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Vila Mimoza e As Justiceiras de Capivari: duas vezes Nepomuceno

Por Guilherme Whitaker em 08/11/2004 22:45


Vila Mimoza e As Justiceiras de Capivari: duas vezes Nepomuceno
Autor: Marcelo Ikeda


A sessão de vídeos digitais da Mostra Curta Cinema 2002 permitiu um pequeno panorama de um jovem documentarista carioca: Felipe Nepomuceno. Através de dois vídeos, Vila Mimoza e As Justiceiras de Capivari, pudemos conhecer o desenvolvimento do trabalho de um realizador em busca de sua expressão própria no documentário.

Vila Mimoza e As Justiceiras de Capivari são parte de um mesmo processo, de uma mesma busca no documentário, e desta forma, partem de muitos pontos em comum. São dois pequenos ensaios, em forma de curta-metragem, com grande concisão e firmes em seu propósito de investigação de uma linguagem própria do documentário. Partem de temas marginais, de discursos marginais: as prostitutas de Vila Mimoza e o de um grupo de mulheres da Baixada do Rio de Janeiro que querem fazer justiça com as próprias mãos, apanhando um estuprador de mulheres.

O que impressiona nestes dois singulares vídeos é sua austeridade, é afirmar o documentário como processo físico, é incorporar uma corporalidade e uma objetividade quase assustadoras. A simplicidade dos meios técnicos se torna um meio de expressão de uma realidade brutal, apresentada em sua forma mais intrusiva e direta. Para Nepomuceno, o documentário é sobretudo a impossibilidade de um discurso, e seus filmes são meros fragmentos. Neles, o que impera é a voz, é a questão de dar a voz aos que não tem discurso. Dar a voz é diretamente associado a uma estética da imagem: são filmes limpos, sem malabarismos de câmera ou de fotografia. É a opção pelo close, é a integração da voz e do rosto, a voz e o rosto como expressão, e a expressão como voz. A cara das prostitutas, a cara das justiceiras nos surge com tamanha objetividade que chega a nos parecer quase ofensiva.

Sim, mas se essa presença da voz é cristalina, se ela existe, existe também, como dizíamos, a impossibilidade de um discurso, a incompletude do documentário como instrumento de contato, existe a distância, a timidez, e a incomunicablidade. A austeridade desses dois vídeos se reforçam pelo corte seco, elíptico, pela idéia de que se coletam fragmentos de discursos, pela necessidade quase obsessiva de se evitar qualquer discurso generalizante. Não existe a vitimização, não existe o discurso, existe sim o “dar a voz”.

Em Vila Mimoza, há instantes quase absurdos de ingenuidade, há instantes cruéis de confissões. Uma mulher diz que espera por seu namorado; outra diz que sangrou horas num aborto. Ambas têm a mesma expressão, a cara limpa. Duas delas estão num salão de beleza. O contraponto é muito ambíguo: o embelezamento, a poesia de Vila Mimoza é a tentativa esdrúxula de sobreviver em um mundo “que se parece o inferno”. Como uma fabulação, valorizada pelo belo uso das cartelas, Vila Mimoza provoca o espectador porque sua brutalidade não impõe uma série de referências sociais, nem ao mesmo um processo de martirização. Não há conclusões, há apenas o filme.

Se Vila Mimoza já nos desnorteia, As Justiceiras do Capivari, seu melhor filme até então, avança ainda mais. A violência, grande tema dos vídeos de Nepomuceno, surge a partir de seu reverso: a impossibilidade da vingança. Pais contam como sua filha foi barbaramente estuprada e violentada por um maníaco. Vizinhos querem capturar o impostor para fazer atos de violência ainda mais bárbaros. Há uma cena em que uma mulher descreve três possibilidades de vingança. É terrível, mas o pior é que é terrivelmente humano. É terrrivelmente compreensível, mas ao mesmo tempo intolerável. Se sentimos todo o drama da família da criança morta, vemos todo o discurso bárbaro de vingança apresentado da mesma forma como o da morte da criança. Na linha do cinema de Ozualdo Candeias e nos lembrando do tom austero e crítico de Não Matarás, de Kieslowski, Nepomuceno faz um filme na corda-bamba entre o que é ou não humano, de como a vingança é tão mesquinha quanto o assassinato. Acertadamente evitando qualquer tipo de conclusão moralista ou qualquer tentativa de discurso social, Nepomuceno afirma sua estética materialista, mantém-se o máximo distante, até o limite do insuportável.

Nepomuceno é acima de tudo um materialista. Em seus vídeos, não existe espaço para a comoção tola, para a teorização pela teorização, para o exercício de exploração dos marginalizados tão típico ao atual cinema brasileiro. Seus próximos filmes merecem ser mais vistos e melhor observados.

Marcelo Ikeda é editor do site Claquete ( http://claquete.cjb.net ). E-mail: claquete@hotmail.com.


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