Uma (breve) história do documentário – Parte 1 ::  | Curta o Curta

Uma (breve) história do documentário – Parte 1

Por Guilherme Whitaker em 08/09/2002 18:04


                                                                                     Uma (breve) história do documentário – Parte 1
                                                                                               Autor: Luciana d`Anunciação



                                                                       --------------------------------------------------------------------------------

» O pré-documentário

Ainda hoje, existe uma enorme dificuldade em definir o documentário. Quando ele surgiu e se firmou como um estilo cinematográfico, dizia-se que era uma oposição, ou contrário, do cinema de ficção, pois supostamente tratava do real. Entretanto, estudos recentes tem contrariado esta definição. "As relações entre a ficção e o filme documentário sempre foram ambíguas (...). Existem numerosas coincidências e sobreposições que apontam para uma indefinição de fronteiras." [1]

Desde seu surgimento, os chamados filmes documentários apresentaram enorme variação, em todos os aspectos, inviabilizando a criação de conceitos ou modelos universalizantes. Mas isso não impediu vários estudos de sugerirem ligações e interpretações sobre o seu desenvolvimento do através dos tempos.

Tentativas documentais surgiram juntamente com o cinema. Os irmãos Lumière, "inventores" do cinema, já em suas primeiras apresentações públicas exibiam cenas do cotidiano (pessoas saindo das fábricas Lumière, um trem chegando em uma estação), que podem ser consideradas esboços de um estilo que estava por vir, pois, apesar de seu caráter experimental e despretensioso, buscavam retratar aquela época.

Depois disso, surgiram os denominados "filmes de viagem", em que exploradores registravam sua passagem por lugares exóticos e desconhecidos. Mas a falta de uma linguagem definida dificultava o entendimento para quem não fosse da família ou próximo ao viajante.

» O novo gênero

Em 1913, o explorador Robert Flaherty foi convencido por Sir William Mackensie, seu contratador, a levar uma câmera para registrar sua terceira expedição. Como resultado, quase dez anos depois, em 1922, Nanook of the North, surgiu como o primeiro longa com uma estética própria e capaz de manter uma linha narrativa. Repudiando os pseudo-documentários que eram reconstituições em estúdio ou que tinham o próprio explorador como personagem principal, Flaherty parte da observação para mostrar a vida de uma família esquimó. Seu filme é considerado o "protótipo de um novo gênero".

Mas foi o escocês John Grierson, fundador da escola documentarista inglesa que começou a formalizar e normatizar o documentário enquanto produto, atribuindo-lhe a função social de instrumento de educação das massas e de formação da opinião pública. Grierson foi crítico, teórico e produtor de documentários. Em seus artigos fundamentou o que hoje chamamos de documentário clássico [2]. O filme Drifters, de 1929, fala sobre o trabalho dos pescadores de arenque, é o único dirigido por Grierson.

Contemporâneo de Grierson, Dziga Vertov traçou um caminho quase oposto. Também pudera, a revolução russa estava em andamento e era preciso criar novas obras de arte, para expressar a nova ordem que nascia.

Para Vertov, o cinema também tinha a função social de educar, mas sua estética e temática passavam a quilômetros de distância da proposta de Grierson. Enquanto o documentário inglês era de propaganda do império, o cinema soviético, inspirado na arte futurista, era um elogio a tecnologia. Se os ingleses eram de uma formalidade técnica, os soviéticos tinham no improviso e na exposição da câmera sua marca. O "Cinema-olho" russo era rigorosamente contra as encenações e dramatizações, toleradas e largamente utilizadas por Grierson. Em O Homem da Câmera, realizado também em 1929, Vertov explicita sua visão sobre o cinema.

____________________________________________________________

[1] BARTOLOMEU, Anna Karina. O documentário e do filme de ficção: relativizando as fronteiras. Belo Horizonte: EBA/UFMG, 1997. (Dissertação).

[2] O documentário clássico pode ser resumido nas seguintes características estruturais: imagens rigorosamente compostas, fusão de música e ruídos, montagem rítmica e comentário em voz off despersonalizada.


--------------------------------------------------------------------------------

Luciana Rodrigues d’Anunciação – Jornalista formada pela UFMG. Este texto é parte do projeto experimental “Y-ATA-OBÁ – O Reinado do Rosário”, apresentado em novembro de 2000. Contato em Luciana_anunciacao@yahoo.com.br


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta




[confira outras notícias]