os artigos, e não as críticas de cinema.

Já por esses breves pontos, pode-se perceber que não existe nos grandes meios de comunicação uma crítica de cinema no Brasil. A unanimidade, em que se baseia a dita crítica, é na verdade, a coroação do senso comum, que geralmente é determinado pela recepção da crítica estrangeira. Mesmo nos filmes nacionais, a crítica local sempre procura em primeiro lugar a aceitação do filme no estrangeiro.

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Essas idéias gerais nos fazem retornar a nosso tema inicial. A crítica brasileira elogia o filme Tolerância porque ambos possuem um viés em comum: a necessidade de se adotar como parâmetro um modelo que vem de fora. É exatamente nesse ponto que retomo as sábias afirmações de Paulo Emílio Salles Gomes na década de 60, isto é, há mais de quarenta anos! De fato, o cinema brasileiro é provinciano. É como o flanelinha que, ao invés de pensar em construir um estacionamento com outros sócios para disciplinar o trânsito e oferecer mais segurança aos motoristas, briga para manter o seu palmo de rua, onde cabe no máximo meia dúzia de carros. Produto de uma pequeno-burguesia que hereditariamente se perpetua, o cinema nacional é visto como um subproduto mal sucedido do cinema, isto é, o cinema americano.

Entre as diversas frases de Paulo Emílio em seu famoso texto Uma situação Colonial?, cito as seguintes:

"Esses homens práticos não estão na realidade capacitados para nenhuma ação de conseqüências no quadro geográfico e humano brasileiro. Podem ter idéias e realizar projetos, mas sempre dentro dos limites estreitos ditados por uma situação externa diante da qual se sentem desarmados."

"Cria-se assim uma harmoniosa combinação de pontos de vista entre os produtores e o público desses filmes brasileiros. Para ambos, cinema mesmo é o que vem de fora, e outra coisa é aquilo que os primeiros fazem e o segundo aprecia. Essa situação suscitou no produtor uma mentalidade particular, uma dissociação de natureza quanto aos filmes fabricados dentro e fora do país. Ele se interessa por uma legislação de amparo ao cinema nacional mas não passa por sua cabeça que o objetivo final possa ser o de colocar os filmes brasileiros em pé de igualdade com os estrangeiros. Seu horizonte está restringido à criação de condições favoráveis ao prolongamento e ampliação de suas atividades habituais."

"À primeira vista, os que se dedicam sobretudo a escrever sobre cinema - críticos e ensaístas - não seriam necessariamente atingidos pelo clima depressivo que envolve os outros setores. Um exame pouco mais acurado demonstra que não há fuga possível da geografia e do tempo."

"Assim como a prosperidade do importador está condicionada a realidades econômicas estrangeiras, o enriquecimento cultural do crítico gira progressivamente na órbita de um mundo cultural distante. Como o primeiro, acaba marcado pelos sintomas da alienação."

Retomando, o que mais nos espanta em Tolerância é a covardia do criativo e competente Carlos Gerbase e seu grupo da Casa de Cinema em criar um filme que não esteja subordinado aos padrões do cinema hollywoodiano. Em cada plano, estrutura psicológica dos personagens, pontos de virada e decupagem, observa-se a necessidade explícita de usar como guia um tipo de cinema que não é o nosso. Fracassa, porque esse tipo de cinema os americanos evidentemente sabem fazer e têm todas as condições materiais para fazê-lo melhor. Por sua vez, a maioria esmagadora da crítica legitima essa busca por um padrão externo, como prova de seu próprio "definhamento intelectual" (utilizando a expressão de Paulo Emílio).

O ápice dessa tendência é o avanço de um tipo de crítica que julga que o tipo mais válido de cinema é o que apresenta uma proposta de contato com o público. É regido, portanto, por uma lógica essencialmente mercadológica. Nesse sentido, o principal crítico tem sido o sr. Jaime Biaggio, do Jornal O Globo. Já em sua crítica sobre Janela Indiscreta, o crítico defendia que os filmes de Hitchcock são espetaculares porque tanto o pesquisador quanto o espectador comum poderiam se encantar com o filme. O critério, portanto, para se medir a qualidade do filme é sua capacidade de repercussão. Quanto mais diversificado o público que aprecia o filme, tanto melhor. Essa idéia só corrobora as impressões listadas anteriormente sobre a apreciação da crítica brasileira aos filmes estrangeiros.

Um outro capítulo chocou os pesquisadores e ensaístas cariocas. A estréia do tão aguardado Gente da Sicília, dos teóricos Huillet e Straub, foi simplesmente rechaçada por Biaggio pelo simples fato de não se encaixar em sua proposta de cinema. Numa crítica desrespeitosa, Biaggio afirma que o filme dá sono, é muito chato, e inclusive que "é filme pra crítico".

Em sua crítica sobre Tolerância, Biaggio dá cotação máxima ao filme, o bonequinho aplaudindo de pé. Num curto texto com alguns erros de português, Biaggio novamente mostra a visão colonizada e alienada de grande parte da crítica nacional. Nas entrelinhas do texto, fica claro que finalmente o cinema nacional aprendeu a forma de se fazer um bom filme. Ao final, ele completa, "e o mais importante, capaz de somar apelo comercial à inteligência". O próprio título do texto - "A política do desejo" - é na verdade um rótulo comumente usado no início dos anos 90 para sintetizar o impacto dos filmes de Pedro Almodóvar, o que só nos revela como o crítico inconscientemente recicla os lugares comuns da própria crítica como se fosse algo novo.

É preciso ressaltar, ainda mais uma vez, que de forma alguma este texto pretende incidir contra um cinema que busque um apelo comercial. No entanto, apelo comercial e contato com o público podem ser conseguidos sem a utilização explícita de uma estrutura e de uma visão de cinema essencialmente colonizada. A questão que aqui se coloca é que estes não podem ser os critérios definitivos para se avaliar criticamente um filme brasileiro. Ou seja, não é porque possui um maior apelo comercial que um filme deve receber melhores críticas. Um corolário dessa questão é que os críticos muitas vezes não defendem o cinema brasileiro, mas um cinema brasileiro. Mas este cinema brasileiro de fato não é brasileiro, e sim o cinema globalizado, transgênico, colonizado...

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Na apresentação da sinopse de Tolerância, Gerbase mostra que os personagens que compõem o casal principal são desiludidos. São indivíduos de pouco mais de quarenta anos que não possuem mais nenhum ideal senão o de sobreviver. No passado, eles tinham ideais; agora, vivem de suas aparâncias, camuflando a verdade, seja no depoimento ensaiado ou no retoque pela mão mágica do computador. Assim eles ganham o seu dinheiro e levam uma vida confortável. A ética que vá para o espaço. Daí o espectador deve se perguntar: até que ponto assim não o é o próprio Carlos Gerbase (com 41 anos) e o cinema que seu filme promove? Ou ainda, até que ponto, nós, que assistimos com paixão a tantos filmes ou que trabalhamos com cinema, queremos que os filmes espelhem essa visão de mundo? Até que ponto vai a responsabilidade do artista em promover um mundo mais humano? Até que ponto devemos valorizar e elogiar um filme que, sem nenhuma consciência crítica, vangloria a falta de ética, o materialismo e o utilitarismo como melhor modo para se sobreviver? Até que ponto queremos que o atual estado das coisas se perpetue? Por isso, os créditos finais de Tolerância, ao som de "como nossos pais", mostrando que a família continua "feliz para sempre", como se nada houvesse acontecido, é mais que um desrespeito à memória de nosso país. É um sinal claro de que, dependendo de Gerbase, nada vai mudar e que tudo continuará sempre como foi, da mesma forma. Tolerância não procura ser um filme de resistência, mas sim de conformismo e legitimidade. De fato, o final de Tolerância não é pessimista, e sim reacionário. Assim como a estética desse cinema colonizado cuja estrutura viemos comentando, o filme, em seu desfecho, exibe claramente uma ideologia que vangloria a falta de ética e de caráter num discurso materialista e provinciano.


Marcelo Ikeda, formado em economia pela UFRJ, é aluno do curso de cinema da UFF desde 1998, sendo monitor da disciplina História do Cinema Mundial. Editor do site Claquete (http://w3.to/ikeda), com críticas e ensaios sobre cinema. Seu primeiro vídeo, 'Depois da Noite' (1999), explorando o tema da incomunicabilidade de uma criança, recebeu a Menção Honrosa no Festival Vide Vídeo/UFRJ em 1999.
Contato pelo e-mail: claquete@hotmail.com.


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