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Um minuto de silêncio & ruídos - Keuken Revisitado

Por Guilherme Whitaker em 31/01/2005 09:58



UM MINUTO DE SILÊNCIO… E RUÍDOS
Por Bernardo Carvalho 


O deslocamento dos elementos constitutivos fundamentais, materiais e conceituais, de qualquer filme em função de sua problematização é um procedimento recorrente nos filmes de Johan van der Keuken. Dois dos filmes que compõem a homenagem a Johan van der Keuken, durante a Mostra do Filme Livre, colocam em questão, cada um a seu modo, a captação do som, o significado geral e conjectural da sincronia, o silêncio, a manipulação expressiva do som. “Um momento do silêncio” (Even Stilte, 60/63), primeira experiência de Keuken como operador de câmera e montador, é uma coletânea de observações sobre Amsterdam, repleta de referências ao hábito e ao cotidiano. O segundo, “Amsterdam Afterbeat” (96), foi realizado durante as filmagens de “Amsterdam Global Village”, registrando o trabalho da operadora de som Noshka van der Lely. Ambos tratam do som como fonte criadora de sentidos, tanto na manipulação interna das seqüências — a singularidade de cada experiência —, quanto na reflexão mais geral sobre as relações entre som e imagem, que confere um sentido crítico peculiar aos filmes.

Como o título adverte, “Um momento de silêncio” é praticamente silencioso. Digo praticamente porque pairam sobre a banda sonora partículas de som, ruídos quase imperceptíveis que, de acordo com as imagens da cidade, transmitem aquilo que, por ora, chamaríamos “sensação sonora”. A “sensação sonora” seria o procedimento involuntário que o intelecto realiza quando a imagem é, por assim dizer, “ruidosa”. Exemplos: quando olhamos imagens de ruas repletas de carros, sem o som correspondente, dificilmente não ‘ouviremos’ as buzinas, motores e toda a algazarra urbana; em alguns filmes mudos, como por exemplo “A Paixão de Jeane D’arc”, de Carl Dreyer, sentimos que os enquadramentos, os atores, os movimentos transmitem certas inflexões sonoras, que se não existem do ponto de vista estritamente físico, são produzidos em nossa mente por alguma espécie de estímulo — que, por ora, foge à compreensão do crítico. Graças ao hábito, as “imagens ruidosas” estimulam a lembrança, levam nossos sentidos a amplificar ruídos e torná-los mais robustos do que são. De modo que, em “Um minuto de silêncio”, o que importa não são os ruídos que, volta e meia, salpicam a banda sonora; mas a “sensação sonora” que estes ruídos, em associação com as imagens, estimulam. O assunto do filme é Amsterdam, mais precisamente, um olhar sobre Amsterdam. Este olhar busca revestir-se de intimidade e recorre ao silêncio quase absoluto para sublinhá-la. Como se o silêncio, que por vezes leva nossos sentidos a ‘ouvir coisas’, conduzisse o espectador a somar, com seu entendimento e experiência, novas perspectivas sobre o objeto focado.

Em “Amsterdam Afterbeat” o enfoque é outro, embora permaneça o sentido de indefinição e participação. Trata-se de um comentário bastante curioso sobre a produção objetiva da sincronia. Ao terminar cada tomada, Keuken volta sua câmera invariavelmente para a operadora de áudio, Noshka van der Lely. Com um tapa no microfone, Noshka grava um ruído que, posteriormente sobreposto ao ruído da claquete, facilitará o ajuste de sincronia entre som e imagem. Muitas dessas ‘pontas’, em que Noshka produz o ruído, são utilizadas por Keuken em “Amsterdam Afterbeat”. Explicado o método de trabalho, Keuken passa a uma sucessão dessas tomadas. Montadas em conjuntos, seqüências meramente técnicas, se transformam em uma histriônica sinfonia de ruídos. O resultado é surpreendente e extremamente desmistificador. Expõe ao espectador uma série de supostos ‘erros’, de imagens aparentemente sem sentido, mas que revelam, ao menos parcialmente, a gênese e o sentido da produção audiovisual. Convocam a intuição a refletir e desconfiar da imagem absoluta, supostamente vinculada à realidade, expondo sua constituição técnica e abrindo caminho para novas manipulações, novas experiências.

Mesmo que busquemos a diferença entre os grandes inventores do cinema, e guardemos certas reservas quanto a comparações sumárias, mesmo assim, não nos parece exagero alinhavar certos espíritos, pelo menos no que eles têm em comum, que é o ímpeto experimentador. Digo isso porque, à medida que Keuken suscita desconfiaças a respeito do processo mágico do cinema, mesclando a análise dos suportes e dos procedimentos técnicos com a multiplicação de perspectivas sobre a montagem e a narrativa, mais ele nos remete ao legado de um outro grande ‘documentarista’, o russo Dziga Vertov. Vertov condenou o cinema americano, não por sua técnica narrativa arrojada, mas pelos propósitos de suas prática, isto é, pela intenção deliberada e teatral de tão somente narrar estórias. Para ele, o cinema deveria chegar, através da pesquisa e da experimentação, à linguagem e assuntos próprios, livre dos grilhões da literatura e do teatro. E mais: através desse ‘novo cinema’, se reproduziria a consciência crítica necessária a qualquer estado de mudança. Para Vertov, o cinema não seria um mero instrumento contador de estórias, mas, dado seu caráter popular, uma ferramenta de auto-conhecimento e revolução. De outro modo, mas compactuando com a mesma cartilha, Keuken lança mão de procedimentos diversos — dos quais “Um momento…” e “Amsterdam…” são apenas exemplos — descortinando clichês e trazendo à baila elementos para uma crítica menos compromissada com a ficção e seus métodos tão fascinantes quanto fetichistas.


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